quinta-feira, outubro 01, 2015

Pressas e urgências nossas de cada dia.


“A velocidade é a forma de êxtase que a revolução técnica deu de presente ao homem.”
Milan Kundera


Parei o carro no semáforo e desviei o olhar da luz vermelha para a luz prateada e cheia no céu, um lindo espetáculo que era oferecido naquele princípio de noite. “Que perigo, desatento no sinal, é de gente assim distraída que os bandidos gostam”, disseram-me. O meu olhar para a luz prateada é interrompido para as luzes do carro logo atrás do meu, piscando furiosamente e também ouço uma estridente buzina: a luz verde do semáforo acabara de surgir há alguns milésimos de segundos e com ela a largada para a grande corrida em busca de sabe-se lá o que.

Em um daqueles dias parecidos ao verão onde tudo fica mais bonito e repleto de cores vivas, dirigia o meu carro pela faixa direita da orla marítima para apreciar com mais calma os matizes de azul entre o céu e o mar. “Se quer ficar olhando a praia, estacione o carro, mas não atrapalhe o trânsito!”, disseram-me. De fato, um ônibus parecia pronto a passar por cima de mim; outro carro fez aquela ultrapassagem raivosa onde o motorista demonstra ser um ás-no volante.

Estou fazendo uma pós-graduação (daquelas que valem cada centavo e tempo investidos) e ainda faltam alguns poucos meses para a conclusão do curso. “E depois, o que você vai fazer?”, já me perguntaram. Eu devolvo um “Como assim?” e elas insistem: “Sim, e depois? Mestrado, doutorado, pós-doutorado?”. As pessoas sempre estão com pressa do futuro. Um casal de namorados ouve diversas vezes a pergunta “E aí, quando é casamento?” e depois do casamento a pergunta é "E aí, quando vão ter neném?”. E depois? Não duvido que muita gente tenha vontade de perguntar “E aí, quando vai ser o divórcio?”.

É o culto à velocidade, a cultura fast. Fast food. Fast car. Fast love. Fast fuck. Fast diet ("Perca 10 quilos em 1 semana!"). Fast carreira. Fast infância (“nossa, ela já é uma mocinha! E o namoradinho?”). Tudo tem que ser muito rápido, imediato, instantâneo e, com a mesma velocidade, ser igualmente descartável: a ordem é não perder tempo! “Tempo é dinheiro”, há séculos a frase atribuída a Benjamin Franklin é repetida e tornou-se um mantra quando se fala em eficiência. Dormir? “Aprenda inglês enquanto dorme!”, prometiam alguns métodos.  

Rápido! Corra! Depressa! É para ontem! Adianta o processo! Fique ligado! Assumimos tantas responsabilidades, prazos e  nunca estamos satisfeitos com o que temos e com o que vivemos, então corremos para... esquecer.

Nossa época é obcecada com o desejo de esquecer, e é para satisfazer esse desejo que se entrega ao demônio da velocidade; ela apressa o passo para nos mostrar que não quer mais ser lembrada, que está cansada de si mesma, enojada de si mesma; que quer apagar a minúscula e trêmula chama da memória.” (Kundera) 

Os prazos, o tempo que passa e passa rápido com novas demandas chegando a cada minuto... a cada segundo! É preciso tempo para dar conta de tudo o que chega e até do que vai. O tempo dedicado ao ócio e ao lazer é considerado excêntrico e até mesmo “suicídio profissional”. Slow movement? Um pecado! "Nadismo" em algum momento do dia? Uma loucura, coisa de "vagabundo". Nem mesmo o "dolce far niente" escapa em meio a tantas pressas e urgências. Ajustamos até processos naturais da vida ao relógio, ao implacável relógio que implacavelmente traz a lembrança da lista crescente de afazeres e até comportamentos – afinal, tem “hora” pra tudo. Hoje temos “gestores de tempo” que ensinam as melhores formas para administramos e aproveitarmos o tempo.

"Aproveitar o tempo!...
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisas,
A poeira de uma estrada, involuntária e sozinha,
O regato casual das chuvas que vão acabando,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras”
                                                                     (Álvaro de Campos) 

Lá pelo século IV Santo Agostinho questionava: “Que vem a ser, então, o tempo?”. Eis uma boa pergunta sobre a qual filósofos e cientistas ainda debatem. Como não sou filósofo, cientista e nem físico, prefiro desacelerar e cantar aquela boa e velha música dos Byrds:

To everything (turn, turn, turn)
There is a season (turn, turn, turn)
And a time to every purpose, under heaven
A time to be born, a time to die
A time to plant, a time to reap
A time to kill, a time to heal
A time to laugh, a time to weep

Referências: 
KUNDERA, Milan. A lentidão. Companhia das Letras, 2011.
CAMPOS, Álvaro de Campos. Poemas de Álvaro de Campos - heterônimo de Fernando Pessoa. Nova Fronteira, 2012. 

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