quarta-feira, julho 23, 2014

Sinais para o espaço

Desde os tempos de criança eu gosto de ler sobre o universo e os seus mistérios. Ao lado de estudos e observações sobre os corpos celestes e as galáxias, o espaço também instiga a imaginação abundante nas obras de ficção científica e até mesmo em algumas curiosas e divertidas teorias conspiratórias.

Ao falar sobre o universo, a pergunta que surge quase institivamente é: “Você acredita na existência de seres extraterrestres?”. Logo imaginamos as figuras de homenzinhos verdes (ou marrons) com olhos gigantescos a bordo de astronaves moderníssimas e dotados de tecnologia avançada. Deixando a imaginação um pouco de lado, existe um projeto que busca respostas sobre os ETs: trata-se do SETI (  Search for Extra-Terrestrial Intelligence – Busca por inteligência extraterrestre), que busca sinais de rádio emitidos através do espaço por algum tipo de vida inteligente.  

E aqui da Terra enviamos sinais. As ondas de rádio e TV viajam pelo espaço à velocidade da luz e viajarão por tempo indefinido, a menos que sejam interceptadas ou encontrem obstáculos pelo cosmos. “Se o maior telescópio de rádio/radar na Terra estivesse apontado para um telescópio equivalente num planeta de outra estrela, os dois telescópios poderiam escutar os sinais um do outro, mesmo que estivessem separados por milhares de anos-luz”, afirmou o astrônomo norte americano Carl Sagan.

É fascinante, mas de certa forma poderia ser preocupante: considerando que alguma civilização extraterrestre avançada receba e compreenda os sinais destas ondas eletromagnéticas, qual seria a impressão deixada pelos seres humanos habitantes deste pálido ponto azul na periferia da Via Láctea? Que mensagens nós estamos enviando ao espaço através destes sinais?

Ao ligar a TV ou o aparelho de rádio nos deparamos com notícias nada animadoras: a relação de conflitos armados pelo mundo não é pequena – considerando também ações violentas envolvendo o narcotráfico e diversos conflitos regionais - e a quantidade de refugiados atualmente já é a maior desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Os índices de violência aumentam no mundo todo e as mulheres e crianças são as maiores vítimas. Lições da história não foram aprendidas: o filósofo britânico John Gray, em seu livro “Cachorros de Palha”, chama a atenção para os genocídios cometidos pela humanidade: “Desde 1950, ocorreram perto de vinte genocídios; pelo menos três deles tiveram mais de um milhão de vítimas (em Bangladesh, no Camboja e em Ruanda)”.

Eis o cartão de visitas dos seres humanos através das ondas do rádio e TV pelo universo. É claro que algum ET poderá interceptar, com sorte, sinais de belas músicas, discursos pacifistas, declamações de poemas, histórias de amor e receitas de bolo de chocolate; no entanto, as mensagens que estamos enviando para o espaço e para nós mesmos são terríveis. Se alguma forma de vida inteligente extraterrestre estiver nos monitorando, vai desviar a rota dos seus discos voadores e passar bem longe daqui. 

“Já que conhecem tão bem o que está fora de vocês, devem conhecer melhor ainda o que está dentro”. É uma passagem do conto “Micromegas”, de Voltaire, que conta exatamente as reações e diálogos entre dois seres extraterrestres recém chegados à Terra com seres humanos.  Buscar vida em outros planetas, conhecer os segredos do universo são ações válidas, mas deveríamos também nos esforçar em conhecer melhor nós mesmos e praticar o que Carl Sagan recomendou em suas obras: afiar a nossa capacidade de diálogo e o nosso potencial para a compaixão “que, assim como as capacidades intelectuais, precisa de prática para ser aperfeiçoado”. 

Referências: 
SAGAN, Carl. Bilhões e bilhões: reflexões sobre vida e morte na virada do milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
SAGAN, Carl. Variedades da experiência científica: uma visão pessoal da busca por Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
GRAY, John. Cachorros de Palha: reflexões sobre humanos e outros animais. Rio de Janeiro: Record, 2011.
VOLTAIRE. Micromegas e outros contos. São Paulo: Hedra, 2007. 

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