sexta-feira, abril 11, 2014

Dos arrependimentos e fracassos: sempre podemos aprender e crescer.


“Eu adoraria ter esta ‘cabeça’ que eu tenho hoje quando eu tinha meus 20, 22 anos. Teria evitado muitos erros e faria tudo diferente!”. Quem nunca pensou algo parecido quando paramos alguns minutos para refletirmos sobre esta montanha russa que é a vida?

Muitas pessoas continuam pensando desta maneira e ruminando arrependimentos em relação ao modo (ou modos) como conduziram alguma situação no passado. Oportunidades aparentemente imperdíveis que deixaram passar, relacionamentos que poderiam ter outro desfecho, comportamentos que renderam problemas ou situações vexatórias. A lista de arrependimentos pode ser longa.

É normal arrepender-se de algumas coisas que fizemos ou que poderíamos ter realizado; no entanto, para se ter a tal “cabeça de hoje”, ou seja, a maturidade necessária para lidar com situações que surgem no campo profissional, afetivo ou no cotidiano de modo geral , foi preciso passar por todos os processos que normalmente as pessoas querem evitar a todo custo: erro, fracasso, frustrações, sofrimento.  Evidentemente ninguém erra por querer e tampouco busca pelo sofrimento, mas são episódios que fazem parte da vida. Podemos aprender muito com os “erros” cometidos e com as frustrações – é assim que desenvolvemos a chamada maturidade emocional. Frédéric Lenoir, filósofo e escritor francês, afirma que os fracassos são “autênticos mestres espirituais, ou seja, guias que nos ajudam a retificar nossa trajetória”. 

Claro que é doloroso falhar, sobretudo em uma sociedade onde a ideologia do sucesso e da perfeição se tornou uma obsessão: “Proibido errar!”, é assim que muitas vezes somos educados e condicionados a pensar desde a infância.  Com “medo de errar” (e do julgamento alheio), também desenvolvemos o medo de tentar, arriscar. E desta forma estamos sempre preocupados em evitar a dor ao perseguir a felicidade plena – e o filósofo André Comte-Sponville nos adverte: “Aquele que só amasse a felicidade não amaria a vida, e com isso se proibiria de ser feliz.” Parece estranho, mas o filósofo complementa: “Viver é uma tragédia, viver é uma comédia, e é a mesma peça, e ela é bela e boa, em todo caso pode sê-lo, se sabemos vivê-la, se sabemos amá-la como ela é, e, aliás, não temos escolha.” Amar a vida como ela é, com todas as suas delícias e dores. “Se a vida não corresponde às nossas esperanças”, continua Comte-Sponville, “não é forçosamente a vida que está errada: pode ser que sejam as nossas esperanças que nos enganam”.  

Não se trata de uma ode ao sofrimento. A verdade é que não é possível agir como no filme “Peggy Sue” e voltar ao passado para “corrigir erros” e assim evitar frustrações futuras, da mesma forma que é impossível blindar a vida de decepções e sofrimentos. Não adianta se arrepender amargamente de coisas realizadas (ou não) no passado, mas sim aprender as lições do período e principalmente ocupar-se com o que pode ser feito agora – o que será plantado hoje para ser colhido em um breve futuro.  Buscar a “liberdade e a felicidade num ponto qualquer do passado”, como escreveu Hermann Hesse, é praticamente fechar os olhos para o que acontece ao redor e deixar de lado as possibilidades de mudança.

A vida é de tal forma dinâmica que sempre continuaremos tentando, arriscando... e falhando e acertando, chorando e sorrindo. E nesta gangorra, busquemos a serenidade para que possamos “nos rejubilar quando vêm os seus altos; e quando chega a hora dos baixos, cuidemos de aceitá-los e de fazer com que nos sirvam de trampolim”, segundo Lenoir. E trazer do passado somente o aprendizado, e não os grilhões que nos paralisam e impedem a nossa caminhada rumo ao autoconhecimento.

Referências:
Comte-Sponville, André. Bom dia, angústia! . São Paulo: Martins Fontes, 2010.
Lenoir, Frédéric. Pequeno tratado da vida interior. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.     
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