quarta-feira, março 13, 2013

O mundo ao avesso

(imagem de fundo da charge: Farol da Barra, daqui

Eduardo Galeano
, notável escritor uruguaio, é autor do livro “De pernas pro ar – a escola do mundo ao avesso”. (Editora L&PM) Trata-se de uma coletânea de fatos, eventos históricos e personagens em que “no fim do milênio, o mundo ao avesso está à vista de todos”. A edição da L&PM ainda traz gravuras incríveis de José Guadalupe Posada

Tomarei emprestada a ideia de Galeano e relacionarei alguns exemplos de fatos, eventos e personagens que foram destaque recentemente em Pindorama – claro que sem o talento do magistral escritor uruguaio, de quem segui o conselho das últimas páginas do livro: “O autor terminou de escrever este livro em 1998. Se você quer saber como continua, ouça ou leia as notícias do dia a dia”. 
                                                                    ***

Aulas de Ciências e Meio Ambiente


Todos nós sabemos que o Congresso Nacional é uma instituição onde vários absurdos acontecem, mas desta vez exageraram na dose. A Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados será presidida pelo deputado e pastor evangélico Marcos Feliciano, autor de bobagens como “africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé”, “sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças” e “AIDS é o câncer gay”. Sim, estamos no século XXI, antes que alguém pergunte. 

Já na Comissão do Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização (CMA), o presidente eleito é o senador Blairo Maggi, agraciado com o prêmio “motosserra de ouro” por ser um dos maiores desmatadores do Brasil e por considerar que “esse negócio de floresta não tem o menor futuro”. Sem dúvida, um homem de ideias devastadoras. 


Pedagogia das ruas


O motorista Alex Siwek, 22 anos, atropelou um ciclista em São Paulo. O braço direito de David Santos, 21 anos, foi arrancado com o impacto do acidente e permaneceu preso ao veículo. O que o estudante de Psicologia fez? Jogou o braço do ciclista em um córrego. Freud não explicaria e Jung nem sonharia com algo assim. Provavelmente.  

E na Bahia a Secretaria de Segurança Pública resolveu dar uma dica preciosa para os baianos cada vez mais acuados pela violência crescente no estado: “carregue um pouco de dinheiro (para satisfazer o ladrão)”. Pena que o site da SSP-BA não deu nenhuma dica de quanto seria esse “pouco”. O jeito é perguntar ao ladrão: “Estudante paga meia?”  


Currículos e didáticas modernas


Como a escola anda muito chata, o jeito é alterar o currículo para torná-la mais atraente. Então São Paulo resolveu mostrar como se faz: nos três primeiros anos do Ensino Fundamental I ( o antigo primário) nada de matérias como Geografia, História e Ciências no currículo. O negócio é reforçar em Matemática e Português para que os alunos possam fazem bonito nas avaliações externas – Prova Brasil e SARESP. Quem sabe o próximo passo não seja retirar também todos os professores das escolas? 

Por falar em professores, houve um tempo em que o material de trabalho de um professor era livro, lápis, caneta, giz, apagador; mas isso era antigamente: hoje o bom professor precisa estar conectado às novas tecnologias e ter um tablet, um blog, um revólver... um revólver? Ou qualquer outra arma de fogo, pois agora a "formação de professores" no Texas, EUA, inclui aulas de tiro. As reuniões pedagógicas nas escolas nunca mais serão as mesmas.
                                                                        ***

 É melhor encerrar por aqui esta brevíssima coletânea de exemplos de como as coisas na Terra de Santa Cruz estão de pernas para o ar – e se dermos uma olhadinha no que acontece por esse mundão afora, a coletânea aumentaria. Porém, como escreveu Galeano, a história não acaba aqui: ela continua. Assim, como tenho direito ao delírio, ainda sonho com dias em que “sejam reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma”.  

terça-feira, março 05, 2013

A ignorância pode ser uma bênção


Essa história aconteceu há algum tempo. Eu estava em companhia de algumas pessoas visitando o Museu de Arte Moderna de Salvador (o belíssimo Solar do Unhão) e aproveitando uma tarde ensolarada na Baía de Todos os Santos. Caminhávamos em direção ao parque das esculturas quando  vi uma equipe de TV se preparando para gravação e havia uma bela morena que trocou olhares e sorrisos com alguns de nosso grupo. 

- Ela é linda e muito simpática, não é? - comentou um rapaz que estava conosco. 
- Quem é aquela moça? Você conhece? - perguntei, com toda a ingenuidade do mundo, o que gerou risadas do grupo.
- Aquela é Fulana de Tal, cantora! Nunca ouviu aquela música “pá-pá-pá...”? - explicou uma colega e começou a cantarolar uma música da qual eu desconhecia, apesar de todos no pequeno grupo jurarem ser um sucesso. 
- Nunca ouvi essa música, sério. - murmurei, tentando lembrar a música ou buscando na memória alguma lembrança da sonoridade, mas sem êxito. Eu realmente não conhecia.
- Ah, não acredito! Em que mundo você vive? - retrucou a colega. 

Certamente não é no mundo das celebridades e das subcelebridades. Eu não sei o que estou perdendo em não acompanhar com afinco as últimas novidades sobre o artista X ou a cantora Y e principalmente sobre os eliminados no paredão do Big Brother Brasil, mas basta uma navegada pelos portais de notícias na internet e não é difícil encontrar notícias – ou melhor, fofocas – sobre a vida dos “famosos”. 

Repare que coloquei a palavra “famosos” entre aspas porque parece ser mais conveniente. Vejo fotos e leio notícias de algumas pessoas elevadas ao hall da fama e procuro alguma coisa que as identifiquem – ator, atriz, cantor, cantora, escritor, político; mas não raramente encontro que Fulano é “ex-BBB”, Sicrana é “ex-namorada de jogador de futebol” e ainda há quem seja “promoter” ou “empresário”. A coisa piora quando procuro pelas habilidades de alguns destes “famosos” – e pelo visto o talento não é mais um traço de distinção.   

Na era da visibilidade e narcisismo levados ao extremo através das redes sociais e compartilhamento de vídeos, parece que não é tão difícil ser “famoso”. De repente um cantor da Coreia do Sul torna-se sucesso mundial através de um vídeo no youtube em que ele inventa uma dança desengonçada – e o próprio cantor admitiu que tentou fazer tudo o mais ridículo possível. Deu tão certo que o sujeito veio parar no carnaval brasileiro, virou destaque em trio elétrico (!) e embolsou a módica quantia de R$ 1,5 milhão. Uma brasileira que morava no Canadá também experimentou seus momentos de fama graças a um simples comercial no qual ela é apenas mencionada e virou sucesso na internet. Os exemplos são vários.  

Alguém pode dizer que não é tão diferente das revistas de fofocas e das “colunas sociais” nos jornais, povoadas de celebridades das quais nunca ouvimos falar. E é verdade, embora o alcance das novas mídias seja maior e o “sucesso” de certa forma seja bem mais efêmero. Obviamente a democratização da informação e compartilhamento de conteúdos são maravilhas de nosso tempo e ao lado de tantas figuras inexpressivas que são alçadas à fama através de “likes” e “Rts” nas redes sociais, temos também muita gente boa e talentosa fazendo coisas incríveis e divulgando pela internet. 

Oscar Wilde observou que “para ser popular, é indispensável ser medíocre”-  certamente um exagero do dândi, afinal popular não significa necessariamente mediocridade; porém, se para Sócrates, Buda e tantos outros sábios a ignorância é causa de todos os males, em certos casos relacionados aos assuntos sobre “famosos” a ignorância pode ser uma benção. 

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