Buenos libros, boas leituras


 
Há quem diga que apenas na cidade de Buenos Aires há mais livrarias do que em todo o Brasil. Exagero, claro, mas não deixa de ser impressionante a quantidade de livrarias na bela capital dos argentinos: são 619 estabelecimentos, um para cada 4.500 habitantes, segundo dados de 2023.

Para marinheiros de primeira viagem por Buenos Aires, como foi o meu caso durante alguns dias em janeiro, é fascinante caminhar pelas ruas e avenidas como a Corrientes e encontrar dezenas de livrarias e sebos. Claro que o destaque é a El Ateneo Grand Spendid, considerada uma das livrarias mais bonitas do mundo, e olhe lá se não for a mais bela. E não à toa: trata-se de um antigo teatro clássico fundado em 1919 e é um espetáculo de encher os olhos. Há bons e interessantes títulos em suas prateleiras, mas não adquiri nenhum livro lá.

A Argentina não é mais aquele país “baratinho” que os turistas brasileiros se deliciavam em outros tempos — embora os vinhos e os doces de leite continuem com aqueles precinhos camaradas e convidativos para encher a mala. E livros estão bem caros. O melhor é procurar pelos sebos e, se possível, pagar “en efectivo”, pois assim consegue-se algum desconto.

Andei em busca de um livro específico: “El viaje de los siete demonios”, de Manuel Mujica Lainez, um autor argentino que escreveu obras em que a velha Buenos Aires é o cenário de contos, novelas e crônicas. Fui parar numa Feria de Libros na Plaza Italia, em Palermo, onde funcionam vários estandes de livreiros. Com o meu portunhol fajuto, empreendi minha busca sem êxito junto aos estandes disponíveis. Bem, não foi viagem perdida: encontrei um livro do uruguaio Horacio Quiroga (Cuentos de la selva) em ótimo estado e por um bom preço.

Chama a atenção a relação dos portenhos com suas livrarias e com a literatura. Após tomar um café da manhã no famoso Café Tortoni em mesa homenageando o poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca, segui rumo a um dos maiores patrimônios culturais da cidade: a Librería de Ávila, fundada em 1785 e, ao que tudo indica, a livraria mais antiga da América Latina. 


Passar por aquelas portas é como fazer uma viagem pelo tempo: móveis, luminárias, máquina de escrever, livros e mais livros empilhados e nas prateleiras prontos para serem descobertos. Mas o senhor Lainez... ah, como este é difícil!

São inúmeras as livrarias espalhadas pela cidade e seria impossível visitá-las e conhecê-las nos poucos dias de minha estada por Buenos Aires. Um motorista de aplicativo até me deu dicas sobre outras ferias de libros, como a que acontece no Parque Rivadavia aos sábados — o melhor dia, segundo ele. Agradeci, mas não deu tempo para conferir mais aquele espaço. Talvez até encontrasse o senhor Lainez por lá. O que encontrei numa das livrarias da Avenida Corrientes foi uma obra do norte-americano John Kennedy O´Toole, autor do genial “Uma confraria de tolos” (inexplicavelmente desprezado pelas editoras brasileiras), além de coletânea de contos com gente do calibre de Roberto Arlt, Bioy Casares, Alberto Moravia e outros mais.

Eu que me vire para aprender o espanhol com seus falsos cognatos para leitores de língua portuguesa e afastar o espírito de 5ª série em trechos como “se treparon en los dos troncos que quedaban a ambos lados del boquete”. A língua espanhola e suas “armadilhas” e sonoridade deliciosas! E nada do senhor Mujica Lainez, a não ser uma coletânea de crônicas de viagem e uma biografia.

Paciência: fica para uma próxima vez. É possível encontrar o livro pela internet, mas nada como percorrer as librerias e degustar as empanadas muy exquisitas de uma cidade com buenos libros e boas leituras.

Fotos: do autor

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Bem mais fácil de encontrar é o meu livro de crônicas "Crônicas do Contador do tempo", em que apresento crônicas que trazem olhares leves, reflexivos e bem humorados sobre a literatura, educação e temas cotidianos. 


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Boa leitura! 

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