sexta-feira, dezembro 16, 2016

Retrospectiva literária 2016


Como costumam dizer, 2016 foi um ano “tenso” em diversas áreas – e na política, nem se fala. É tempo das emissoras de TV e sites informativos exibirem suas retrospectivas do ano e desconfio que estas precisarão de muito tempo e páginas para que possamos relembrar de tantas coisas que aconteceram neste ano. Como de costume também faço minha retrospectiva literária, trazendo algumas obras que eu li ao longo do ano e que deixo como dicas para quem está procurando boas (ao meu ver) leituras. Vamos a elas. 
  
As vinhas da ira – John Steinbeck. (Editora Best Bolso, 585 páginas) 
Eu não gosto daquelas listinhas que trazem um apanhado de livros (ou filmes, lugares, etc.) que os apresentam como “obrigatórios” ou “livros que você DEVE ler” – leia o que quiser e quando puder, lembre-se dos direitos do leitor segundo Daniel Pennac. Mas no caso desta obra de Steinbeck eu a classificaria como “essencial” não apenas por ser muito bem escrita, mas principalmente por suscitar grandes reflexões sobre o homem, as relações de poder e os "sistemas" (bancário, penitenciário, econômico). Trata-se um retrato fiel dos cafundós dos Estados Unidos durante o período chamado de Grande Depressão causado pela crise de 1929: uma família (os Joad) que deixa (ou melhor, é expulsa) os campos de algodão de Oklahoma para tentarem a sobrevivência na Califórnia e ao longo do caminho enfrenta todos os tipos de provações e privações – o retrato da pobreza, dos sonhos despedaçados e da injustiça, mas também da solidariedade e da humanidade. Uma obra prima com narrativa ágil e sem rodeios, com personagens marcantes – bem ao estilo de Steinbeck.  

Quando Nietzsche chorou – Irvin D. Yalom. (Editora Agir, 373 páginas) 
Conheci a literatura de Yalom graças à leitura do bom “Criaturas de um dia” e gostei do estilo do autor. “Quando Nietzsche chorou” é um daqueles livros que ao final da leitura deixa a pessoa fascinada não apenas pela fluidez do texto, mas também por trabalhar com maestria temas que à primeira vista parecem complexos, como a filosofia de Nietzsche e a psicanálise de Freud – e estes dois grandes nomes são personagens deste romance que se juntam no quarto final do efervescente século XIX a nomes como Josef Breuer (um dos pais da psicanálise) e a incrível Lou Salomé. Uma obra inteligente, arrebatadora. 

Ragtime – E.L. Doctorow. (Editora Best Bolso, 277 páginas) 
Sabe aquele tipo de livro em que você devora as páginas e não quer largar de jeito nenhum até o fim da leitura? Este é Ragtime, que apresenta os Estados Unidos no início do século XX intercalando personagens fictícios com históricos do porte de Henry Ford,  o mágico ilusionista Harry Houdini, o multimilionário J.P.Morgan e a ativista anarquista e feminista Emma Goldman. O contexto histórico é riquíssimo: as greves, a pobreza (principalmente dos imigrantes), o poder da imprensa sobre a opinião pública e o preconceito racial – com um retrato da brutalidade policial sobre os negros, uma questão que infelizmente continua bastante atual nos EUA. O termo “ragtime” refere-se a um estilo musical muito popular nos Estados Unidos entre 1897 e 1917. Com frases curtas e ritmo marcante, Ragtime é um livro para ser apreciado como se aprecia uma boa música. 

O monge endinheirado, a mulher do bandido e outras histórias de um rio indiano – Gita Mehta. ( Companhia de Bolso, 199 páginas) 
A cultura indiana é uma das mais complexas, diversificadas e exuberantes do mundo. Permeada pela religiosidade, as histórias deste livro apresentam todas essas características em personagens que chegam às margens do rio Narmada:ascetas, músicos, ladrões, milionários, cortesãs, hinduístas, jainistas e burocratas como o administrador da pousada que deseja tornar-se um vanaprasthi, ou seja, uma pessoa que deixa as obrigações mundanas de lado para meditar na natureza. E é este administrador que recolhe e conta as histórias fascinantes que refletem toda a pluralidade desta milenar cultura.

Marcovaldo ou as estações na cidade – Italo Calvino. (Companhia das Letras, 143 páginas)
Marcovaldo é um homem puro, um humilde operário que busca por coisas simples para sua vida: o canto dos pássaros ao amanhecer, uma pescaria, o por do sol no morro perto da cidade, uma plantação de cogumelos, dormir sob as estrelas. Ele até consegue colocar em prática algumas ações, mas por pouco tempo: sempre acontece alguma coisa que atrapalha seus planos. De estilo cômico e com uma leveza que falta ao humor de nossos tempos, “Marcovaldo” diverte em seus 20 contos com as peripécias do nosso ingênuo e quixotesco personagem pela cidade. 

Contos húngaros: Kosztolányi, Csáth, Karinthy e Krúdi – Paulo Schiller (org). (Editora Hedra, 197 páginas)
A literatura do leste europeu sempre despertou curiosidade e fascínio para mim. Autores como Franz Kafka, Karel Capek (autor do sensacional “Guerra das Salamandras” e “Fábrica de robôs”) e Ferenc Molnár (de “Os meninos da rua Paulo”) dispensam maiores comentários por suas obras de grande qualidade literária. Este volume de contos húngaros apresenta um bom panorama da literatura húngara, tão desconhecida por aqui.  Os contos reúnem produções de autores do primeiro quarto do século XX e o estilo é conciso e agradável: Karinthy apresenta as desventuras de um aluno na escola, Krúdi traz dois contos que são complementares sobre um duelo e a “cereja no bolo” fica por conta de Kosztolányi, um contista de mão de cheia e uma das melhores descobertas a serem feitas sobre a literatura deste país tão distante. 

A festa e outros contos – Katherine Mansfield. (Editora Revan, 143 páginas)
Apontada como discípula de Tchekov, o genial contista russo, Katherine Mansfield é dona de uma personalidade marcante e encontra a literatura nas minúcias do dia a dia em fatos e pessoas que geralmente não despertam maiores atenções – tal como fazia Tchekov. Chegou a ser acusada de plagiar o escritor russo, mas isso logo se revelou infundado. Para que se tenha uma ideia do talento e sensibilidade de Mansfield, dentre suas admiradoras estão Virginia Woolf e Clarice Lispector: a leitura de contos como “a vida de Mae Parker” e “Uma xícara de chá” neste volume ajudam a entender o por quê.  

O Rei de Havana - Pedro Juán Gutiérrez. (Edição digital)
Encontrei este livro em versão digital e além deste formato só é possível encontra-lo em sebos. “O rei de Havana” segue a mesma linha de “Trilogia suja de Havana”, do mesmo Gutiérrez: linguagem nua e crua, seca e sem rodeios, com personagens miseráveis se virando entre os escombros da capital cubana e movidos a rum, salsa e muito, mas muito sexo. O “rei” nesta obra é Reynaldo, um jovem que passou por todos os tipos de tragédias possíveis e imaginárias até parar num reformatório, de onde foge e ganha as ruas da Havana e se envolve com prostitutas, travestis, drogas, turistas, trapaceiros e vive uma relação sórdida com Madalena. O estilo seco e direto de Gutiérrez pode assustar a alguns, afinal não se trata de “literatura limpinha” – quem conhece e aprecia a obra de Bukowski, Rubem Fonseca, Henry Miller e Reinaldo Moraes vai se identificar totalmente.  

E você, quais foram suas leituras preferidas no ano de 2016? 
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