segunda-feira, outubro 14, 2013

O trânsito e a nossa desumanização


“É no prolongamento da potência da máquina que se encontra, em nossa sociedade, a potência humana perdida. É nele que se livra daquele ser coisificado, castrado, diminuído, constrangido a todo instante. Em última análise, trata-se da busca do orgasmo perdido
”. 
                                                     Ned Ludd, "Apocalipse motorizado". 

O que parecia ser mais uma das centenas de discussões que acontecem diariamente no trânsito, se transformou em assassinato: a médica oftalmologista, ofendida por algo que o motoqueiro e sua carona fizeram, acelerou o seu vistoso veículo em perseguição ao casal na moto até atingi-los. O impacto levou o casal à morte e a médica perdeu o controle do veículo, colidindo em um muro. 

Na fria realidade dos números, o jovem casal da moto engrossará as estatísticas da tragédia que é o trânsito brasileiro: anualmente, mais de 40 mil pessoas perdem a vida nos chamados “acidentes de trânsito” - uma morte a cada 11minutos. A guerra civil na Síria já matou mais de 100 mil pessoas desde o início dos conflitos, em 2011. 

A quantidade de vítimas fatais no trânsito brasileiro assemelha-se aos números de guerra porque é de fato uma guerra: a disputa por espaço nas vias tomadas por carros, o desrespeito às leis mais básicas do Código Brasileiro de Trânsito, a falta de bom senso e de educação, a fiscalização frouxa e comportamentos agressivos ao volante transformam nossas ruas e avenidas em verdadeiros campos de batalha.

O brasileiro, “apaixonado por carro”, não admite “ficar para trás” ou levar desaforo para casa. “No Brasil, quem cede igualitariamente a vez está errado e é sempre admoestado por buzinadas e xingamentos de todos os motoristas”, afirma o antropólogo Roberto DaMatta. O motorista que experimenta conduzir o seu veículo de forma tranquila e seguindo rigorosamente os sinais e as leis de trânsito será considerado o “trouxa” ou o “lerdo”. O Código de Trânsito dá lugar a uma espécie de “código das ruas”, onde prevalece o salve-se quem puder e cada um por si.   

Além da questão social do carro ser considerado um símbolo de autonomia, poder e até mesmo sedução – vide as propagandas exibidas na televisão e internet -, existe um aspecto que é muito bem retratado em um famoso desenho de Walt Disney, o sr. Walker (Pateta): um pacato cidadão que distribui gentilezas e sorrisos para a vizinhança se transforma em um “monstrorista” ao assumir o volante de um automóvel. É esta a desumanização que observamos todos os dias em nossas ruas e avenidas ao melhor estilo Dr. Jekyll e Mr.Hyde, onde aquelas pessoas simpáticas e tranquilas são capazes das piores loucuras a bordo de uma máquina que pode matar. 

E é neste cenário de desconstrução de humanidade caracterizada pela impessoalidade e pelo desejo de status e conquista – um caríssimo veículo importado não pode “comer poeira” de um modesto carro popular, por exemplo – em que nos encontramos. Não importa se o motorista seja médico, juiz ou um operário: a partir do momento em que o outro motorista ou pedestre é visto como um mero obstáculo a ser superado, um inimigo a ser eliminado e não como um ser humano, é sinal inequívoco de que definitivamente chegamos à barbárie. 

REFERÊNCIAS:
Apocalipse Motorizado: A tirania do automóvel em um planeta poluído / Ned Ludd (org.). São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2004. (Coleção Baderna) 

Fé em Deus e pé na tábua, ou, Como e por que o trânsito enlouquece no Brasil / Roberto DaMatta; com João Gualberto Moreira Vasconcellos e Ricardo Pandolfi. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.     

sexta-feira, outubro 11, 2013

A vida é uma loteria!



Não se impressione com minhas roupas puídas, meu rapaz. Ô, qual a surpresa? Eu sei o que significa “puída”, eu aprendi muita palavra difícil quando eu era grã-fino e frequentador das altas rodas da sociedade. Eu tinha que impressionar, né? E você sabe: se vestir bem e falar difícil impressiona qualquer um. 


Se eu já fui rico? Meu jovem, eu fui milionário! Eu sei que o que você está pensando: um velho acabado com essas roupas e morando em um barraco neste lugar onde até a polícia tem medo de entrar realmente não tem nada a ver com a imagem de alguém que aparecia nas colunas sociais, sempre na companhia de grandes empresários e mulheres deslumbrantes com suas roupas chiques e joias valiosas.  

Bom, há muito tempo eu ganhei na loteria. É, é sério: ganhei 22 milhões de cruzeiros! Naquela época não era o "real", a moeda era o "cruzeiro". Não sei dizer quanto isso vale em reais atualmente, mas era muito dinheiro, rapaz! Lembro, lembro bem quando ouvi no radinho os números da Quina e acertei sozinho todos os números, assim, ó, redondinho! Nem acreditei: anotei tudo num papelzinho, li e reli várias vezes para acreditar. Na época eu trabalhava como zelador em um prédio, não tinha estudo e ganhava 3 mil cruzeiros por mês – mais ou menos um salário mínimo. 

A primeira coisa que eu fiz? Foi largar aquele emprego, é claro! Eu tava cheio da grana e pedi demissão em grande estilo: faltei uma semana inteira no trabalho e voltei lá com um terno todo alinhado, bonito, parecido com aqueles que o Flávio Cavalcanti usava na TV, coisa de dotô mesmo. Apareci com um Opala azul, bonitão, gran luxo, todo mundo me olhando quando entreguei uma vassoura e um balde para a síndica do prédio e disse: “Peço demissão! Limpe você o prédio e use a vassoura pra subir até o seu apartamento!”. 

Se eu tirei onda? Ah, meu jovem, isso foi só o começo. Eu era jovem, mais ou menos da sua idade, tinha uma barba igual à do Francisco Cuoco e diziam que eu tinha um rosto que lembrava o Claudio Marzo, sabe? Pergunte para a sua mãe ou para a sua avó, ela vai suspirar quando ouvir os nomes destes galãs! Hahaha, o que o dinheiro não faz, né? Virei galã de novela, isso mesmo.  Então, com roupa bonita, dinheiro à vontade e carrão, eu pegava todas as mulheres! Eu saía direto com várias mulatas do Sargentelli e também com as chacretes. E com umas atrizes também, é claro! Cansava de dar festas onde aparecia artista, jogador de futebol, empresário, modelo... eu me tornei figurinha carimbada nas colunas do Ibrahim Sued! Meu negócio era a ponte aérea Rio-SP quase todos os finais de semana e sempre rolava uma festança com muita bebida e muita comida! 

Eu cheguei, sim, a ter patrimônio. Comprei casa, apartamento e investi também em uns negócios por aí, mas fui enganado por muita gente, sabe? Também eu era muito ingênuo, comprava imóveis e além de não pensar nos impostos que teria que pagar, deixava tudo pros outros resolverem, né? Eu só queria curtir, farrear, confiei em muita gente que se dizia amigo, mas quando fiquei na lona os “amigos” sumiram todos. Dei uma casa para uma dançarina do Clube do Bolinha e hoje nem sei se a criatura é viva ou morta. Gastei todo o dinheiro que restou para me livrar de um monte de processos por falta de pagamento, inventaram até que soneguei impostos e  perdi todo o patrimônio. Não sobrou nada, nadinha!

Pois é, voltei a ser zelador, mas não naquele prédio que eu havia trabalhado porque eu ainda tenho um orgulho, né? Eu tinha, sim, muitas fotos, recortes de jornais e revistas, eu com um monte de artista da Globo, tinha uma foto em que eu estava com o Pelé e a namoradinha dele na época, a Xuxa, tão novinha e tão bonitinha!  Saiu até na revista Manchete, o negão me cumprimentando e a loirinha ao lado, toda sorridente. Ah, meu jovem, uma tragédia: eu morei num barraco que a enchente destruiu e eu acabei perdendo todas aquelas lembranças! 

E hoje tô por aqui, vivendo de aposentadoria e fazendo uns bicos aqui e ali quando dá certo. Casei, mas separei. Tenho, tenho uma filha que não vejo há anos. Se eu me arrependo? Olha, meu jovem, vou te dizer com toda a sinceridade: eu faria tudo de novo, se pudesse. Bom, hoje eu ficaria mais esperto, mas iria curtir a vida se eu ganhasse de novo na loteria. Jogo, jogo sempre na Quina, é mais barato e às vezes acerto uns três ou quatro números. Por falar nisso, será que você não pode me ver uns dois reais aí? Quero tentar a sorte na mega sena desta semana.

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Inspirado na postagem "Por que não busquei meus R$ 23 milhões da Mega Sena", do ótimo blog da Cristina Moreno de Castro. 

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