sexta-feira, setembro 21, 2012

O essencial é saber ver.



Após a leitura do excelente “Trilogia suja de Havana”, de Pedro Juan Gutiérrez, tomei um dos livros de Eduardo Galeano para reler. Em determinado momento da leitura, deparo com o seguinte trecho:

A democracia não é o que é, e sim o que parece ser. Estamos em plena cultura do enlatado. A cultura do enlatado despreza o conteúdo. Importa o que é dito, e não o que é feito”.

Mesmo sob o risco de parecer pretensioso, eu incluiria nestas palavras de Galeano o “ser visto”. Na sociedade imagética e
narcisista  - esta última estimulada em redes sociais como o Facebook - o bordão de uma antiga propaganda de refrigerante é certeiro: “Imagem é tudo”. Neste cenário podemos até substituir a famosa expressão de Descartes, “Penso, logo existo” para “sou visto, logo existo”.

Outro que apresenta um certo desencanto com essa “cultura do enlatado” é o cientista político italiano Giovanni Sartori: “Um sucessivo aspecto da nossa nova maneira de ser e de viver é uma artificialização cada vez maior invadindo totalmente a existência”. É bastante curioso reparar o quanto os termos “enlatado” e “artificial” são complementares e se ajustam perfeitamente dentro deste cenário da construção de imagens “para consumo público”( em referência a Bauman): espontaneidade e autonomia não parecem ser características apreciáveis.

Um exemplo muito interessante desta construção de imagens públicas cada vez mais artificiais é a campanha eleitoral dos candidatos aos cargos políticos. Estas pessoas estão sempre seguras, simpáticas e acessíveis. A imagem de um candidato comprometido com os anseios da população é cuidadosamente construída por competentes equipes de marketing político que investem no que Sartori chama de “
emotivização da política, isto é, uma política relacionada ou reduzida a pencas de emoções”. Com estes elementos temos a primazia da imagem construída - onde até mesmo a “espontaneidade” é rigorosamente planejada -  enquanto as “propostas dos candidatos” e as discussões que merecem maior seriedade são colocadas em segundo plano ou até minimizadas.    

Partido de uma obviedade, imagens estão aí para serem vistas. Contudo, o modo como as enxergamos é o diferencial diante de tantas exposições capturadas por nossos olhos. O escritor português José Saramago, em seu “Ensaio sobre a cegueira”, nos convida à reflexão: “penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”. Mas ainda prefiro o conhecido conto de
Andersen, “a roupa nova do imperador”, onde o vaidoso monarca desfila nu pelas ruas e todos estão convencidos de que se trata da roupa mais deslumbrante do mundo - até que um garoto, no meio da multidão, grita “o rei está nu!” e assim todos passam a enxergar.

Sejamos como o garoto da história de Andersen que soube enxergar e, com espontaneidade, convidou os demais a desnudar o rei, derrubando assim um pacto de "não-ver" - afinal, como escreveu Alberto Caeiro/Fernando Pessoa, “o essencial é saber ver”.

Referências:
GALEANO, Eduardo.
Ser como eles. Rio de Janeiro: Editora Revan, 1994. 2a edição.
SARTORI, Giovanni.
Homo videns: televisão e pós-pensamento. Bauru, SP: EDUSC, 2001.

domingo, setembro 02, 2012

Morreu a velhinha


"The lacemaker”, de Johannes Vermeer.Daqui.

Morreu 3 dias depois de chegar aos 100 anos.
Parece que estava só esperando o centenário.
Da vida não teve muitos segredos:
Nasceu, cresceu, casou, teve filhos,
Aprendeu a ler e escrever o básico.
Ela nunca ouviu falar de Alberto Caieiro,
Mas concordaria com o heterônimo:
Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.”

Ela não saía muito de casa:
Cresceu no mato, casou no mato,
Só depois virou urbana.
Na cidade, então pequena,
Era de casa para a venda;
Da venda para casa;
E aos domingos, missa.
Não viu muita coisa do mundo.
Não viu Getúlio Vargas,
Não viu a segunda guerra,
Já ouviu falar de Hitler,
Não conheceu Stálin, Mussolini,
Mas da bomba atômica ouviu falar
E acreditou em Deus Pai para a todos salvar. 
Não viu os hippies e nem o Vietnã;
Nunca soube quem eram os beats e os Beatles,
Rolling Stones e Jovem Guarda,
Mas gostava de algumas canções do Roberto Carlos;
Ouviu falar que o homem pisou na lua,
Mas nunca soube de Kennedy e Luther King.
Passou pela ditadura que nem se deu conta;
Viu que Tancredo Neves morreu,
E depois disso não sabe o que aconteceu;
Viu que um presidente jovem saiu,
E depois disso não sabe o que aconteceu,
Embora neste período tenha ficado mais pobre.
Ouviu falar que o mundo acabaria no ano 2000
E não viu o fim do mundo;
Viu uns edifícios arderem em chamas nos EUA,
Mas nunca soube direito o que aconteceu;
E nos últimos tempos assistia TV
Sem nada entender.

Mas ela viu muitas outras coisas.
Viu os filhos crescerem,
Os netos aparecerem,
A família prosperar.
Viu as plantas do jardim,
Ouviu o canto dos pássaros,
Agradeceu pela chuva,
Plantou na terra fértil,
Colheu o fruto de seu trabalho
E como viu que era bom, continuou.
Viu nascimentos e mortes,
Viu lamentos e felicidades,
Viu os animais de estimação,
Grandes alegrias.
Viu exames de saúde perfeita,
Poucas vezes no hospital esteve;
Viu milagres e falsidades,
Viu, sorriu, chorou, cozinhou, amou.
Sim, viu amores, sentiu amores.
E quase sem sair de casa,
Viu muita coisa a velhinha centenária.

E eu vi,
Ainda tão jovem
E sem precisar sair de casa:
A praça da Paz Celestial
A igreja da Candelária
De massacres e chacinas nada divinos;
O fim da União Soviética,
A queda do muro de Berlim,
A derrocada do comunismo,
A explosão do consumismo. 
A queda do mauricinho Fernando Collor;
A ascensão do intelectual Fernando Henrique;
A ascensão do operário Luís Inácio Lula;
Os holofotes na estagiária de Bill Clinton,
A liberdade de Nelson Mandela,
A morte de um Papa,
A escolha de um novo Papa,
A decodificação do genoma humano.
A seleção brasileira vencer Copas do Mundo;
O mapa-múndi diferente;
Golfo, Kosovo, Bósnia-Herzegovina, Chechênia, 
Saddam Hussein, Milosevic,George Bush, Bin Laden,
E o ataque às Torres Gêmeas.
A revolução da internet;
Tsunamis e terremotos devastadores;
Um negro no poder nos EUA;
A primeira mulher presidente do Brasil;
Um robô em Marte.

E
sei que ainda vou ver muita coisa.
Muita coisa boa.
Muita coisa ruim.
Mas vi muito pouco.
Tomara que eu veja tanto
Quanto a simpática velhinha centenária
Viu durante sua vida.
E que possa partir igualmente de forma serena,
Com a tranquilidade de saber ter visto
O que era mais importante.  
O essencial é saber ver”.*

*“O guardador de rebanhos”, de Alberto Caieiro

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails