quarta-feira, agosto 21, 2013

Mudar é difícil, mas é possível.


O escritor Liev Tolstói, autor de obras clássicas como “Guerra e Paz”, “Anna Karenina” e vasta produção literária, relatou em um texto intitulado “Mas precisa mesmo ser assim?” as condições precárias em que muitas pessoas viviam na Rússia, descrevendo o cenário de desigualdade social no último quartel do século XIX:

 Algumas pessoas andam em cavalos robustos, bem alimentados, perambulando, passeando; outras trabalham,  torturadas, em cavalos mal alimentados e vão trabalhar a pé. (...) Algumas [pessoas] leem em quatro línguas, deleitando-se todos os dias com uma variedade de distrações; outras não sabem o alfabeto e não conhecem outra alegria a não ser de se embriagar”. 


No Brasil temos a figura de Paulo Freire, o patrono da Educação brasileira, que também denunciava a desigualdade e opressão das quais as pessoas sofriam – e ainda sofrem - em nosso país, como registrado em uma de suas cartas pedagógicas: 

 “Não posso, por isso, cruzar os braços fatalistamente diante da miséria, esvaziando, desta maneira, minha responsabilidade no discurso cínico e ‘morno’ que fala da impossibilidade de mudar porque a realidade é mesmo assim.”  

O que Tolstói e Freire têm em comum? Ambos não se conformavam com situações que julgavam injustas e opressoras.  E passaram do discurso à ação: o russo utilizou seu talento literário para criar cartilhas com as primeiras letras e contos para crianças - e ainda fundou uma escola para os filhos dos camponeses pobres na propriedade da família, em Iasnaia Poliana; já o brasileiro, com base em sua extraordinária percepção da realidade e considerando os alunos como sujeitos históricos e munidos de saberes, criou um modelo de alfabetização simples e revolucionário para adultos, principalmente das camadas populares e comunidades rurais. 

São figuras inspiradoras como estas que nos ajudam a superar algumas frustrações no cotidiano. Repare quantas vezes reclamamos sobre situações relacionadas à nossa vida pessoal ou profissional durante o dia. Reclamar é um desabafo, isso todos nós fazemos quando não estamos satisfeitos com alguma coisa; o problema é quando paralisamos a vida no eterno queixume e não fazemos nada a respeito para mudar – e não são poucas as pessoas que só enxergam duas opções: continuar a reclamação ou se acomodar porque “a coisa é assim mesmo”.  

Novamente recorrendo a Tolstói,  o escritor russo nos lembra que a História é feita de pequenas coisas que as pessoas comuns fazem todos os dias.  Nestes tempos de culto ao desempenho, vivemos na expectativa de sucessos profissionais e pessoais que serão alvos de holofotes e honrarias – assim é criada uma visão padronizada do que é ser “bem sucedido” ou "vencedor", principalmente em relação ao status social. No entanto, como não considerar bem sucedido o trabalho de uma enfermeira que ajudou a salvar uma vida ou de uma professora que ensinou uma criança a ler e escrever? Nem sempre estas e outras tantas ocupações (e seus profissionais) são valorizadas como deveriam – e o verbo “valorizar” não se resume apenas ao aspecto financeiro.   

A melhor opção, ao invés de reclamar incessantemente, é agir. Todas as pessoas são dotadas de alguma habilidade que pode ser bastante significativa na vida de outra pessoa ou de uma comunidade inteira. Não precisamos nos preocupar se nossas ações serão merecedoras de grandes prêmios e honrarias  – evidente que o reconhecimento faz bem para a autoestima, mas o primeiro passo é valorizarmos o que fazemos e em seguida deixar de lado a “Síndrome de Hardy”, tal como a hiena do desenho animado que reclama de tudo e acha que nada dará certo. Sim, o sistema, o governo, a burocracia... tudo isso e tantas outras situações são desanimadoras, sem dúvida, mas pense se é melhor continuar como a hiena Hardy ou se é preferível adotar uma outra atitude mesmo em um cenário aparentemente não muito favorável.  

“Nós nascemos para agir”, escreveu o francês Montaigne em seus “Ensaios”. E não importa se a ação parecer pequena ou insignificante: lembre-se de Rosa Parks, a costureira negra norte-americana que não cedeu seu lugar no assento das primeiras filas no ônibus a um homem branco, conforme determinava uma lei absurda no estado de Alabama. O ato da costureira, que foi presa, inspirou não apenas a luta antissegregacionista nos Estados Unidos no final da década de 50, mas também a um jovem pastor chamado Martin Luther King.

Para Paulo Freire, “mudar é difícil, mas é possível”. Reconhecer as dificuldades e não se conformar com uma realidade faz parte do processo de mudança. Que sejam atitudes aparentemente pequenas, mas o que não precisamos é erguer mais muros, pois às vezes nos preocupamos tanto se os tijolos estão firmes que esquecemos uma ação muito simples: abrir a janela e enxergar novas paisagens e possibilidades. 

REFERÊNCIAS:

FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Editora UNESP, 2000. 

TOLSTÓI, Liev. Os últimos dias. São Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras, 2011.
 
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