Guerra e likes

 


A experiência de participar de uma guerra no front de batalha foi relatada pelo escritor norte-americano Kurt Vonnegut no ótimo “Matadouro 5”, um clássico da literatura que mescla ficção científica, ironia e fatos históricos — Vonnegut, então soldado americano e prisioneiro dos nazistas na Segunda Guerra Mundial, presenciou o terrível bombardeio da cidade de Dresden, na Alemanha, onde as forças do exército britânico e aliados detonaram aproximadamente 4 mil toneladas de bombas na histórica cidade, praticamente reduzindo-a a cinzas.

Vonnegut levou anos para reunir coragem e amadurecimento e assim relatar o que passou em Dresden, no que ele chamou de “pura insânia, destruição sem sentido”. Somente em 1968 escreveu “Matadouro 5”, considerado sua obra-prima. Antes disso o autor não falava sobre o que viu no front de batalha porque a guerra é inexprimível e a verdade pode ser algo muito forte, inesperado para as pessoas: “Podíamos finalmente falar sobre maldades que praticamos contra as piores pessoas possíveis, os nazistas”.

Quem está distante e em segurança a milhares e milhares de quilômetros de distância pode imaginar que os soldados em guerra estão se distinguindo por atos de bravura e que a guerra tem algum sentido — a luta pela liberdade ou a derrubada de um tirano, por exemplo. Curioso como a guerra e seus “heróis” fascinam as pessoas há tempos, desde obras literárias até o cinema e o jornalismo com os correspondentes. Soldados não são astros de cinema, como escreveu Vonnegut em “Um homem sem pátria”.

Em 2022 estamos às voltas com mais uma guerra, desta vez entre Rússia x Ucrânia e a OTAN colocando gasolina no incêndio para ver o parquinho queimar de vez. A invasão russa ao país vizinho suscitou uma série de reações e debates no mundo, com muita gente aderindo à causa pró-Ucrânia. Alguns aderentes foram soldados mercenários brasileiros que afirmam integrar uma certa “Legião Internacional de Defesa da Ucrânia” — e criaram problemas por agirem como “blogueirinhos” de rede social publicando fotos e vídeos nos locais onde estavam situados, o que facilitou o trabalho do serviço de inteligência da Rússia para encontrar os alvos inimigos.

Outro brasileiro que foi para a Ucrânia com o intuito de juntar-se aos combatentes publicava diariamente nas redes sociais sua rotina naquele país precisou fugir para escapar dos bombardeios russos. Mais tarde afirmou que tudo aquilo era muito sério e “não imaginava o que era uma guerra”. Ironicamente este brasileiro, que é apoiador do presidente Jair Bolsonaro e instrutor de tiro, já publicara em seu perfil mensagens de apoio à intervenção militar e defesa à política de armamento no Brasil. No imaginário construído por essas pessoas, uma guerra é como filmes de ação em que “o lado do bem prevalece sobre o mal” e terão um final feliz, cobertos com medalhas e honrarias militares, além de reconhecimento pela bravura e atos heroicos.

Ainda dentro deste imaginário, não deixa de ser interessante notar o narcisismo destes brasileiros na busca pelos likes, views e followers nas redes sociais. Para o filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han, a coação por exposição permanente ameaça até mesmo a paz, pois “quando o próprio mundo se transforma em espaço de exposição, já não é possível o habitar, que cede lugar à propaganda, com o objetivo de incrementar o capital da atenção do público”. Neste sentido, a exposição nas redes sociais se relaciona apenas e puramente com a positividade, o que “descontrói o real e totaliza o imaginário”, abafando toda e qualquer negatividade e contato com o real como um todo. Com o advento desta sociedade positiva construída nas redes sociais não se admite sentimentos negativos e assim “esquecemos como se lida com o sofrimento, a dor, esquecemos como dar-lhes forma”. Voltando ao caso destes brasileiros na Ucrânia, o coronel Fernando Montenegro classificou-os como "vaidosos caçadores de likes" em entrevista à CNN portuguesa e tal definição pode ser aplicada a várias outras pessoas que protocolam suas vidas e seus atos (desde os mais banais) em postagens como se isso fosse validar a existência - posto, logo existo. 

Vonnegut não sabe dizer como ele e seus companheiros prisioneiros sobreviveram e mesmo assim voltou a Dresden anos depois, quando observou que deveria haver toneladas de farinha de ossos humanos enterradas no solo. Guerra é sofrimento, é dor, destruição, morte. Não é ocasião para bancar o digital influencer em busca de fama nas redes sociais. As únicas pessoas que realmente dão likes e curtem pra valer os conflitos armados são milionários e parceiros da indústria armamentista que se tornam bilionários à custa de garotos que mal saíram da adolescência e armados até os dentes são jogados em campos de batalhas para lutarem contra sabe-se lá o que.

Coisas da vida.

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