sexta-feira, abril 26, 2013

Sidarta e a voz do rio.



Recentemente terminei a leitura de Sidarta, livro de Hermann Hesse que conta a história de um homem em busca da iluminação espiritual, da paz interior e serenidade. Em pouco mais de 100 páginas (Editora Best Bolso, 2012, 1ª edição) temos uma história muito bonita e simples da trajetória da personagem Sidarta – não confundir com Sidarta Gautama, o Buda, que serviu como inspiração para o livro. 

Sidarta é uma obra que suscita diversas reflexões. A narrativa de Hesse foi influenciada pelo período em que o escritor alemão passou na Índia em 1911. Não esperem, porém, um manual sobre os ensinamentos do budismo ou hinduísmo: eles estão por todas as páginas do livro, inseridos no romance e sem grandes explicações didáticas – o que torna a leitura fluida e agradável. Mas não há necessidade de tal didatismo: quando Sidarta experimenta o Samsara (ou Sansara), por exemplo, não há uma explicação rigorosa sobre o que é isso dentro do hinduísmo ou budismo, mas descreve as fraquezas do espírito, a efemeridade de todas as coisas e os questionamentos que o então jovem brâmane passou durante um período em sua peregrinação.

A parte mais bonita do livro é quando Sidarta abandona o período em que se tornou um rico comerciante e amante da bela Kamala para tornar-se um ajudante de Vasudeva, um humilde balseiro.  Vasudeva não é de falar muito, porém não é preciso, pois o rio está diante deles e sempre com algo a dizer: 

 “Quem me ensinou a escutar foi o rio e ele será teu mestre também. O rio sabe tudo e tudo podemos aprender com ele. Olha, há mais uma coisa que a água já te mostrou: que é bom descer, abaixar-se, procurar as profundezas. O rico e nobre Sidarta converte-se num remador; o erudito brâmane Sidarta torna-se balseiro. Também isso te sugeriu o rio. O resto, ele te ensinará ainda.” 

Pode até parecer estranho que o rio “fale” alguma coisa, mas ao ler estas passagens do livro relembrei quando estava sobre uma ponte observando um rio de águas barrentas que seguia seu rumo caudaloso após uma noite chuvosa. Eu apenas observava e ouvia o som das águas quando alguém também parou para ver o rio e comentou: “O rio está feliz: escuta a alegria e o vigor com que ele corre!” . 

Olhei para o lado e vi um senhor com o olhar admirado diante das águas. Concordei com o comentário e em retrospectiva imagino que aquele homem, que eu não conhecia, poderia ser o próprio Sidarta a complementar: “O rio tem muitas vozes, um sem-número de vozes, não é, meu amigo? Não te parece que ele tem a voz de um rei e a de um guerreiro, a voz de um touro e a de uma ave noturna, a voz de uma parturiente e a de um homem que suspira, e inúmeras outras ainda?”. 

Ouvir o som das águas pode ser uma experiência reveladora. O cronista e compositor Antônio Maria também entendeu isso:“A voz das águas é mais bonita que a das estrelas. (...) Qualquer um entenderá, na voz das águas, o tênue e longínquo significado das raras palavras verdadeiras. Basta para isso que se tenha paz e paciência, solidão e humildade”. 

Vivemos em um mundo onde estresse, intolerâncias, manifestações violentas (físicas, verbais, virtuais) e busca por poder e status são imperativos; um mundo em que tudo se torna capital – inclusive o corpo – e o consumismo não raramente é apontado como terapia. Sidarta também foi apanhado por este mundo, onde a posse, a avareza e a cobiça dominaram o seu espírito. Ao ouvir a voz do rio, em sua solidão e humildade, ouviu também o seu espírito e encontrou a serenidade que tanto buscava. 

Aquela senhora tem um piano/ Que é agradável, mas não é o correr dos rios”, nas palavras de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Na busca pelo sentido da vida, procuramos vários caminhos, métodos e até mesmo bens materiais para obter uma resposta satisfatória; e muitas vezes esquecemos as coisas mais simples – como o que está dentro de nós e que Sidarta gentilmente nos ensina, ao final do livro: “o amor é o que há de mais importante no mundo”.  

Referências:

Hesse, Hermann. Sidarta. Tradução de Herbert Caro. – 1ª edição – Rio de Janeiro: Best Bolso, 2012.
Maria, Antônio. Seja feliz e faça os outros felizes: as crônicas de humor de Antônio Maria/ seleção e organização Joaquim Ferreira dos Santos. – 2ª edição – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
Pessoa, Fernando. Ficções do interlúdio, 1: poemas completos de Alberto Caeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.


sexta-feira, abril 12, 2013

Violência contra professores



A professora de filosofia já se preparava para encerrar mais uma aula na noite de segunda-feira quando as luzes da escola em Franco da Rocha, São Paulo, foram apagadas – e a professora foi atingida no olho esquerdo por uma lixeira arremessada por um aluno

A diretora de uma escola no Rio de Janeiro passava pelo corredor quando viu dois adolescentes simulando uma briga. Um dos adolescentes, de 15 anos, não gostou de ser repreendido e espancou a diretora, que ficou bastante ferida; 

O professor fazia a chamada de sua turma em uma escola em Aracaju quando foi interrompido por uma discussão entre dois alunos. O professor, no entanto, não teve tempo de fazer nada: um dos alunos sacou o revólver e atirou. A bala atingiu o professor, que foi socorrido às pressas. 

Estes são alguns relatos de violência contra professores em seu ambiente de trabalho, a sala de aula - o ambiente onde o professor deveria encontrar condições para realizar suas funções pedagógicas e cumprir o papel que se espera deste profissional quanto à aprendizagem e formação crítica dos estudantes. 

No entanto os professores têm encontrado dificuldades para gerenciar os conflitos na sala de aula – conflitos que sempre existiram na relação entre professores e alunos; mas atualmente os docentes lidam com situações em que se deparam até mesmo com estudantes armados e não raramente envolvidos com tráfico de drogas, além de agressões físicas, verbais e vários tipos de ameaças. A situação está tão crítica que existe um projeto de lei que visa combater a violência sofrida pelos professores tramitando pelo senado para ser aprovado. 

Que o atual sistema educacional é burocrático, arcaico e desmotivador para alunos com uma dinâmica bem diferente de anos atrás é verdade; que fazer da escola um lugar “de estacionamento de crianças e adolescentes é perigoso”, nas palavras de Yves de La Taille, também é verdade; mas é verdade também que a escola ( e o professor) está sobrecarregada com o “excesso de missões”, para utilizar uma expressão do professor português António Nóvoa.   

E é com o professor Nóvoa que encontramos uma ótima pista para entender o que vem acontecendo: “as escolas valem o que vale a sociedade. Não podemos imaginar escolas extraordinárias, espantosas, onde tudo funciona bem numa sociedade onde nada funciona.” No caso do Brasil, temos uma sociedade onde vários direitos são negados aos cidadãos – ou “conquistados” após árduas “batalhas” contra burocracias -, muitos deveres são desprezados e as políticas públicas em áreas como esporte, lazer e cultura principalmente nas áreas mais carentes das cidades não merecem a devida atenção dos governantes; além disso, vivemos em uma sociedade bastante violenta, o que é facilmente constatado através de dados fornecidos pelas Secretarias de Segurança Pública estaduais. Espera-se, assim, que a escola (e os professores) sob o mantra de “Educação é a solução para todos os problemas” assuma funções além daquelas que a instituição pode suportar – o excesso de missões.  A escola tenta dar conta com planos e projetos ligados à cidadania e cultura da paz, por exemplo; os professores realizam cursos de prevenção às drogas, Direitos Humanos, diversidade, tecnologias educacionais, relações étnico-raciais e tantos outros. A escola não permanece alheia e tampouco se omite, mas sendo instituição isolada dentro de um contexto onde a violência é tratada como espetáculo – programas sensacionalistas da TV explorando e “coisificando” a vida/morte humana sob a justificativa de “mostrar a realidade”, por exemplo – e onde simples medidas disciplinares são consideradas autoritárias, ela continuará enfrentando os mesmos problemas. 

Lembremo-nos do que o inesquecível educador Paulo Freire dizia: “Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho,inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Educação é fundamental para a construção de uma sociedade melhor, mas é um processo conjunto, não isolado. A própria Constituição Federal diz, em seu artigo 205, que “educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade”. A violência contra professores nas escolas não é um problema apenas do âmbito pedagógico, mas também de governantes e sociedade que aparentemente preferem fugir de suas responsabilidades. 

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