A pandemia escancarou o nosso fracasso

A pandemia escancarou o nosso fracasso


A peste pode vir e ir embora sem que o coração do homem seja modificado.
Albert Camus

Digito essas linhas nos últimos dias de dezembro do ano da pandemia, 2020. Um ano difícil para toda a humanidade e que será tema nos livros de história (se existirem) no futuro. No brasil estamos às voltas com o que chamam de “segunda onda da pandemia”. Neste momento já contabilizamos mais de 190 mil mortes pela covid-19 e os casos de infectados aumentam de forma assustadora e lotam novamente hospitais e leitos de UTI.

Durante os meses de setembro outubro e novembro observamos verdadeiros carnavais fora de época promovidos por candidatos a prefeitos, vereadores e seus apoiadores. Protocolos de segurança sanitária? Às favas! Com quase todas as atividades econômicas retomadas e parte da imprensa praticamente esquecendo da pandemia para tratar sobre eleições, economia, gols da rodada e outros assuntos, a mensagem para a população foi clara: acabou a pandemia, não tem mais corona, foi só uma fase ruim que passou. O próprio presidente da república, um imbecil negacionista, reforça isso de forma inconsequente e criminosa.

Mas a pandemia continua. O vírus não foi embora e nem cansou das terras brasileiras.

É verdade que ninguém aguenta passar meses confinado ou sob restrições. É difícil abandonar uma vida de hábitos e rotinas estabelecidas. É verdade também que estamos todos cansados da pandemia e a vida precisa ser retomada sob cuidados, adaptações e responsabilidade.

Também é verdade que falhamos. Falhamos como sociedade e sobretudo como seres humanos. Isso é duro de admitir, mas é necessário abrir os olhos.

Quando a pandemia aportou nas terras brasileiras no mês de março, eu acreditei que a terrível experiência poderia, de certa forma, mudar o nosso comportamento e visão sobre o sistema em que vivemos. Fui ingênuo e um pouco tolo, admito. Na verdade, o sentimento que eu sustentava era de torcida, pois somos todos condicionados, desde a mais tenra infância, a um conceito de “normalidade” absolutamente insano e destrutivo para todos os seres e a natureza. Foi essa “normalidade” que nos trouxe até o ponto em que estamos hoje.

A sensação cada vez mais forte e permanente é que retrocedemos sob vários aspectos nos últimos anos. É difícil manter algum otimismo diante do que estamos vivenciando e assistindo. Acreditamos que a tecnologia e principalmente a internet seria a nossa salvação para um novo século que se iniciava, o século XXI.

Como fomos idealistas.

A pandemia escancarou o nosso fracasso


O que temos hoje é uma internet praticamente dominada por um punhado de empresas (Google, Facebook, Amazon, PayPal) que regula o nosso dia a dia, conhece intimamente cada um de nós e lucra bilhões com os nossos dados e desejos. O que discutíamos lá em meados do ano 2000 sobre a democratização do acesso à informação e ao conhecimento virou uma bonita fábula. Óbvio que a rede propiciou facilidades em diversos campos, mas também ajudou a criar novos e gigantescos problemas.

A pandemia escancarou o nosso fracasso


O negacionismo científico, por exemplo. Isso sempre existiu e, a título de ilustração, durante a gripe espanhola (1918) também circulavam receitas e medicamentos pra lá de estranhos e ineficazes para curar a doença. Passados 102 anos temos o mesmo fenômeno, com a diferença disso alcançar milhares de pessoas em curto espaço de tempo seja através de plataformas de vídeos com algoritmos viciados ou com aplicativos de mensagens para celulares. Há quem negue a existência do coronavírus, insista em medicamentos comprovadamente ineficazes e jure de pés juntos que a covid-19 trata-se de um plano chinês de dominação mundial, com vacinas que irão alterar o DNA humano. Há 12 anos falávamos sobre a adoção de livros digitais e implementação de projetos de robótica nas escolas públicas com internet de alta velocidade; hoje estamos tentando convencer as pessoas de que as vacinas não vão transformar ninguém em jacarés ou implantar chips de rastreamento.

O mais dramático é que tais “teorias” sejam compartilhadas via celulares através de médicos, advogados, jornalistas, professores...

Professores! Isso me enche de tristeza. Como pudemos regredir tanto?

Falhamos. Mas onde falhamos, afinal?

Será que falhamos em prosseguir com um modelo educacional arcaico e que seja limitado apenas aos conteúdos didáticos e no adestramento para o mercado de trabalho?

Será que falhamos aceitando e estimulando uma imprensa que insiste em dar palco e microfone para pessoas com ideologias perigosas, além de figuras irrelevantes que nada acrescentam de útil?

Será que falhamos agindo com total indiferença a tudo o que acontece ao nosso redor, normalizando a dor, a destruição e a morte?

Não existe um ponto de falha, existe um conjunto de falhas. Todas essas questões acima se juntam a tantas outras que poderiam ajudar a explicar o nosso fracasso diante de uma pandemia com tamanha quantidade de mortes que poderiam ser evitadas. Estamos cada vez mais individualistas e indiferentes, pautados por redes sociais e seus algoritmos que estimulam comportamentos narcisistas. Lembro do líder indígena e ambientalista Ailton Krenak falando sobre o egoísmo que impera nestes tempos e da necessidade que temos de despertar para a falta de sentido de nossas vidas com os atuais padrões de consumo e comportamento.

Mas Krenak e tantos outros serão tratados como idealistas e ingênuos em um mundo utilitarista que segue os humores do mercado, os ensinamentos dos coaches e palavras dos digital influencers. Na verdade deveríamos ouvir mais essas pessoas consideradas "idealistas" do que influencers fúteis e vazios em busca de likes e views.

Vejo na televisão uma propaganda de Natal. A seguir, o telejornal exibe entrevista com um satisfeito dirigente de associação de shopping center fazendo previsões otimistas de retomada da economia e crescimento das vendas, intercalando com imagens de corredores cheios.


Logo depois, as notícias sobre o réveillon: mesmo cancelado em diversas cidades e com eventos proibidos, há “festas clandestinas” programadas para a virada de ano – não apenas na periferia com os “pancadões”, mas também em condomínios com as festas particulares. Em exemplo do que certamente vai acontecer em muitos locais, um digital influencer (que ninguém sabe ao certo o que faz e o que fez para tornar-se “famoso”) deu uma festa que reuniu centenas de pessoas em lugar fechado e com quase ninguém utilizando máscara enquanto o país contabilizava 186 mil mortos e 7 milhões de pessoas infectadas pela covid-19. Lembrei de uma digital influencer no início da pandemia fazendo festinha em casa e soltando um “foda-se a vida” para os seus milhares de seguidores.

No fundo, é isso o que é o brasil: um grande “foda-se a vida”, um verdadeiro “e daí?” para a pandemia e os milhares de mortos e sequelados pela doença. Fazendo uso de um jargão muito recorrente neste ano de 2020, a pandemia escancarou o que somos realmente: egoístas e medíocres.

2 comentários:

  1. Olá, Jaime.
    Bela reflexão/desabafo; o que aconteceu é que muita gente escolheu ir pelo lado mais fácil, que é fingir que a pandemia não existe, mesmo com o número de infectados aumentando a cada dia.
    Com esse presidente que temos, que só resolveu se mexer em relação a vacina pra tirar o foco do Dória, não dá pra esperar nada.
    Façamos como o beija flor da fábula, que conseguiu extinguir o incêndio na mata carregando uma gota de cada vez, e nos concentremos em fazer nossa parte.
    Um abraço e te desejo um esperançoso 2021.
    Até a próxima.

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  2. Querido amigo Jaime, nunca li um texto tão verdadeiro!!
    E você o escreveu em dezembro/2020 e estranhamente as coisas atualmente andam ainda piores...Não sei o que será da gente, sinceramente!
    Tudo anda descarrilhando e eu escrevo aqui com as mãos trêmulas, pois vivenciar a quarentena cuidando de meus pais idosos transformou-me muito. Agora vivo com medo, a esperança se esvaiu por completo e o número de mortes aumenta assustadoramente...(Vide Araraquara e novas variantes do vírus)
    Tudo corre para o caos e não sei onde vamos parar...
    Fica bem, se cuida, porque não está fácil!!!

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