sexta-feira, agosto 24, 2012

Em busca do equilíbrio


“La caída de Ícaro”, de Jacob Gowy. Museo Nacional del Prado.

A mitologia grega nos apresenta a trágica história de Dédalo e seu filho Ícaro, aprisionados em Creta pelo Rei Minos, que ordenou ao hábil artesão Dédalo a construção de um labirinto para encerrar o Minotauro. O labirinto era tão intricado que Teseu, executor do Minotauro, só conseguiu escapar do tortuoso edifício graças à princesa Ariadne que lhe deu um longo fio para marcar o caminho de volta. 


Voltemos a Dédalo, hábil inventor e construtor. Aprisionado sob severa vigilância de Minos, teve uma ideia: recolheu as penas dos pássaros, fixou-as na estrutura de madeira com cera de abelhas e construiu asas para ele e seu filho, Ícaro. Com a terra e o mar vigiados, a saída, claro, seria pelo alto. O engenho funcionou e Dédalo, prudente, aconselhou a seu filho que não voasse tão baixo próximo às ondas do mar e nem tão alto próximo ao sol. Entusiasmado por voar como os pássaros e inebriado com a sensação de liberdade, o jovem desprezou o conselho do pai e voou cada vez mais alto até que a cera de suas asas derreteu e, sem as penas das asas, a queda de Ícaro foi inevitável e o impetuoso rapaz desapareceu no mar – a região conhecida como Icária

Dédalo aconselhou a seu filho, Ícaro, mas o conselho deste mito do qual a história atravessou séculos e inspirou artistas como Bruegel e Chagall continua sendo válido para todos – mesmo hoje no chamado “pós-moderno” século XXI. Quando o construtor do Labirinto de Minos diz “nem tão baixo e nem tão alto” ele está fazendo referência a um termo que é bastante utilizado atualmente e também muito procurado: o equilíbrio. 

Em tempos de estímulo a um consumismo voraz e de ambições pouco modestas, não são poucas as pessoas que procuram voos cada vez mais elevados em busca da ascensão social, profissional e outros objetivos. De repente o céu não é mais o limite, e sim as estrelas; por outro lado encontramos pessoas que abandonaram ambições e quaisquer  tentativas de algum desenvolvimento, sobretudo quanto ao aspecto emocional, relacionado com o bem estar – há mesmo quem se torne praticamente um ascético quase ao estilo de Santo Antão


A busca pelo chamado equilíbrio não é tão fácil como parecem demonstrar os manuais de auto-ajuda e palestrantes motivacionais. Os gregos estoicos e os budistas já se referiam ao desapego às coisas e às situações como forma de aliviar o sofrimento – afinal tudo é efêmero e ninguém pode controlar o que a deusa Fortuna ( o destino) nos reserva. Esse desapego não significa que as pessoas tenham que renunciar a tudo, e sim que não se apeguem ao que é passageiro como se fosse eterno, definitivo; a resignação, porém, não é interessante, pois deste modo Dédalo não escaparia da prisão de Minos.  


Quando encontramos a ambição e o apego a uma situação – ao poder, por exemplo – estamos diante  de um modelo que certamente faria de tudo para a manutenção e ampliação do que já possui. Um conselho como o de Dédalo seria inútil para alguém que não enxerga para os lados e tampouco para baixo – há momentos em que recuar e redefinir metas ou estratégias é importante, mas existem olhos que miram apenas o alto, desprezando o bom senso e ignorando as limitações. Não se trata, obviamente, de condenar aqueles que  tenham seus objetivos, ambições pessoais e profissionais, afinal ter metas (ou perspectivas) é saudável; porém, a ambição obsessiva destrói relações, reduz possibilidades, não tolera fracassos – a vida não é constituída apenas por vitórias e sucesso - e despreza a ética.  

O voo de Ícaro também representa a ambição por querer sempre mais quando já se tem muita coisa – e a liberdade não é pouca coisa: livre do cárcere e livre para voar, como relatado pela mitologia. “Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar” - talvez este velho ditado remetendo ao equilíbrio tenha origem nas palavras de Dédalo ao seu filho. Ao procurar voos mais elevados é bom estar seguro de que realmente possa voar tão alto, sob pena de despencar das alturas das ambições desenfreadas e desaparecer no mar onde jazem aqueles que não conseguiram recuperar suas asas.   

domingo, agosto 05, 2012

Descaso educacional: até quando?


(Clique na imagem para melhor visualização.) 

No dia 13 de Junho de 2012 postei o seguinte desabafo em meu mural no Facebook: 


“Sabem o que eu acho? Que a presidente Dilma deveria revogar essa Lei do Piso Nacional do Magistério ( Lei Federal 11.978) e extingui-la de uma vez - quem é que se importa? Afinal vários governadores e prefeitos não cumprem a Lei alegando "restrições orçamentárias", então deixa lá, certamente há outras prioridades para esse povo. O importante é que esse país é a "6.a economia do planeta" e vai sediar uma p*** de Copa do Mundo com estádios novinhos e reformados.


Ah, e a Educação? Deixa pra lá, não faz falta mesmo. Que tal demolir as escolas e construir no lugar concessionárias de veículos? Ou espaços de shows? Isso gera "emprego e renda", certo? O Brasil não precisa de professores, Educação, escolas, faculdades, perda de tempo.”


Este desabafo, de minha autoria, foi motivado também por mais uma recusa do governador da Bahia, Jaques Wagner, em negociar com os professores em greve pelo cumprimento da Lei do Piso Nacional do Magistério em seu reajuste de 22,22%. A greve dos professores na Bahia, aliás, durou 115 dias com os docentes suportando todas as tiranias de um governador com passado sindicalista e de um partido (PT) que ganhou projeção através de greves e denunciando truculência de governos passados. Os professores enfrentaram o corte de salários, demissões, as ações na “justiça” decretando a ilegalidade da greve, a uma parte da imprensa baiana mais preocupada em não perder as generosas verbas da propaganda oficial do estado; a omissão de instâncias como Ministério Público Estadual e OAB, dos artistas da Bahia (que apareceram durante a greve da PM pedindo negociação entre governo e grevistas), de políticos e de boa parte da sociedade. Lutando sozinhos por um direito garantido em lei, os professores resistiram até o limite e saíram da greve sem ganhos reais – diferentemente do noticiado pelo Jornal Nacional em 03/08, os professores da Bahia recusaram a proposta salarial do governador Jaques Wagner, proposta esta que na verdade era um golpe contra o plano de carreira e a própria Lei do Piso. 


A falta de compromisso do governador da Bahia foi apenas um dos vários fatores que motivaram aquelas palavras duras e amargas sobre Educação. Acompanhar notícias sobre o tema e tomar conhecimento dos relatos de professores é em grande parte desalentador; é verdade que há boas notícias e boas práticas acontecendo em muitas escolas, mas estes se tornam exceções diante de tantos problemas. 



O Brasil investe atualmente 5,1% do PIB ( Produto Interno Bruto) na Educação. A comissão da Câmara do Plano Nacional de Educação (PNE) propôs o investimento de 10% do PIB no setor. Quase simultaneamente, o Ministro da Educação considerou tal meta “difícil de ser executada” e o Ministro da Fazenda considerou que tal investimento “quebraria o país”. Quando ministros de estado consideram que investimento em Educação é prejuízo, a coisa vai mal. 

A sabedoria popular diz que “dinheiro não traz felicidade, mas ajuda um bocado”. Evidente que precisamos mais do que recursos financeiros para a Educação: é preciso acontecer uma revolução no setor, com o resgate da função da escola, a valorização e formação (relevante) do professor, políticas públicas atreladas à Educação e cidadania e tantas outras realizações; mas sem dinheiro nada disso acontece. E os governantes insistem em repetir a ladainha da “restrição orçamentária” quando se trata de investimento em Educação, mas nunca falta dinheiro para reajuste salarial de deputados e nem para a construção e reforma de estádios para a Copa do Mundo de 2014, apenas para citar dois exemplos. 

O resultado da “restrição orçamentária” não poderia ser diferente: 38% dos estudantes do ensino superior não dominam habilidades básicas de leitura e escrita; apenas 2% dos jovens brasileiros querem estudar Pedagogia ou alguma outra licenciatura nas universidades – o “apagão” de professores, sobretudo no ensino médio, já é uma realidade; no ranking da UNESCO, o Brasil ocupa o 88º lugar dentre 127 países. E não é preciso citar outras consequências previsíveis como crescimento da violência (inclusive nas escolas) e baixa qualificação profissional.

Em anos eleitoreiros, a Educação sempre é destaque nos discursos e propostas demagógicas dos candidatos aos cargos públicos – e a proposta revolucionária da vez é a “Educação em Tempo Integral” e sempre que ouço essa historinha tenho vontade de questionar estes candidatos sobre o modelo de escola onde isso seria adotado. A Educação precisa sair do palanque eleitoreiro e ser tratada como fundamental e prioridade por governos e pela sociedade. Ou será que a “6ª economia do planeta” continuará alegando falta de dinheiro e outras desculpas não convincentes para tamanho descaso com o setor? 

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