sexta-feira, maio 01, 2015

Bruxos, vampiros e literatura


A escritora Ruth Rocha fez parte da infância de muita gente com sua vasta obra e textos reproduzidos em livros didáticos. Foi vencedora de quatro edições do Prêmio Jabuti, publicou 130 livros e sua obra mais conhecida, “Marcelo, Marmelo e Martelo” já vendeu mais de um milhão de cópias. Tem autoridade para falar sobre literatura, sobretudo infantil.

No entanto a escritora, que completa 50 anos de carreira em 2015, declarou que os chamados best-sellers de fantasia ( com vampiros, bruxas e dentre eles o famoso Harry Potter) “não é literatura, isto é uma bobagem. É moda, vai passar”. Tal declaração despertou a fúria dos fãs do bruxinho criado pela britânica J. K. Rowling.

Deixemos por um instante esta “polêmica” de lado e vejamos o que diz a pesquisa da Federação do Comércio do Rio de Janeiro sobre hábitos culturais, divulgada recentemente ( Abril, 2015). A pesquisa indica que 70% dos brasileiros não leram um livro sequer em 2014 – 7 em cada 10 brasileiros. E o uso da internet via smartphones ajudou a reduzir o interesse pela leitura entre os mais jovens, segundo a pesquisa.

Sabemos que o desinteresse pela leitura no Brasil é histórico e as causas são diversas – desde a falta de hábito passando pela formação de novos leitores. Voltemos à declaração de Ruth Rocha: será que rotular a literatura vai ajudar na formação destes novos leitores?

É bom deixar claro que a entrevista da escritora é muito interessante. Como discordar, por exemplo, que “literatura é uma expressão do autor, da sua alma, das suas crenças, e cria uma coisa nova”? Aqui entendemos o que Ruth Rocha quis dizer com o artificialismo da chamada “literatura industrial”, termo utilizado pelo francês Daniel Pennac em seu ótimo “Como um romance”- que apresenta os 10 direitos imprescritíveis do leitor e dentre os quais encontramos “O direito de ler qualquer coisa”.

Neste panorama do “qualquer coisa”, Pennac cita estas obras que “não valorizam a criação, mas a reprodução de ‘formas’ preestabelecidas (...) resumindo, uma literatura do ‘pronto para o consumo’”.  Sem entrar no mérito da obra, tomemos como exemplo o sucesso de “50 tons de cinza”: uma enxurrada de lançamentos classificados como literatura erótica tomou conta das livrarias, invariavelmente imitando o estilo (e em alguns casos até mesmo o título) do livro de E.L. James.  É sobre isso que Pennac e Rocha estão falando.

Contudo, milhares de pessoas leem e apreciam estas obras. Como dizer a elas que a sua leitura agradável não passa de uma bobagem? Nem todas as pessoas foram estimuladas ou tiveram a chance para ler autores clássicos da literatura brasileira e mundial e no caso do Brasil é preciso considerar um país onde o índice de analfabetos ainda é elevado e com um modelo de escolarização conteudista e repetitivo que tolhe a curiosidade, a criatividadee a autonomia – o que remete às palavras de Rubem Alves nos alertando que “a leitura nunca pode ser um exercício de automatismo”. Reduzir a literatura a um cânone obrigatório ou preferência pessoal não ajuda no estímulo à leitura – pelo contrário, pode até desestimular. Lembre-se, por exemplo, das perseguições às Histórias em Quadrinhos mesmo na escola: o gênero não apenas era desprezado como também visto como “má influência” para as crianças e jovens. ( hoje, felizmente, as HQs foram reabilitadas e são utilizadas nas escolas

Não precisamos de mais rótulos na literatura. Deixemos que as pessoas tenham suas preferências literárias e assim permaneçam estimuladas para a leitura: com o passar do tempo elas poderão procurar outros estilos, conhecer novos autores e fazer grandes descobertas. “Passa-se de Sabrina e Julia (histórias de belos doutores e de louváveis enfermeiras) a Boris Pasternak e a seu Doutor Jivago – um belo doutor, ele também, e Lara, uma enfermeira ó quão louvável!”, escreve Pennac. Não há nada que se condenar, nada de bobagem: há estilos e gêneros literários para todos os gostos e preferências. Boa leitura!  

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