domingo, outubro 14, 2012

O ajudante da professora Clarice



A professora entrou na sala, deu bons-dias, ajeitou seu material sobre a mesa e, após alguns minutos até a turma finalmente fazer silêncio, começa a aula de História. 

- Hoje nós vamos estudar sobre um povo muito antigo, conhecido como Incas. Alguém já ouviu falar nos Incas?


No meio da sala um menino tímido, de óculos de grau, levanta a mão, empolgado – o que surpreendeu a professora, pois aquele aluno é tão calado – e diz: 

- Eu conheço, professora! Os Incas viviam na Montanha dos Andes (sic), no Peru. Eles eram muito avançados para a época! 

Os colegas olharam para o menino e a professora, orgulhosa, diz:


- Muito bem, Jaime! Já tenho um ajudante para as minhas aulas! 

A memória é uma coisa engraçada. Existem fatos dos quais fazemos um grande esforço para a lembrança, enquanto outros simplesmente desaparecem ou retornam de maneira tímida, apagada. Algumas coisas, porém, se mantém vivas na memória e sempre temos lembranças dos tempos de escola e de professores que passaram por nossas vidas.


Tenho boas lembranças de meus professores. A professora Clarice, de História, que me fez gostar mais ainda de História na 5ª série promovendo viagens através do Egito Antigo, Mesopotâmia, pela América pré-colombiana; a professora Dalva, de Português, que pouco sorria e nas aulas ninguém “dava um pio”, mas me apresentou gente muito simpática como Orígenes Lessa, Marcos Rey, Ganymédes José e Carlos Drummond de Andrade, apenas para começar; como esquecer de toda a calma e paciência do mundo do professor Sérgio, de Geografia, com aqueles mapas-múndi dos quais eu me debruçava procurando nomes exóticos de cidades no Oriente, na África, no interior do Brasil?

Tenho más lembranças de alguns poucos professores também, mas não quero recordá-las hoje; sei das dificuldades do magistério – por experiência própria, inclusive - e da falta de valorização e respeito ao docente pelos governantes e até mesmo por uma parte da sociedade – afinal, temos atualmente o fenômeno da “escola transbordante”, nas palavras do professor António Nóvoa: “hoje há um excesso de missões dos professores, pede-se demais às escolas, pede-se demais aos professores (...) e [isso] tem criado para os professores uma situação insustentável do ponto de vista profissional”. Hoje eu quero cantar “She loves you”, dos Beatles, e lembrar do professor David dando aulas de inglês com esta música; quero reler uma poesia de Florbela Espanca e assim lembrar do sotaque português da professora Celeste ao declamá-la; quero lembrar da dedicada professora Maria Helena, da 1ª série, que incentivava a leitura de Histórias em Quadrinhos – e sabemos que as HQ´s, até pouco tempo atrás, não gozavam de “bom prestígio” entre vários educadores.

O dia 15 de outubro é um dia para reflexão sobre a atividade docente, mas também para relembrarmos professores inesquecíveis. Vi uma frase na internet, de fonte anônima*, que é bastante interessante: “Se não morre aquele que escreve um livro ou planta uma árvore, com mais razão, não morre o educador, que semeia vida e escreve na alma”. Depois de tanto tempo, a professora Clarice tinha razão: eu me tornei um ajudante – não especificamente para as aulas de História, mas para juntar-me aos colegas educadores que semeiam vida e escrevem na alma dos educandos. E quando uma senhora de 58 anos de idade, após tantos anos sem estudar, me agradece e diz que está realizando um sonho em aprender, lembro de Paulo Freire falando do “sonho da reinvenção constante”, do “sonho da libertação”, “sonho de uma sociedade menos feia, menos malvada” e penso que minha querida professora de História ficaria orgulhosa de mim, por ser um bom ajudante.   

* Busquei referências da autoria desta frase na internet e encontrei autorias diversas: de Jean Piaget a Bertold Bretch – não, Clarice Lispector não é a autora.  

quinta-feira, outubro 04, 2012

Eleições e o voto "consciente".

(Charge de 2010, ainda bastante atual)


Reproduzo aqui um breve diálogo sobre as eleições municipais com alunos na sala de aula - os nomes de candidatos serão omitidos, naturalmente. 

- E aí, professor? Vai votar para FULANO prefeito, né?
- Não, este não é o meu candidato.
- Ah, devia ser, professor. Se FULANO não ganhar, vão tirar os computadores da escola.
- Como assim “vão tirar computadores da escola”, rapaz? Onde você ouviu isso?
- Ah, o pessoal falou.
- Mas que “pessoal” foi esse? Foi “pessoal do candidato”?
- Acho que foi, eu ouvi aí na rua, foi um pessoal dizendo.

Nisso, uma aluna intervém:


- Eu já escolhi o meu candidato, professor: vai ser SICRANO.
- Espero que sua escolha não tenha como base o “ouvir falar por aí”...
- Não, o pastor lá da igreja falou pra gente votar nele, então é melhor votar em quem a gente confia, né?

Estes dois exemplos, a partir de diálogos com alunos adultos da Educação de Jovens e Adultos (EJA),  são interessantes para tentarmos entender mais ou menos como funciona a dinâmica do voto na chamada “festa da democracia” - uma democracia na qual algumas responsabilidades eleitorais como voto e presença para ser mesário (caso o cidadão seja convocado) são obrigatórias.

No primeiro exemplo temos a boataria e a chantagem como “estratégia eleitoral” por parte de alguns simpatizantes do partido X ou do candidato Y: se o candidato FULANO perder, o bairro e os moradores ficarão abandonados e tão cedo não haverá melhora nos limitados serviços públicos para a comunidade. E há a tentativa de “demonizar” o candidato adversário atribuindo a ele ações que não podem ser feitas - como tirar computadores das escolas ou suspender o pagamento do programa Bolsa-Família.

Por que as pessoas acreditam nestes boatos e tentativas grosseiras de manipulação eleitoreira? Na verdade o que existe é mais falta de orientação do que informação, mas há um aspecto interessante que vale a pena prestar atenção: é a “emotivização da política”, para usar um termo de Giovanni Sartori, que fala especificamente da chamada “videopolítica”, uma política reduzida às emoções, “decapitando ou marginalizando cada vez mais as cabeças que falam, as talking heads, que investigam e discutem problemas”. Reparem a propaganda política na TV: por um lado mostra candidatos simpáticos, o perfil trabalhador, a origem humilde e destacando que sempre estiveram ao lado do povo; do outro lado as tentativas em desqualificar os adversários em campanhas de ataques em quadros que pintam “o pior” dos mundos caso sejam eleitos. “Faz parte do jogo político”, alguém pode dizer, mas neste caso vira um “Fla x Flu” onde as chamadas “propostas de governo” são colocadas em segundo plano e o “debate de ideias”, empobrecido. 




No segundo exemplo temos o que pode ser chamado de “voto evangélico”, mas não é possível reduzir tal voto ao pedido ou recomendação de um líder religioso - desta forma estaríamos superestimando pastores, padres, bispos e desprezando a autonomia e liberdade de pensamento dos fiéis de várias denominações. Ao reler o livro “Política para não ser idiota”, bastante oportuno neste período, reencontrei um trecho bastante interessante: (..)”em que medida o cidadão se reconhece num Estado que é construção dele! Queiramos ou não, este Estado é obra nossa. É obra de nossa incúria, da nossa ausência (...)  é obra também da nossa atuação, da nossa má escolha.”

E é desta forma que muitas vezes as pessoas permitem que “outros escolham” seus candidatos, e aí independe da denominação religiosa ou da condição social: seja por comodismo, desorientação ou “noção limitada de responsabilidade”, como diz Renato Janine Ribeiro, temos um quadro onde estas pessoas não estão conscientes do seu papel na construção do Estado e do que seja cidadania.

Tomando esses dois diálogos como exemplo, expliquei aos alunos o que é política - praticamos política quando fazemos um trabalho em grupo ou participamos de uma reunião no condomínio, por exemplo -, de como o voto é uma decisão pessoal e não deve ser “vendido” e nem submetido a benesses individuais ou ameaças, etc. Então o aluno do exemplo dos boatos tomou a palavra:

- Então indica um candidato que seja bom, professor, para a gente “não perder o voto”.

Obviamente não indiquei candidato ou fiz alusão a algum partido e lá se foi outra explicação sobre “perder e ganhar voto”, mas como se vê ainda temos um longo caminho na construção da democracia ( tão recente em nosso país) até chegarmos ao chamado pleno voto consciente.

Referências:
SARTORI, Giovanni. Homo videns: televisão e pós-pensamento. Bauru, SP: EDUSC, 2001.
CORTELLA, Mário Sérgio; RIBEIRO, Renato Janine. Política: Para não ser idiota. Campinas, SP: Papirus 7 Mares, 2010.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...