Uma manhã comum na vida do professor
A terceira aula
O professor permaneceu de pé diante da
turma que fazia pouco caso de sua presença em sala de aula. Era apenas a
terceira aula naquela manhã e já se sentia exausto. O barulho no ambiente era
ensurdecedor e não conseguia entender como aqueles adolescentes aguentam tanta
gritaria. É preciso fazer ouvidos moucos com uns palavrões e agressões verbais
que surgem aos berros num cenário que lembra as arquibancadas de um estádio de
futebol.
Quanto tempo até organizar a sala e
começar o seu trabalho? 10, 15 minutos? Era sempre a mesma coisa. Em outras
épocas ficava nervoso e distribuía gritos pela sala, mas em vez da disciplina,
recebia deboche: “Ih, pegou ar”, “Vai ter um treco”. Hoje, apenas cumpre o rito
de registrar a ocorrência, informar à coordenação e, com isso, talvez os alunos
desrespeitosos tomem alguma advertência ou até suspensão. E adianta? “O meu
filho não faz essas coisas, o professor é que não bota ordem na sala”, diz a
mãe furiosa com a advertência ao seu anjinho de candura.
As mães revoltadas sempre têm razão,
imagine se um professor sem “domínio de turma” tem o direito de chamar a
atenção dos alunos. E todo mundo quer mandar na escola: fundações e institutos
empresariais, grupos conservadores e religiosos, grupos de pais do WhatsApp. A
disputa é grande e todos querem pautar o cotidiano da escola e o trabalho
docente.
Bateu o sinal!
Bateu o sinal para o intervalo. O saldo
daquele tempo letivo de 50 minutos:
* 15 minutos para organização até que os
alunos notassem a presença do professor;
* 5 para resolver conflito entre dois
alunos que se agrediam verbalmente;
* Outros 5 minutos fazendo a chamada dos
36 presentes.
Restaram 25 minutos para as atividades
planejadas, das quais apenas três alunas demonstraram algum interesse na
leitura e interpretação de um trecho do conto “A cartomante”, de Machado de
Assis.
“Que desserviço a escola forçar a
leitura de Machado de Assis para adolescentes de 14 anos!”, bradou um influencer
e youtuber há alguns anos e o professor lembrou-se do episódio. Do jeito
que as coisas estão, pensou o mestre, daqui a pouco recomendar livros e
leituras para alunos de qualquer idade vai virar desserviço e polêmica.

"O que é celebrado no Brasil em 7 de setembro?" "Só um minuto...eu vou abrir o Chat GPT!"
Há quem diga que youtuber tem
razão. Claro, afinal “cabe ao professor encontrar metodologias que despertem o
interesse dos alunos”, repetem os especialistas papagaios. E o professor fez a
sua busca: pós-graduação, mestrado, dezenas de cursos de formação e extensão,
seminários, palestras, leituras, vídeo-aulas. Aplicou metodologia invertida,
gamificação, projetos maker, pedagogia de projetos, pensamento
computacional, pagou do próprio bolso por materiais diversos, perdeu a conta
dos fins de semana para elaborar aulas divertidas e criativas. “Tem que entrar
no cotidiano dos alunos, professor”. Criou conta no Tik Tok, farmou aura, fez o
67, se inteirou dos memes, ouviu MCs, BTS e mais um monte de siglas... o tempo
todo era “como posso usar isso na sala de aula” e a vida girava em torno de
escola, alunos, planejamento e projetos.
O resultado? Atestados médicos,
gastrite, crises de ansiedade e parte do salário deixado na farmácia.
A sala dos professores
A sala dos professores é um refúgio onde
na porta lê-se um aviso bem grande: proibida a presença de alunos. Na escola
tudo é cronometrado e o tempo de intervalo é de apenas 20 minutos rigorosamente
cravados. No cardápio para merenda dos alunos, cuscuz e frutas; para os
professores, sequer água — cada um que leve a sua garrafinha. Alguns colegas
tentam alegrar o ambiente com piadas aqui e ali, outros falam sobre amenidades,
uns reclamam do salário e do governo. O professor se acomoda numa cadeira e
pega a sua garrafinha de 1 litro: é muito pouco, em apenas três aulas pela
manhã lá se foi quase todo o líquido. E ainda tem os turnos vespertino e
noturno pela frente.
“Eu estava assim também e tive que
largar um turno, pois estava adoecendo”, comentou a colega de língua portuguesa
que interrompeu a leitura de uma notícia no celular. O sonho do professor é
largar um turno e pensou em como seus sonhos de outrora adquiriram contornos bem
mais modestos e realistas. “A gente precisa se cuidar, pois ninguém liga pra
nossa saúde”, disse a colega e ele concordou. Viu a notificação do celular e
era a newsletter de um jornal que trazia a seguinte chamada:
“Apenas metade dos adolescentes no Brasil
sabe interpretar texto, mostraram os resultados do mais recente Programa
Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa- 2025)”.
O professor faz a leitura da manchete
para a colega, que ironiza: “Para surpresa de quem?”. Ele respondeu algo sobre
o sentimento de enxugar gelo com o seu ofício e e que em 20 anos de exercício
efetivo no magistério nunca viu uma crise tão grande e diferente quanto a
atual. Estava pronto para elaborar melhor as suas ideias num desabafo, mas a
sirene estridente e pontualíssima anunciou o fim do intervalo. O olhar da
colega denuncia cansaço e ela resmunga que irá para o terrível 8° C. O
professor concorda balançando a cabeça e repete que a turma é realmente
terrível. Todos se levantam e seguem para as suas salas conforme os horários.
Antes de sair, a professora dá uma última olhada no celular, suspira e se
dirige ao colega:
— Sabe o que é mais triste de tudo? O
mais triste é este sentimento que compartilhamos. E acho que vai piorar.
O professor não disse nada e ambos
seguiram para as suas salas. Ela, com as figuras de linguagem e os verbos; ele,
com os livros e os gêneros literários. Talvez alguns poucos alunos se interessem
pelo o que eles têm a dizer e a ensinar. E é para estes que os professores
resistem e persistem, sabe-se lá até quando.
***
Se você gostou desta crônica ou é
professor(a), o meu livro “Crônicas do Contador do Tempo” apresenta textos e
ilustrações que tratam sobre as transformações no universo escolar nos últimos
anos com a era digital.
O livro está disponível no site da
Camino Editorial e com o próprio autor, no instagram @jaimegbr.



Como é difícil a vida dos professores, eles que são formadores de profissionais do mais alto escalão.
ResponderExcluir