quinta-feira, julho 12, 2012

A honestidade



“Ora, não se sabe como, ocorre que no país apareceu um homem honesto. À noite, em vez de sair com o saco e a lanterna, ficava em casa fumando e lendo romances”. (1)

Eis um trecho do conto “Ovelha Negra”, em que Italo Calvino conta a história de um país onde todos os seus habitantes eram ladrões -  “ à noite, cada habitante saía,com a gazua e a lanterna, e ia arrombar a casa de um vizinho” - até aparecer um homem honesto e promover algumas mudanças no comportamento dos habitantes.

Quando ligamos a TV, sintonizamos uma emissora de rádio, lemos os jornais e acessamos a internet em busca das notícias do dia, a impressão é que estamos vivendo em um país de ladrões: encontramos fartas informações sobre corrupção em todos os níveis, políticos envolvidos em falcatruas e desvios de verbas públicas, governos que não cumprem Leis como a Lei do Piso do Magistério, empresas de telefonia e de planos de saúde oferecendo as melhores vantagens em propagandas muito bem elaboradas  e na prática descumprindo o que está determinado em contrato, enfim, diversas situações que levam ao desânimo e ao perigoso conformismo de achar tudo isso “normal”. 

Talvez por isso seja surpreendente a notícia de um casal “morador de rua” – como alguém pode morar na rua? -  em São Paulo que encontrou um saco com R$ 20 mil reais e procurou a polícia para devolver o dinheiro. Este casal sobrevive catando material reciclável nas ruas e ganhando R$ 15 por dia. Tal notícia não passa indiferente nas rodas de conversa: há os admiradores deste ato de honestidade e há quem lamente “o azar” de não encontrar um saco de dinheiro com tamanha quantia; e há quem recrimine o ato da devolução utilizando o famoso ditado “achado não é roubado”.

Também há comentários que expressam, com desalento, o fato de uma prática que deveria ser regra ser tratada de forma extraordinária, como se a pessoa honesta fosse um extraterrestre cuja nave pousou neste planeta por engano. A descrença no valor da honestidade, contudo, não é de hoje: a Grécia antiga nos apresenta o pitoresco caso de Diógenes, o cínico, que saía às ruas de Atenas com uma lamparina procurando “o homem verdadeiro”  - e dentre as virtudes deste homem ideal estava a honestidade. Séculos mais tarde foi a vez de Balzac: “Mas então, vão dizer, é necessário desconfiar de todos? Já não há pessoas honestas? (...) Sim! Desconfiem de todos, mas nunca deixem transparecer sua desconfiança”. (2) 


Em meio à avalanche de informações disponíveis em diversas mídias, encontrar notícias que tragam algum alento e esperança sobre valores além dos financeiros e consumistas pode ser realmente uma tarefa difícil, mas elas existem. E deveriam ser mais divulgadas para que se evite cair em duas linhas de pensamento perigosas: a do conformismo e a desconfiança de que vivemos, como no conto de Calvino, em um “país de ladrões”.


Epílogo: diferentemente do que aconteceu à “ovelha negra” no conto de Italo Calvino, o casal de São Paulo foi reconhecido pela honestidade e o dono do estabelecimento premiou essas pessoas com a oferta de um emprego. Este é outro detalhe a ser ressaltado, pois honestidade e gratidão devem caminhar juntas.  

1. Calvino, Italo. Um General na Biblioteca. Tradução de Rosa Freire D´Aguiar -  São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


2. Balzac, Honoré. Código dos homems honestos, ou, A arte de não se deixar enganar pelos larápios. Tradução de Léa Novaes – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. 

quinta-feira, julho 05, 2012

A roça mudou


A conversa, mais uma vez, girava em torno das tradições juninas e sertanejas perdidas. Em lugar do Luís Gonzaga com uma sanfona e dois instrumentistas – na zabumba e no triângulo – agora é vez de bandas como Aviões do Forró, Calcinha Preta e tantas outras com um sem-número de instrumentistas e dançarinos que mal cabem no palco; no lugar de duplas como Tião Carreiro&Pardinho, Tonico & Tinoco, agora é a vez de  pop stars como Luan Santana, Paula Fernandes, Victor e Léo.

Saudosismo de um tempo em que tudo era mais simples e autêntico, claro. A discussão aqui não  seguirá o rumo sobre a qualidade dos artistas atuais ou se no passado a vida era melhor do que é hoje. São apenas breves considerações sobre um fato: a roça mudou.

No dia seguinte à fogueira de São Pedro – algumas tradições ainda se mantém – observei melhor a roça. Aparentemente nada mudou: as vacas continuam nos pastos; na maior parte do tempo o que se escuta é a cantoria dos pássaros e o barulho das folhas balançando com o vento, além de uma tranquilidade que à noite torna o sono de fato reconfortante – para quem não se incomoda com os grilos e com chuva caindo no telhado.

Não demorou muito e vi um motoqueiro na estradinha de terra carregando dois latões de leite. Durante o dia todo, aliás, o trânsito de motos na estradinha foi grande - são trabalhadores rurais que deixam a pequena cidade e “tomam o caminho da roça”. O sertanejo está motorizado e o velho jegue praticamente aposentado. Passo por um destes motoqueiros e ele está falando ao celular enquanto se equilibra na motocicleta. Agora todos têm um telefone celular - até os mais idosos que desconhecem a maioria das funções do aparelho ou o que seja bluetooth, MP3 e outras modernidades. Antigamente, para se dar um recado para alguém em outra fazenda, era preciso gritar ( a depender da distância) ou mandar um “moleque de recados” com um bilhete o que ele decorasse o recado – a chamada “tecnologia molecular”: corre, moleque!

Fui chegando a uma casa na roça, bem simples, mas com todos os eletrodomésticos que acostumamos a ver em uma residência na cidade grande: geladeira, fogão e as estrelas da companhia: um aparelho de som e uma televisão - tudo isso é possível graças à eletrificação rural. De longe eu já escutava o som do rádio tocando uma dessas músicas que estão na parada de sucessos da grandes cidades. A mulher na cozinha ouvia rádio e testava uma receita que viu em um programa culinário e o homem na sala relaxava assistindo na TV a final do campeonato europeu de seleções, a Eurocopa.

Mais tarde, já à noite, dei um pulo na pequena cidade típica do sertão. Nos bares o mesmo cenário que encontramos nas capitais: carros com o porta-malas aberto e som em altos decibéis enquanto algumas pessoas tomavam cerveja e tentavam conversar entre gritos e gargalhadas. Dei uma olhada no comércio da praça: além da velha igreja e dos tradicionais mercadinhos e dos bares, as lan-houses recebiam seus internautas – embora a internet já tenha chegado até para os celulares da região. Um garoto de seus 14 ou 15 anos, com um corte de cabelo à la Neymar, falava comigo sobre vídeos do youtube e jogos on-line com a mesma desenvoltura e segurança de qualquer garoto da mesma idade da cidade grande.

É uma roça diferente, com aparelhos eletrodomésticos que facilitam a vida e acesso a novos valores, padrões de consumo e informações através de mídias eletrônicas que aos poucos vão apagando a velha imagem do Jeca Tatu e do caipira ingênuo. Porém, mesmo com todas essas mudanças, minha avó ainda usa o velho fogão de lenha para cozinhar o feijão e passar um cafezinho. Perdeu, forno microondas e cafeteira elétrica!   

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