quarta-feira, outubro 22, 2014

Indicação literária: "Elvis economiza gasolina em cinco marchas".

“Estes escritos são resultado de uma seleção de crônicas feitas a partir de observações, experiências minhas ou testemunhadas, páginas aqui e ali de leituras, de fatos ocorridos. Divididas por assuntos em capítulos que nominei como as cinco marchas: das artes, do ser humano, da sociedade, dos fatos e das datas”.

É com essas palavras que a publicitária e escritora gaúcha Ana Cecília Romeu apresenta o seu primeiro livro, “Elvis economiza gasolina em cinco marchas”.  A obra, uma coletânea de crônicas publicadas em seu blog pessoal e em diversos jornais do Brasil, apresenta reflexões sobre assuntos de interesse geral – sociedade, literatura, arte, viagens, futebol e relacionamentos.

Eu tive a honra e o privilégio em escrever o prefácio de “Elvis economiza gasolina em cinco marchas”, onde afirmo que “Ana Cecília gentilmente provoca o leitor com a dose equilibrada de razão e emoção evocando também referências literárias, cinematográficas e musicais. A leitura das crônicas neste livro nos remete a fatos e lembranças sobre nós mesmos em diversas situações e isso conduz a um diálogo entre o leitor e a escritora – seja concordando, discordando, rindo, emocionando, relembrando”.

A crônica, apesar de ser considerada por alguns críticos como um gênero literário “menor”, é na verdade um registro fiel aos fatos de um tempo, de uma época – não à toa que etimologicamente a palavra “crônica” remonta à mitologia grega com o deus Cronos, senhor do tempo. Para Fernando Sabino, a crônica "busca o pitoresco ou o irrisório no cotidiano de cada um". E é justamente com esse irrisório que a crônica, nas palavras de Antônio Cândido, “pega o miúdo e mostra nele uma grandeza”.

Geralmente as crônicas são curtas e objetivas e Ana Cecília, publicitária de formação, transmite muito bem as mensagens em breves palavras. Porém, como escrevi em meu prefácio, “que o leitor, no entanto, não se engane com aparentes simplicidades”: em seus textos agradáveis, a escritora apresenta “todo um processo de reflexão que surge através não apenas das notícias veiculadas pelas mídias, mas também a partir de lembranças de reuniões familiares, registros de viagens e até mesmo através da inocência e sagacidade nas perguntas de uma criança de cinco anos de idade”.

E assim encontramos no livro belas crônicas como “A maior casa do mundo”, uma bela homenagem aos pais; na crônica “Sétima gaveta e recomeços” podemos encontrar elementos que são alvos de nossas reflexões mais profundas, como o sofrimento e a felicidade; e em “Fim do nosso mundo” Ana Cecília nos faz a seguinte pergunta: “O que você colocaria na lista de coisas ainda a realizar?”.  

No caso de Ana Cecília certamente a publicação deste livro figurava na lista de coisas que ela realizaria. Eis aí o resultado de um sonho: “Elvis economiza gasolina em cinco marchas” poderia trazer como trilha sonora - e não poderia ser diferente - a canção “If I can dream”, de Elvis Presley:

Enquanto eu puder sonhar,
Por favor, deixe meu sonho
tornar-se realidade.


Título: Elvis economiza gasolina – em cinco marchas,
2014, 104 páginas.
Autora: Ana Cecília Romeu.
Editora: Evangraf 
Preço: R$ 25
Onde comprar:
- Blog da autora ( com as formas de contato) – clique AQUI.
- Livraria Cultura – clique AQUI

quarta-feira, outubro 08, 2014

A criança que existe em cada um de nós.


O garoto “é liso”, como dizem no jargão futebolístico: bom de bola, dribla com facilidade quem aparece pela frente. Não usa nenhum calçado e o estádio é a rua estreita onde joga com vários amigos. Passa por um, domina a bola com perfeição, passa por outro e faz o gol. Os amiguinhos do time o abraçam e ele abre aquele sorriso de quem fez uma jogada à la Neymar ou Messi.

Eu parei alguns minutos durante a correria do dia a dia para observar as crianças brincando – e lembrei os tempos em que eu era um garotinho correndo atrás de uma bola. Na verdade eu era um jogador “de linha” sofrível, mas um ótimo goleiro! Infelizmente, a miopia (e a necessidade em usar óculos) interrompeu a trajetória de um brilhante goleiro. E lembrei também da sorte que tive (e os meus amigos) em ter espaço para jogar bola: um terreno do qual era o nosso Maracanã, onde aconteciam jornadas épicas com o famoso clássico “Meninos da rua de baixo” x “Meninos da rua de cima”.

Neste breve exercício de observação vieram estas lembranças e também algumas reflexões. Nas grandes cidades, com o crescimento desordenado e a especulação imobiliária, aqueles espaços onde as crianças podiam brincar livremente praticamente não existem mais. Os parques e praças, os campos e a própria rua foram substituídos pelas áreas de lazer em condomínios fechados que oferecem segurança e vigilância 24 horas. As chamadas brincadeiras de rua como esconde-esconde, pega-pega, queimada, taco e tantas outras deram lugar aos jogos eletrônicos – não há nada de errado com tais jogos, mas as crianças precisam da mediação de adultos atentos para que não passem o tempo todo online ou com os tablets e vivenciem também outras experiências lúdicas e socializem com amigos.

Continuando com a observação dos meninos jogando bola, eles não se importavam com o fato de estarem descalços e em um ambiente onde não era tão propício para a prática do jogo: simplesmente se divertiam, de forma espontânea, tomando o cuidado em observar quando um veículo de aproximava da pacata rua em bairro residencial. E neste momento me questionei: por que nós, adultos, deixamos de ser espontâneos?

Ao longo do desenvolvimento, vários atores contribuíram para “desmontar” essa espontaneidade: família, escola, religião, grupos, sociedade, mídias. O brincar é deixado de lado e as crianças seguem “agenda de adultos” com atividades diversas (programadas) para ocuparem um tempo que deveria ser dedicado para que a criança se expresse, descubra, compartilhe e aprenda através da brincadeira – e isso sem falar de crianças exploradas de diversas formas e que são privadas da própria infância. Resgatar a infância dentro de cada um é algo que deveria ser praticado, pois se trata de resgatar a essência do nosso lado mais criativo, livre, espontâneo e lúdico. Muitas vezes não é fácil separar o que é natural e o que foi construído, mas procure observar como as crianças precisam de muito pouco para se divertir e como elas improvisam brincadeiras “do nada” muitas vezes. Quantas vezes nós, adultos, não soubemos lidar com imprevistos e reclamamos de situações onde “não há condições ideais” para exercer alguma atividade?

Claro que como adultos temos as responsabilidades referentes às contas, trabalho, casa, leis, etc.; além disso, ainda estamos submetidos a pressões de uma sociedade competitiva onde os apelos consumistas e o culto ao desempenho (no trabalho, nos estudos, na forma física, nos relacionamentos, no sexo) podem até mesmo levar a uma série de problemas de ordem emocional e psicológica. Com um cenário assim é mais do que fundamental resgatar a essência da infância e despertar aquela criança livre, criativa e espontânea que existe dentro de cada um de nós.

E aquele garotinho realmente é muito bom de bola! Ah, mas se fosse eu o goleiro, ele não teria vida fácil! 

Indicação: TARJA BRANCA” é um ótimo documentário que traz à tona a importância de brincar e o reencontro com a criança interior, além da manutenção do espírito lúdico. Vale (muito!) a pena conferir.


TARJA BRANCA – A revolução que faltava.
Documentário: 80 minutos, Brasil, 2014.
Direção: Cacau Rhoden
Mais informações e trailer, clique AQUI.  
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...