quarta-feira, junho 11, 2014

A Copa do Mundo é nossa.



Após 64 anos, o Brasil novamente é sede de uma Copa do Mundo de futebol. A primeira vez, em 1950, o torneio contou com apenas 13 seleções divididas em 6 cidades sedes:  São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Recife. Agora, em 2014, teremos 32 seleções em 12 cidades.

A Copa do Mundo no Brasil ainda divide opiniões quanto à organização e os gastos com a construção de novos estádios para atender os critérios exigidos pela FIFA. Muitos brasileiros contestam o fato do país inaugurar uma série de estádios caros e modernos ao passo que a situação em setores como saúde e educação continua precária. Isso também se repetiu em1950: a construção do Estádio do Maracanã foi polêmica e os brasileiros já contestavam que o dinheiro seria melhor aplicado para melhorar a infraestrutura da saúde.

Evidente que as deficiências do país em diversos setores não são culpa da FIFA e muito menos da Copa do Mundo – aliás, triste do país que precisa de um torneio de futebol para resolver problemas básicos de infraestrutura. O grande problema com a Copa não é o evento em si, mas as expectativas criadas em torno do campeonato de futebol. De 2007, ano em que o Brasil foi anunciado como país sede, até agora, duas expressões foram muito difundidas através de governos, empresários e imprensa: “legado da Copa” e “vetor de oportunidades”. Acreditava-se que com a Copa do Mundo teríamos uma espécie de “Jardim do Éden” no país: cidades resolvendo problemas de mobilidade urbana e infraestrutura, brasileiros falando inglês e espanhol com muita naturalidade em cada esquina, hotéis e pousadas lotadas de turistas que chegariam do exterior em aeroportos modernos e eficientes. Sete anos depois o cenário de pujança idealizado não chega nem perto do que tentaram vender à população – daí a frustração e a disposição para protestos e manifestações como as que tivemos em Junho de 2013.

(Um adendo sobre manifestações e protestos: a Copa do Mundo é um evento que atrai atenções do mundo inteiro. Então é natural que os manifestantes aproveitem este acontecimento para obterem maior visibilidade para suas causas e reivindicações – “sou visto, logo existo”, é o lema da contemporaneidade. É claro que há oportunistas de todos os tipos, mas também há categorias de trabalhadores e movimentos populares que sempre manifestaram suas insatisfações em relação às políticas públicas e reivindicam melhores condições de trabalho e de vida independentemente de grandes eventos esportivos.) 

Quem tem boa memória lembra que essa história de “legado” foi repetida à exaustão quando os Jogos Pan Americanos foram sediados no Rio de Janeiro em 2007. Anos depois o tal legado para a cidade não se concretizou e muito pelo contrário: vários equipamentos esportivos (apenas para citar a parte do esporte) foram abandonados ou mesmo destruídos – e é bom lembrar que o Rio de Janeiro vai receber os Jogos Olímpicos em 2016 daqui a dois anos. E a maioria dos gastos para organizar o Pan do Rio saiu dos cofres públicos – e o “legado” daquele evento foi um fiasco. O histórico das políticas públicas do Brasil, planejamento e obras (além da corrupção endêmica) não é animador.

Fãs de futebol do mundo inteiro e os brasileiros vão acompanhar e torcer, é claro, por suas seleções e todos querem conferir as jogadas de grandes craques como Messi, Cristiano Ronaldo, Robben, Neymar, além de equipes candidatas ao título como Espanha e Alemanha – dentro de campo a Copa tem tudo para ser bem sucedida. Mas é preciso manter o espírito crítico: se o país é capaz de realizar um grande esforço para que novos estádios sejam construídos (a custos elevadíssimos) a fim de atender exigências da instituição que dirige e controla o futebol no mundo, por que novas escolas modernas e confortáveis não são construídas ao invés de simplesmente “reformarem” os prédios escolares caindo aos pedaços, ultrapassados e nada estimulantes para os alunos e professores? Tão bonito quanto um gol de Pelé ou uma jogada de Neymar é uma educação digna para todos – mas aí a torcida precisa deixar as arquibancadas e entrar em campo.

Enfim, vai ter Copa e vai ter postura crítica também – o que é salutar. Torcer pela seleção brasileira não configura “alienação” e criticar o evento também não significa ser “vira lata”, em alusão ao “complexo de vira latas” a que Nelson Rodrigues se referiu. O que esperamos é que possamos um dia dizer “vai ter boa Educação”, “vai ter boa Saúde”, “vai ter respeito pelo meio ambiente” e muito mais. Essa é a torcida que vai unir a todos.   
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