terça-feira, novembro 27, 2012

Heróis da infância



Todo menino teve seus heróis além daqueles da TV e das Histórias em Quadrinhos. Aqueles heróis, diferentemente do Super Homem ou Spectreman, não possuíam super poderes e nem lutavam contra gigantes que queriam destruir o planeta. Eram pessoas simples, que encontrávamos nas ruas quase todos os dias: o policial, o bombeiro, o eletricista que escalava os postes e até o carteiro que enfrentava os terríveis cães de guarda no cumprimento do seu dever. Porém, eu e os meninos da rua tínhamos um herói em comum: um motorista de ônibus cujo apelido era “Ratinho”. 


O apelido era óbvio: macerrímo ao estilo “pele e osso”, ostentava uma cabeleira loira e lisa em uma grande cabeça que víamos a quilômetros de distância – exagero, claro; dentuço e com olhos pequenos - mas vivazes! -, o frágil e pequeno Ratinho se tornava um Hércules ao comandar um veículo imenso com tantas toneladas. E por se achar uma espécie de semideus do Olimpo e assim praticamente indestrutível, o nosso Ratinho pisava fundo no acelerador – para a alegria da garotada e reclamações dos adultos: 

- Ô, motorista, vai tirar a mãe da forca, é? Vai devagar! 
- Motorista, seu maluco, você não tá carregando gado, não! Alivia! 

A garotada adorava pegar o ônibus com o Ratinho porque ele fazia ultrapassagens arriscadas em alta velocidade, buzinava freneticamente para os carros pequenos saírem da frente e transformava as ruas e ladeiras em trilhos de montanha russa; desta forma não faltavam incentivos ao “Nelson Piquet do busão”: 


- Pisa fundo, Ratinho! Ainda tá devagar!
- Tá lerdo hoje, hein, Ratinho? Acelera! 


As reclamações dos adultos ao fiscal da empresa de ônibus eram constantes, mas nada acontecia ao Ratinho, pelo contrário: o fiscal reiterava que o motorista era um funcionário exemplar, cumpridor dos horários e nunca se envolveu em um acidente de trânsito. Quando soubemos que ele nunca bateu o ônibus, Ratinho passou a ser o ídolo incontestável entre a garotada. Andávamos de bicicleta querendo imitar o nosso herói – e com resultados doloridos principalmente nos joelhos e nos braços, é claro. Mas nenhuma queda de bicicleta nos desanimava do nosso grande objetivo no futuro: ser motorista de ônibus – não um motorista qualquer, mas igual ao Ratinho! 

Um dia, porém, aconteceu o que os adultos previam há muito tempo. No horário de sempre no retorno da escola, pegamos o ônibus com o nosso motorista idolatrado e nos preparávamos para mais uma curta viagem repleta de emoção em alta velocidade – e naquele tempo ainda havia algumas ruas sem pavimentação, para alegria da garotada: com o ídolo das pistas, a viagem parecia uma prova de Rally em alguns trechos. E foi exatamente em um destes trechos, com lama e sem cascalho, que Ratinho perdeu o controle do veículo e bateu com tudo na parede de uma casa – felizmente vazia naquele momento, pois o ônibus invadiu uma parte do quarto da residência. 

A garotada, que sempre ficava na parte de trás do ônibus – pois era mais emocionante -, foi arremessada para a frente e, com exceção de alguns arranhões e luxações, não houve maiores problemas; o mesmo não se podia dizer do pessoal que estava na frente do veículo e principalmente do Ratinho, que ainda teve muita sorte de sair apenas com cortes superficiais no rosto e alguns ossos quebrados. Foi só quando vimos o nosso ídolo com o rosto banhado em sangue e contorcendo de dor no chão é que percebemos o quanto tudo aquilo era perigoso e que nossos pais e demais adultos tinham razão: aquela correria desenfreada e principalmente a irresponsabilidade do Ratinho ainda causaria um acidente mais sério. 

Depois disso, nunca mais soubemos do Ratinho. Provavelmente foi transferido para outra linha ou até, quem sabe, foi tentar a sorte em um rally ou corridas automobilísticas. Quanto aos meninos, bem, ao menos o bairro ficou livre de um bando moleques pilotando suas bicicletas como malucos e no futuro provavelmente teria motoristas mais conscientes e logo todos já procuravam  novos heróis como referência. No meu caso, um goleiro uruguaio que chegou à Vila Belmiro chamado Rodolfo Rodríguez y Rodríguez, mas esta já é outra história.  

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