segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Amar ou depender? Sobre o amor e maturidade emocional.


Quem disse que para estabelecer uma relação de afeto devemos nos encarcerar? De onde vem esta ridícula ideia de que o amor implica estancamento? Por que algumas pessoas, ao se apaixonarem, perdem seus interesses vitais? O amor deve ser castrador? (...) Amar não é se anular, mas crescer a dois.” (p.68)

Escrever sobre o amor e as relações afetivas não é fácil e ao longo dos séculos estes temas já serviram como inspiração para escritores, músicos, dramaturgos, religiosos e até mesmo vários filósofos debruçaram sobre tais temáticas procurando entender aquilo que Freddie Mercury se referia como “crazy little called love” em uma de suas músicas. 

O dicionário Aurélio traz o significado para amor como “sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem”.  Não há dúvidas de que amar e querer o bem da pessoa amada é um sentimento belíssimo e todos apreciam; no entanto, existe o chamado “lado B do amor”, uma espécie de amor que leva ao sofrimento e abala a autoestima. Não é difícil encontrar histórias de casais onde a relação é doentia e até mesmo acontecem tragédias nos chamados crimes passionais.

É justamente sobre este “lado B” do amor que o psicólogo Walter Riso trata em seu livro “Amar ou depender? Como superar a dependência afetiva e fazer do amor uma experiência plena e saudável”, da editora L&PM pocket. Em pouco mais de 160 páginas de linguagem simples e leitura fluida, Riso enumera diversos comportamentos que levam ao quadro de dependência em atitudes nas quais “sob o disfarce de amor romântico, a pessoa dependente afetiva começa a sofrer uma despersonalização lenta e implacável até se transformar num anexo da pessoa ‘amada’, um simples apêndice”.

À primeira vista o livro parece ser destinado apenas para casais com problemas de relacionamento, mas na verdade o que se discute em suas páginas são conceitos ligados à inteligência emocional, bem-estar e autonomia – ou seja, assuntos que são válidos para todos, até porque mantemos relações afetivas com pais, filhos e demais parentes, por exemplo.  Obviamente ninguém vive sem afeto, mas quando há insistência em relações que envolvam medos, castrações e humilhações apenas por “estar com alguém para não ficar sozinho (a)”, há problemas.  Para o psicólogo, a origem desta dependência “parece estar na superproteção dos pais durante a infância e na crença de que o mundo é perigoso e hostil.” A autonomia e a liberdade são tolhidas e isso irá se refletir na vida adulta e nos relacionamentos amorosos destas pessoas, o que resultará em dificuldades ao lidar com frustrações, sofrimentos e incertezas.  Impossível não lembrar o educador Paulo Freire em sua “Pedagogia da Autonomia”, onde ele clama pelo “respeito à autonomia e à dignidade de cada um”.

Muitas pessoas podem estranhar uma relação onde não há cenas de ciúmes (sobre este tema, leiam “Otelo”, de Shakespeare) e a liberdade afetiva é encarada como se fosse frieza, egoísmo e mesmo libertina ou “promíscua”, mas o que o autor defende, além do amor que se regozija e compartilha a alegria do outro, também é uma linha de pensamento que muitos filósofos e mesmo guias espirituais já disseram há séculos:  Pitágoras (“Acima de tudo, respeita a ti mesmo”), Aristóteles (“O homem virtuoso tem o dever de amar a si mesmo”) e Jesus (“Ama o teu próximo como a ti mesmo”) são alguns exemplos de que o amor deve começar primeiro por nós mesmos. O filósofo e escritor Frédéric Lenoir, em seu (ótimo) “Pequeno tratado de vida interior”, deixa tudo muito claro: “a qualidade de nossa relação com os outros depende intrinsecamente da relação que temos com nós mesmos”. Quando estamos seguros sobre quem somos e sobre o que queremos, lidamos melhor com os problemas que surgem, inclusive de ordem afetiva.

É maravilhosa a dimensão lírica do amor (lembrem-se dos poemas, dos romances e das cartas apaixonadas) e as idealizações românticas das quais todos passamos quando o Cupido nos acerta em cheio em suas flechas – e até por isso teorizar ou racionalizar demais sobre o amor é algo complexo; mas todos nós desejamos uma relação equilibrada, harmoniosa, madura e alegre.

“Amar somente se justifica quando podemos fazê-lo de forma limpa, com honestidade e liberdade.”, afirma Riso. Eis a busca para efetivamente se amar e ser amado (a), e não depender. 


“Amar ou depender? Como superar a dependência afetiva e fazer do amor uma experiência plena e saudável”
Walter Riso
Editora L&PM coleção Pocket
166 páginas
De R$ 11,35 até R$ 17,90

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