Um país de leitores...e os escritores?
A escritora Socorro Acioli, autora de obras bem sucedidas como “Cabeça do
Santo” e “Oração para desaparecer”, publicou artigo na Folha de São Paulo na
edição de 1º de junho de 2026 afirmando que os brasileiros estão lendo mais
literatura ao verificar in loco a grande presença de público nos
eventos literários dos quais ela participa.
Tenho a mesma percepção da escritora cearense. Ao
menos aqui na Bahia tivemos no ano passado diversas festas e feiras literárias
em cidades de pequeno e médio porte do estado, movimentando a vida cultural
daqueles lugares. E no presente ano elas prosseguem, juntamente com grandes
eventos já consolidados na capital, como a Bienal do Livro e a Flipelô. E o
público, tal como percebeu Acioli, é majoritariamente feminino.
Em dado momento, a autora afirma que “a vida do
autor brasileiro hoje é uma jornada cigana, de cidade em cidade, vencendo as
distâncias para ir aonde o leitor está”. Isso é verdade e demonstra o crescente
interesse pela cena literária em um país com dificuldades de leitura de livros.
No entanto, há problemas e desafios que vão além das distâncias geográficas,
sobretudo quando os envolvidos são os escritores iniciantes e independentes.
Já escrevi uma crônica sobre as dificuldades
encontradas por estes escritores para conseguir espaços e oportunidades a fim
de divulgar seus livros. Relembrei João Ubaldo Ribeiro se queixando da
expectativa de editores e demais pessoas ligadas a círculos literários em obter
dos escritores o trabalho gratuito.
Apresento o exemplo de uma cidade de grande porte
no interior baiano. A organização de uma feira literária abriu o edital para os
escritores interessados em divulgar seus livros lançados entre 2025 e 2026. O
documento apresentava todas as informações necessárias e como ocorreria a participação
dos autores selecionados, em um espaço onde teriam 5 minutos de fala. E, ao fim
do edital, a informação de que não haveria nenhuma ajuda de custo aos
interessados: transporte, alimentação, hospedagem e deslocamentos seriam de
responsabilidade dos autores.
Só faltou mesmo a indecente frase: “Pense na
divulgação do seu trabalho!”. Se eu ganhasse 1 real para todas as vezes em que
ouvi isto para se referir aos meus livros ou para as minhas ilustrações,
provavelmente teria juntado um bom pé de meia.
Escritores precisam ser valorizados
Uma escritora como Socorro Acioli, Itamar Vieira,
Paulo Coelho e outros publicados por grandes editoras e que obtiveram merecido
sucesso com suas obras não encontram tais dificuldades. Já os escritores que
tentam um lugar ao sol precisam lidar com problemas que vão desde calotes de
instituições a situações constrangedoras nos eventos literários, como sessões
sem divulgação e estandes isolados, escondidos num cantinho com menor
circulação de pessoas.
Estes escritores, além de andarilhos com seus
livros e ideias, ainda precisam ser produtores de conteúdo em redes sociais,
editores de vídeos, vendedores e designers. A presença constante no
meio digital e a disputa por atenção em espaços dominados por algoritmos
viciados e tomados por conteúdo “rage bait” (iscas de raiva) não é
apenas injusta, é cansativa. E perigosa, pois a métrica de “sucesso” baseada em
likes e comparações podem gerar complicações emocionais, como
ansiedade, compulsão e baixa autoestima.
Os caminhos para chegar até essas feiras e festas
espalhadas pelo país são longos e nem todos conseguem alcançar um espaço:
muitas pessoas ficam no meio da estrada e outras sequer sabem como iniciar a
jornada. Acabam desistindo e isso é compreensível, ninguém pode julgá-los: o
sentimento de frustração é real.
Mas também há aqueles que persistem e creem no
lema “devagar se vai longe”. São admiráveis os escritores e escritoras que
confiam em seus livros, mesmo com todas as dificuldades para alcançar
potenciais leitores.
É um movimento muito salutar o testemunhado por
Acioli e outros autores. Quando a literatura vira assunto na cidade, as escolas
e bibliotecas são mobilizadas e participam ativamente. Espaços de formação e de
conversas são criados, onde acontece a produtiva aproximação entre leitores e
escritores. Essa movimentação é importante para estimular a leitura de livros e
movimenta a vida cultural dessas localidades.
No entanto, valorizar o livro e a literatura
também passa pela valorização do escritor, tanto daqueles que se tornaram best-sellers
aos iniciantes com suas ideias, versos e histórias a contar. Estes não podem
ser excluídos e negligenciados das festas e das feiras, pois fazem parte de
toda essa movimentação que poderá ajudar a transformar o Brasil em um país de
leitores.
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Poxa, nem me fale... Deixei de comparecer em muitos eventos quando me diziam que eu teria que arcar com o transporte e a hospedagem. Já não bastava eu ser autopublicada a época, e ter que pensar não só em escrever como revisar, diagramar, publicar, fazer o marketing...
ResponderExcluirExistem países com bolsas de incentivo a artistas, principalmente escritores, pra que eles possam produzir. Seria algo a se pensar em fazer por aqui, mas já consigo imaginar o chilique de ~certas~ partes da sociedade com uma bolsa-escritor.
Ótimo texto! 🩶