quinta-feira, março 24, 2016

A intolerância nossa de cada dia.


O genial Millôr Fernandes, que além de escritor era também desenhista, jornalista, humorista e mais uma dezena de “istas”, foi um observador arguto e bem humorado do Brasil. Em uma de suas crônicas, intitulada “Tópicos românticos e nostálgicos – por um homem que viveu lá”, Millôr faz uso de sua verve irônica:

“O brasileiro é um povo cheio de cordialidade e bom coração. Os que saem no jornal roubando os pescadores, correndo atrás de estudantes e matando o priminho a paulada não são os brasileiros típicos. Vai ver são até naturalizados. (...) Quando você vê na rua um cara triste e vagabundo procurando briga, pode perguntar a ele who are you?, porque é um americano”.

Talvez um dos maiores mitos que insistem em permanecer neste país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza é a história do “brasileiro cordial”. É bem verdade que o povo brasileiro é muito criativo, bastante sociável (inclusive com os estrangeiros que visitam o país), apreciador da boa mesa e apaixonado por futebol – apesar da fase atual seleção brasileira. Por outro lado, o Brasil nunca foi um oásis pacífico como querem nos fazer crer: desde os tempos de colônia portuguesa, a história brasileira registra inúmeros conflitos e revoltas populares – e muitas não são tratadas com a profundidade necessária nos livros escolares de história, como a terrível Guerra do Contestado, entre os estados do Paraná e Santa Catarina. E se procurarmos (seja no Google ou em conversas cotidianas) por relatos de violência contra homossexuais, mulheres, negros e pobres nas periferias das grandes cidades, além de linchamentos (o Brasil é campeão nesta prática) e intolerâncias religiosas, nós teremos um quadro tenebroso.  

A discussão sobre política no Brasil também nunca foi um mar de rosas. Ainda hoje pelos sertões e brejões afora, a disputa política nas pacatas cidadezinhas é seguida por apostas e intensas discussões – algumas resolvidas à faca, inclusive. Aliás, consigo lembrar duas passagens famosas ligadas à política que resultaram em trágicos desfechos: o assassinato do político paraibano João Pessoa e o assassinato (em pleno Congresso) do senador José Kairala, por Arnon de Mello - se o nome te lembra alguém, estamos falando do pai do ex-presidente Fernando Collor de Mello. E puxando um pouco mais a memória lembramos o chamado voto de cabresto e dos capangas prontinhos a convidarem de forma gentil e pacífica os cidadãos (vivos e mortos) a votarem nos “coroné”.

Diante de todo esse histórico de violência e agressividade no Brasil, como ainda nos surpreendemos com o "clima bélico" que estamos vivendo atualmente no país devido à política? As redes sociais refletem comportamentos agressivos que são vistos no dia a dia – do trânsito enlouquecedor às reuniões em condomínios. Claro que na internet existe a distância física, o anonimato e grupos de discussão onde ideias divergentes não raramente são rechaçadas com vigorosa e orgulhosa grosseria, porém a “novidade”, se assim podemos dizer, é a polarização muito acentuada entre militantes, simpatizantes e antipatizantes de partidos políticos. Radicalismos de todos os lados acontecem – e alguns absolutamente insanos, como agredir pessoas usando roupas vermelhas. Tal um Fla x Flu, agora existe a divisão entre “Coxinhas x Petralhas” e um sem número de xingamentos, ameaças, manifestações de ódio, histeria, agressões (até mesmo entre amigos de longa data e parentes) e compartilhamentos de mensagens e ideias intolerantes nas redes sociais, o que não contribuem para o debate de ideias salutar sobre o difícil (e perigoso) momento de instabilidade política no país. Olho por olho, dente por dente e acabaremos todos cegos e banguelas.  

O professor e filósofo Mário Sérgio Cortella escreveu que “a política não pode ser anulação, tem de propiciar possibilidades de convivência”. Se não estamos conseguindo conviver com quem pensa, veste, ama, ouve, come, fala, desenha, atua, canta, pinta, vota diferente, que possibilidades criaremos? Não é gritando, xingando e tampouco ameaçando as pessoas que iremos conviver melhor. Olhamos muito para os aspectos externos – os governos, os corruptos, os eleitores de A ou B, mas falta olharmos os aspectos internos, ou seja, para nós mesmos. Quão vazios estamos? Por que tanta agressividade? Precisamos de heróis e de messias? Os corruptos são apenas os outros? Deixo levar-me pelo espírito de manada? Estou realmente me informando ou me "deformando"? O que eu quero realmente e o que estou fazendo para mudar? 



É ótimo e muito positivo ver e participar de manifestações contra a corrupção (melhor seria contra as corrupções, até mesmo as chamadas "pequenas corrupções do dia a dia") e pela democracia, mas quando pessoas têm medo em expor sua opção política ou até mesmo em vestir uma camiseta, é o sinal de que fomos longe demais. Desarmar o espírito é a primeira atitude para que possamos discutir de forma civilizada sobre assuntos relevantes como a reforma política (o que realmente precisamos nesta crise de credibilidade política), se Messi é mesmo melhor que o Taison (só o tempo dirá) ou se o certo é biscoito ou bolacha – embora neste caso não tenha discussão: é bolacha e fim de papo!


REFERÊNCIAS:
FERNANDES, Millôr. Todo homem é minha caça. Editora Record, 2005.
CORTELLA, Mário Sérgio, RIBEIRO, Renato Janine. Política: para não ser idiota. Ed. Papirus, 2010.  
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