Pandemia e Educação a distância: faz de conta e professores estressados



Com a pandemia do novo coronavirus (covid-19) todas as escolas precisaram suspender as aulas. Os impactos são gigantescos: em relatório do mês de Março/2020, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) apontou que 850 milhões de estudantes no mundo foram afetados. A suspensão das aulas é medida necessária para evitar aglomerações em lugares fechados e transmissão do covid-19 para toda a comunidade escolar e população em geral. 

Com isso surgiu a ideia de que as aulas poderiam continuar via internet através de plataformas próprias para a EAD (Educação a Distância), utilizando as ferramentas disponíveis de informação e comunicação. Saudada como “educação do futuro” principalmente no Ensino Superior, a EAD para a Educação Básica encontra problemas para ser aplicada, principalmente quanto ao acesso: de acordo com pesquisa da TIC Domicílios, realizada em 2017, mais de 1/3 das residências brasileiras ainda não possui acesso à internet – a maioria destes domicílios está localizada nas camadas mais pobres da população. Isso fere o direito democrático de acesso ao conteúdo das aulas e atividades, pois os alunos destas camadas são os mais prejudicados.

As instituições particulares de ensino estão adotando a EAD como forma de minimizar os "prejuízos" da carga horária para o ano letivo de 2020. No entanto há problemas sérios que estão vindo à tona. 

Professores estressados

Muitas colegas professoras (principalmente da rede particular) têm comentado comigo que estão no limite do estresse com a EAD adotada pelas escolas. O volume de trabalho, que já era grande, aumentou com a preparação de material digital e notificações no celular com cobranças e lembretes em tempo integral. Todos os profissionais da Educação que estão lidando com a EAD são afetados, porém a jornada das professoras é ampliada significativamente, sobretudo para as profissionais que precisam dar conta dos atividades domésticas e dos filhos. Provavelmente muitas já estão desenvolvendo a síndrome de burnout e isso pode resultar em quadros depressivos e distúrbios de sono. 

Vamos considerar um exemplo simples para que todos possam entender a dimensão do problema: uma professora com 14 turmas de inglês de Fundamental II (do 6º ao 9º ano) e Ensino Médio. Imaginem o que é produzir material com conteúdo, linguagem e metodologia diferentes para cada turma. Isso demanda tempo além daquele que está nos contratos e regimentos com a carga horária estabelecida. Cabe lembrar um detalhe: de acordo com estudo da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o professor brasileiro é o que mais trabalha em comparação a outros 46 países – e mais trabalho, infelizmente, não se reflete na renda salarial. 

Quem é professor/professora sabe muito bem o que é esse trabalho de produção e tudo o que envolve a rotina docente porque faz avaliação diagnóstica das turmas logo no início das aulas: há turmas da mesma série em que são tratados os mesmos conteúdos programáticos, porém o ritmo entre elas é diferente por razão simples: estamos lidando com seres humanos, não robôs.

Essa padronização de aulas e metodologias, como muitos tecnocratas pensam e querem a Educação, é uma das maiores “ciladas” da EAD nas escolas da rede básica de ensino. Alunos com necessidades educativas especiais, neste modelo, sentem grandes dificuldades, da mesma forma como alunos adultos da EJA em idade avançada que não conseguem acompanhar ou lidar muito bem com as tecnologias digitais. Este foi um brevíssimo relato para que percebam a diversidade, a heterogeneidade que UM professor/UMA professora precisa dar conta diariamente e estão transferindo toda essa complexidade para a EAD, como se a dinâmica da sala de aula presencial fosse fácil e simplesmente reproduzida no ambiente virtual ao alcance de cliques. 

Transferir todas essas e outras especificidades da sala de aula e da relação aluno/docente para um ambiente EAD é apenas "passar um verniz de modernidade" que atende muito bem as expectativas de mercado e marketing, mas não atende a Educação como deveria.É o que o educador José Pacheco chama de "cosmética pedagógica" e ele nos alerta para o que chamam de "inovação" na verdade "talvez não se apercebam de que estão falando de paliativos de um velho e obsoleto modelo de ensinagem". E ele prossegue com o que é realmente preciso: 

 "Talvez não compreendam de que não se trata de tentar melhorar um modelo educacional herdado da primeira revolução industrial, mas de conceber e desenvolver uma nova construção social de aprendizagem".

Novas tecnologias em uma velha escola é apenas faz de conta. As conexões de que estamos falando vão muito além daquelas transmitidas através de fios e cabos, como bem afirma o educador Mário Sérgio Cortella: "a área da Educação Escolar ainda não pode ser privada da capacidade de comunicação direta, de trabalho docente, da formação".    

É importante registrar que não cabe a comparação feita comumente do “professor virar youtuber ou blogueirinho”. Há diversos youtubers produzindo ótimos materiais em campos variados do conhecimento e entretenimento, porém os youtubers profissionais, digamos assim, já possuem o know-how de produção e edição de vídeo, sonorização, etc. Professores, pelo contrário e em maioria, precisam se virar na produção de suas aulas com o que têm à disposição. Além disso, os professores precisam dar conta da multiplicidade de conteúdos da maneira mais didática possível e dentro do processo do sistema educacional que inclui avaliações, por exemplo. 

Não se trata aqui de ser contra atividades pedagógicas via EAD. Em minha prática docente utilizo vários recursos e repositórios digitais com alunos da rede pública considerando todas as especificidades de acesso e ritmos de aprendizagem; contudo, do modo como a modalidade EAD vem sendo utilizada na rede básica como "aulas", de maneira improvisada e em plataformas mal feitas que imitam modelos disponibilizados até mesmo de forma gratuita pela internet constitui-se em mero tecnicismo instrumentista e deturpado do sentido real da Educação e dos processos de ensino-aprendizagem. 

A armadilha da produtividade 

É muito difícil, diante deste cenário de incertezas que a pandemia trouxe para as nossas vidas, planejar o que deverá ser feito porque não sabemos até quando as medidas de isolamento e distanciamento social serão mantidas. Tudo dependerá das condições relacionadas ao controle de transmissão do covid-19, do sistema de saúde público e das medidas preventivas surtirem efeito. 

É preciso, no entanto, tomar cuidados com certas propostas pós pandemia. Há quem defenda que os professores devem retomar as atividades aumentando as horas de aulas semanais e utilizando todos os sábados para que o ano letivo 2020 não seja prejudicado. E circula até mesmo projeto de lei que visa antecipar ou mesmo cancelar feriados usando como justificativa a retomada da produtividade nacional.

Essa é a grande armadilha que se desenha no pós pandemia: o discurso do aumento da eficiência e da produtividade para recuperar os dias sem atividades profissionais. Para o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, “o imperativo neoliberal do desempenho transforma o tempo em tempo de trabalho (...) Hoje não temos nenhum outro tempo senão o tempo de trabalho”. Não é à toa que os brasileiros, apenas para fazer um recorte, estão desenvolvendo cada vez mais problemas de saúde mental como ansiedade e depressão.

O retorno após a pandemia deve levar em consideração que todos precisaremos retomar os laços sociais, encontros, celebrações, a vida em comunhão. O isolamento social não é uma espécie de "férias" e não deve ser confundido como um grande feriado: há famílias separadas e pessoas em quarentena que podem desenvolver transtornos comportamentais e psicológicos. Isolados e privados de várias atividades, a interação virtual ajuda, porém não substitui rituais importantes para o nosso equilíbrio emocional. 

Neste momento o que precisamos fazer é nos cuidar e cuidar de nossos afetos. Estamos em meio a uma pandemia que forçará mudanças em todos os setores da sociedade. Para o psicopedagogo italiano Francesco Tonucci deveríamos aproveitar esse tempo para pensar em outro modelo de escola e Educação. Até porque voltar ao normal, ou seja, voltar ao que era antes da pandemia é persistir nos velhos problemas que nos trouxeram até aqui.

Referências:

CORTELLA, Mario Sérgio. Educação, Escola e docência: novos tempos, novas atitudes. São Paulo, SP: Cortez, 2014.
HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018. 
PACHECO, José. Inovar é assumir um compromisso ético com a educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019.

Ilustrações: do autor. 

10 comentários:

  1. Análise Perfeita!
    A ideia de recuperar o tempo perdido durante a quarentena com sobrecargas de trabalho, sem dúvidas, trará consequências nocivas,e, não apenas, à saúde dos Professores, mas do alunado, também, que, em geral, já apresenta muitas dificuldades entre outros problemas, no dia a dia, e, diante da falta de maturidade em lidar com as adversidades, adota na sala de aula comportamento agressivo, que não raro, desafia o emocional do profissional. E a roda gira recaindo sobre os professores tudo o que envolve a educação.

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  2. Utilizando o bom humor, como professora costumo dizer que este ano não valeu.
    Se tivéssemos que ser preparados para isso duraria uns 5 anos de adaptação. Compreendemos a necessidade das aulas remotas, nos entristece, desmotiva e adoece a incompreensão do excesso de cobranças aos professores que já é de praste e com as vídeo aulas aumentaram sem olhar com zelo o lado do professor.

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  3. Não se estressar, ainda mais nessa situação atípica é uma utopia, porém podemos manejar o estresse a nosso favor e torná-lo nosso aliado para cumprir prazos, agilizar-se, buscar, abrir-se ao novo. Temos que cuidar do excesso de estresse que acaba interferindo na nossa saúde ( sono, alimentação, respiração, organização...)

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  4. Boa noite! Estamos trabalhando mais do que antes e ainda querem dobrar o trabalho qdo voltarmos. Haja saúde e estado psicológico e emocional. Só professor ...

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  5. Como diz o psicopedagogo Tonucci, "deveríamos aproveitar este tempo para pensar em outro modelo de Escola e de Educação".

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  6. A tecnologia pode ser nossa aliada quando precisamos de mais agilidade, porém deparamos por muitas vezes, nossas falhas por ainda sermos considerados imigrantes digitais. Estamos evoluindo junto com as tecnologias, o que acaba trazendo consigo muitas dificuldades que geram estresse, que precisamos superar para continuar nossa caminhada.
    Nada como parar um momento nessas loucuras, tomar um chá e retomar, pois o tempo não para e a gente tem que seguir na fé de compreender tudo o que nos cerca e transformar o estresse em algo positivo, ou transformá-lo em uma carga positiva para seguir em frente.

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  7. Na educação a distância encontramos muitos desafios: o professor pouco utilizava a ferramenta tecnológica nas aulas e pouca formação e cursos eram oferecidos pelas Secretarias de Educação.

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  8. A era digital bateu na nossa porta,e foi entrando sem pedir licença. Hoje nos encontramos num emaranhado de papéis,compromissos redobrados,cursos à distância,de uma de duas de três Escolas...alunos pedindo explicação fora do horário,reuniões online. Haja saúde pra tudo isso.

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  9. Gostei muito do texto pois expressa a realidade atual e alerta para as armadilhas, o perigo do pós-pandemia. Além disso, valoriza o professor e seu esforço. Sinceramente, estou bem cansada de ler teorias que nada tem a ver com a prática, alguns professores fazem Mestrado ou Doutorado e perdem o vínculo com a realidade, navegam apenas em um universo teórico, aí publicam textos massacrando aos profissionais da Educação. Esta abordagem, em especial, é uma reflexão muito interessante e legítima.

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  10. O texto retrata muito bem o momento em que estamos vivendo e as mudanças pós Pandemia. Não temos mais horário pra nada. Tudo está misturado as tarefas de casa, as atividades das escolas, estudo. Enfim tudo ao mesmo tempo e no mesmo lugar.

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