
- Mas isso é chato, é música do tempo da minha vó!
Desta vez Miro não se conteve e reclamou com o professor de violão. Há 3 meses tomando aulas, já conhecia algumas notas e ritmos através de músicas das quais ele sequer sabia a existência até então. Da óbvia “Parabéns a você”, passando por “O cravo e a rosa”, o repertório incluía músicas do Roberto Carlos e até Geraldo Vandré, com o hino “Caminhando e cantando”.
O professor - sujeito boa praça de meia idade - explicava com paciência que o aprendizado era lento e era preciso conhecer outros ritmos musicais além do rock que o rapaz tanto apreciava. Na verdade a intenção do jovem era justamente aprender a tocar umas notas e uns acordes para montar uma banda. Não podia ser difícil: os Ramones faziam música com três notas em canções que duravam 2 minutos.
- Ao tocar tais ritmos você entra em contato não apenas com novos arranjos musicais, mas também forma um repertório legal para tocar numa rodinha de violão com os amigos. - explicou mais uma vez o professor.
- Rodinha com a galera? Tocando essas músicas? Ah, qualé, nem pensar. Por exemplo, essa música de hoje... é isso mesmo? Pombo Correio...
- .. voa depressa / e essa carta leva pro meu amor... é uma canção legal, tem um ritmo bacana e as garotas gostam, sabia?
- Só se forem as garotas do seu tempo. Desculpa, mas isso não é música pra tocar com a galera. Até hoje nunca contestei as músicas estudadas, apesar de não gostar delas. Mas hoje me vê uma música mais moderna, sei lá...já que você não quer ensinar um rock de verdade, passa aí uma coisa mais leve, tipo Legião, Engenheiros do Hawaii...
O professor achou melhor ceder, embora a contragosto. Sabia que a banda Engenheiros do Hawaii regravou um sucesso dos anos 60, a música “Era um Garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones”, em uma versão que o professor apreciava. Como eram poucas notas e o ritmo bem simples, resolveu ensiná-la para o aluno. E durante 1 hora de aula naquela tarde o que mais se ouvia na sala era o tata-ratata tata-ratata, tara-ratata tata-ratata...
O rapaz, claro, ficou empolgadíssimo por dois motivos: primeiro porque variou o repertório para uma música mais moderna, com uma pegada pop, e não aquelas velharias das quais o professor sempre passava; além disso, no fim de semana a turma estaria na pracinha e inclusive Ritinha, a moça pela qual ele estava apaixonadíssimo, mas ela nem dava bola. Quem sabe com uma música ao violão a garota finalmente não o notaria?
Miro treinou bastante não apenas o tata-ratata, mas também algumas músicas que traziam as cifras em revistinhas: Legião Urbana “porque todo mundo gosta de cantar ‘Pais e Filhos’”, pensou o rapaz; e, claro, Raul Seixas, “porque sempre tem alguém pra berrar ‘toca Rauuuul!’”. Até pensou em tocar uma música do Djavan “porque a mulherada gosta”, mas além de ter cifras complicadinhas, não entendia nada do o sujeito cantava.
Decorou tão bem as músicas que no final de semana, na pracinha, fez algum sucesso entre os amigos com o violão – principalmente na hora do tata-ratata tata-ratata; fez bem em decorar “Cowboy fora da lei”, afinal alguém pediu para tocar Raul, é claro. No entanto toda a empolgação e as músicas decoradas não chamaram a atenção de Ritinha, que só animou um pouco com “Pais e filhos”. Quando ficaram um tempinho a sós, ele tomou uma dose de coragem e perguntou:
- Não gostou das músicas?
- Não são bem os estilos que eu gosto – respondeu a garota, um tanto indiferente.
- E de que estilo você gosta? – insistiu o rapaz.
- Gosto de músicas mais calmas, antigas...
Miro lembrou-se das aulas de violão e do pequeno repertório de velharias que o professor passava. Quem sabe alguma das músicas que ele havia aprendido não fazia parte do gosto da bela garota?
- Me diz uma música que você gosta, então. Talvez eu saiba tocar...
Apenas neste momento a garota olhou para o rapaz com mais atenção e perguntou:
- Jura? Conhece uma música chamada “Pombo Correio”? Adoro essa música! Meus pais vivem cantando lá em casa, eles se conheceram no carnaval enquanto tocava essa música, acho tão fofo!
No dia seguinte, de manhã bem cedinho, Miro já estava na porta da casa do professor implorando por aula extra e um horário especial. E que ele prometia jamais contestar novamente o repertório que o professor passava – mas exigia aprender “Pombo Correio” imediatamente!
Salvador, 03 de Setembro de 2011 - um exercício literário despretensioso







