segunda-feira, maio 09, 2016

Buscando a nossa essência no silêncio e no recolhimento.




Somos acordados por um despertador e poucos minutos depois estaremos ouvindo as notícias do rádio ou da TV e recebendo mensagens no(s) celular(es) antes de sair para o trabalho ou para a escola. Lá fora o ruído dos automóveis com seus motores e buzinas serão companhias constantes até chegarmos ao nosso destino e passaremos o dia todo atentos aos toques de celulares e seus aplicativos, campainhas irritantes, músicas que não gostamos, conversas que não queremos ouvir e assim será até o retorno aos nossos lares onde ouviremos música, ligaremos a TV, estaremos atentos ao celular até o momento em que teremos o merecido descanso se a insônia permitir.

Neste ritmo intenso pelo qual nossas vidas são regidas no cotidiano, não conseguimos encontrar espaços e mesmo tempo para desfrutar pequenas pausas silenciosas; na verdade até estranhamos quando um grupo de pessoas (seja no trabalho, em casa ou qualquer outro meio) está em silêncio. Acostumamo-nos com ruídos enquanto realizamos as atividades rotineiras – a TV ou o rádio ligado durante a hora do almoço, a seleção de músicas no telefone celular enquanto fazemos atividades físicas, uma celebração qualquer que precisa ter “um sonzinho”. A ideia de estar só é desagradável e um rádio ligado passa a impressão de que há "companhia" no ambiente. 

Para o filósofo Blaise Pascal, o apreço dos homens ao "barulho" (e ao movimento) é que este nos desvia de pensamentos sobre a nossa própria condição humana: “daí vem que o prazer da solidão seja uma coisa incompreensível”. Sem dúvida há músicas que são sublimes e convidam à reflexão, podendo até “traduzir sentimentos”, da mesma forma que é ótimo contar com um(a) amigo(a) para desabafar à vontade; mas Pascal fala sobre refletirmos sobre quem somos e para isso a solidão, geralmente classificada como algo negativo, tem um papel importante. Para outro filósofo, Sêneca, “faz-se necessário muito recolhimento para dentro de si próprio”, e não à toa que referências espirituais costumavam recolher-se em retiros solitários e silenciosos para que pudessem refletir: lembre-se de Jesus e seus quarenta dias no deserto; lembre-se da meditação silenciosa e solitária dos monges budistas ou de retiros dos xamãs indígenas em meio à natureza.

Obviamente não precisamos nos transformar em ermitões ou seguir necessariamente alguma linha espiritual para desfrutarmos de solidão e silêncio - citando mais uma vez Sêneca, “solidão e companhia devem ser mescladas e alternadas: esta desperta o desejo de viver entre os homens, aquela, conosco mesmos”.  Uma boa dica talvez seja buscar novas paisagens e mesmo parecendo contraditório, ouvir outras sonoridades. É o que nos ensina “Sidarta”, belo livro de Hermann Hesse, publicado em 1922. A personagem Sidarta, em busca da plenitude espiritual, experimenta diversas sensações mundanas – posse, desejo, riqueza, miséria – até chegar às margens de um rio e estabelecer-se no local junto ao balseiro, que lhe deu precioso conselho: “Há mais uma coisa que a água já te mostrou: que é bom descer, abaixar-se, procurar as profundezas”. Foi ouvindo “as vozes do rio” que Sidarta finalmente encontrou-se consigo mesmo e o caminho a trilhar.

Realmente é mais difícil do que aparenta conseguir alguns momentos de silêncio e solidão (ou recolhimento) em meio a uma sociedade que enxerga tais estados com estranheza e até mesmo considera-os como uma espécie de fracasso social; no entanto é cada vez maior a quantidade de pessoas buscando por estes momentos – vide a popularização da meditação (sendo adotada em algumas escolas) e publicações de livros na linha “como ficar sozinho”. As pessoas estão perdendo o medo de ouvir suas vozes internas e mergulharem nas profundezas do ser? 

Se a resposta for positiva, temos um alento para o futuro, pois a partir do momento em que nos conhecemos, sabemos quem somos e do que somos feitos, lidamos melhor com o externo – relacionamentos pessoais, profissionais, com a sociedade de modo geral e o meio ambiente. É preciso buscar a essência de quem somos realmente. Em silêncio e sem medo. 

Referências
HESSE, Hermann. Sidarta. Rio de Janeiro, RJ: Best Bolso, 2012.
PASCAL, Blaise. Diversão e tédio. São Paulo, SP: Editora Martins Fontes, 2011.
SÊNECA. Da tranquilidade da alma. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.  

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