Memórias radioativas

 

A série brasileira “Emergência radioativa” está fazendo muito sucesso na Netflix e chegou a figurar entre as mais assistidas pelo streaming. Para quem ainda não viu e sem spoiler: trata-se uma história baseada no acidente com o Césio-137, um material altamente radioativo em Goiânia, no ano de 1987.

Não falarei sobre a série, atuações, fotografia e outros detalhes cinematográficos que não entendo. Mas tenho algumas memórias daquele período.

Eu contava com 10 anos de idade quando aconteceu o acidente na capital de Goiás. Estava bem fresca na mente das pessoas a lembrança do pior acidente nuclear da história, ocorrido um ano antes em Chernobyl, na então União Soviética. Lembro dos telejornais falando de uma terrível “nuvem radioativa” que avançava pela Europa e poderia chegar ao Brasil. Claro que esse tipo de especulação era enfatizada com o sensacionalismo típico dos canais de TV em busca por audiência.

Vamos contextualizar para entender melhor. Era o período da Guerra Fria, onde pairava a ameaça permanente de uma guerra nuclear entre as duas maiores potências mundiais: Estados Unidos e União Soviética. Em 1983 foi lançado um filme chamado “The Day After” que fez muita gente ter pesadelos — inclusive este que hoje escreve essas mal digitadas. A película segue um roteiro apocalíptico sobre os efeitos devastadores de uma guerra nuclear e realmente causou forte impacto na opinião pública, pois foi exibido também na TV aberta.

Frame do filme "The day after", cuja cena me causou uma sequência de pesadelos por inúmeras noites

Diante deste contexto, era de se esperar a reação temerosa das pessoas com o caso em Goiânia. O Brasil de 1987 há pouco saíra da ditadura militar (1964-1985) e o país ainda parecia traumatizado com a morte do presidente Tancredo Neves em 1985, o que gerou uma das maiores comoções já vistas neste país — só veríamos algo parecido alguns anos depois com a morte de Ayrton Senna.

Para uma criança naquela época era tudo muito confuso e complicado de se entender. Os jornais falavam em crise o tempo todo e novos planos econômicos surgiam como tentativa de controlar a inflação galopante. E surgiam também publicações e programas oportunistas resgatando “profecias de Nostradamus” e outros metidos a videntes com a famosa sentença “até 2000 chegará, daí não passará”. E para piorar, as histórias que chegavam de Goiás eram terríveis.

Uma das mais marcantes e tristes estava relacionada à pobre menina que morreu após “comer pó radioativo”. Era Leide das Neves, de 6 anos, que acabou brincando com o material de brilho azul e ingeriu algum alimento com as mãos sujas com resquícios daquele pó. A garota foi enterrada num caixão de chumbo e toda a história, além da tristeza, assombrou as mães da lá da rua onde eu morava, mesmo estando a mais de 900 km de distância de Goiás. Sobrou até para os doces que a gente adorava, como um pirulito do qual mergulhávamos num sachê de pó doce com vários sabores — o de uva era uma delícia e deixava a nossa língua roxa. Naquela época nem existia a expressão “fake news”, mas a boataria corria solta na boca do povo: alguém disse que o doce vinha “dos lados de Goiás” e foi o suficiente para as mães proibirem seus filhos de consumirem o tal pirulito.

Lá se vão quase 40 anos do acidente radioativo de Goiânia e a série tem o mérito de resgatar a memória de um evento que ao longo dos anos foi praticamente apagado da história recente — o apagamento histórico, diga-se de passagem, é uma especialidade do Brasil. Enquanto existe farto material sobre o desastre em Chernobyl, tenho a impressão de que ainda há muito para se falar e descobrir sobre a cápsula abandonada de Césio-137 no centro-oeste do país.

Ainda bem que existe a memória, a memória de um tempo em que as preocupações de um menino de 10 anos deveriam ser a prova de matemática e se tornar um goleiro tão bom quanto Rodolfo Rodriguez. Tais recordações se misturam a tantos outros fatos históricos e nos transformaram em testemunhas de um tempo difícil e repleto de temores.

E hoje estamos aqui para contar essas histórias.

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