segunda-feira, junho 11, 2012

Memórias de Lessa ( pai e filho)


Tenho lá minhas  dúvidas se Dona Morte está fazendo um “bom” trabalho neste ano: ela já levou embora Millôr Fernandes e, em uma semana, resolveu levar Ray Bradbury e agora Ivan Lessa. Velhinhos, é verdade, mas há tantos outros velhinhos por aí que já deveriam ter recebido a visita de Dona Morte há tempos, não é mesmo? 

Calma, não vou tornar este blog uma espécie de obituário.Não quero saber de gente fuçando este blog procurando parente rico que morreu para sonhar com uma herança. Falemos de Ivan Lessa, auto-exilado em Londres desde a década de 70 e que fez parte de O Pasquim -  e escrevia suas crônicas para a BBC londrina. Satírico, melancólico, um tanto ranheta e politicamente incorreto: “eu sou do tempo em que sol e bronzeado eram bons à saúde. Parece que agora um e outro dão câncer. Também, o que não dá câncer hoje em dia?”; “Acho que a humanidade não tem nada que assobiar. Se quer tocar um instrumento, sai pela rua com um trombone de vara.” ; "Ouvi alguém algum dia dizer que o homem só é o homem forte. Se é verdade, eu estou rachando tijolo ao meio com peteleco"; “Cinema é onde, no escuro, as pessoas ficam vendo outras pessoas fingindo que são de verdade”. Só um pouco de Ivan Lessa para vocês, do livro “Ivan vê o mundo”. 

Mas eu queria falar mesmo era do pai do Ivan, o Orígenes. Orígenes Lessa,também escritor. E dos bons. Aliás, Ivan carregava no DNA a literatura, afinal a mamãe Elsie Lessa também era escritora e jornalista. Voltemos às origens, ou melhor, ao seu Orígenes – o trocadilho é inevitável, desculpem.

Um dos primeiros livros que eu li na infância – e não faz muito tempo assim, afinal sou extremamente jovem – foi “Memórias de um Fusca”. Orígenes Lessa é autor de várias obras no segmento infanto-juvenil – não apenas deste segmento, ao qual o escritor é mais lembrado, mas também produziu diversas crônicas, contos e romances; quem gostou de “A casa dos Budas ditosos”, de João Ubaldo Ribeiro, vai gostar de “O Beco da fome”, embora com menos picardia, é claro. 

Provavelmente alguém aí já tenha se deliciado com títulos como “Confissões de um vira-lata”, “Memórias de um cabo de vassoura” e o próprio “Memórias de um Fusca”, com a surreal paixão de um Fusca por uma Belina e o alucinado motorista Genésio Pimenta. Não me lembro com quantos anos ou como este livro chegou às minhas mãos – não, não é problema de idade-, mas lembro de passar um bom tempo tentando desenhar fuscas inspirado no livro. E até hoje não consigo desenhar um fusquinha, vale o registro. As tentativas, como podem ver na ilustração, são infrutíferas. O jeito é voltar a desenhar casinhas com árvores, montanhas e um sol amarelo com carinha feliz. 

Frustrações artísticas à parte, o fato é que o seu Orígenes contribuiu para o meu gosto pela leitura desde a infância. Está ali, na galeria dos meus “heróis” neste quesito, junto a mamãe (com as primeiras letras), Tio Patinhas e Pato Donald, Monteiro Lobato, Ganymédes José ( não faça essa cara: você já leu alguma obra dele pela saudosa coleção Vagalume ou em alguma adaptação de clássicos literários para a literatura infantil), Homem-Aranha, Mark Twain e alguns outros. Daí foi só história e histórias - de Ivanhoé, Ivan Illitch a Ivan Lessa. 

Era o que eu tinha a dizer por hoje. Espero não ter aborrecido ninguém ou causado inconveniência. Grato pela atenção dispensada. Vocês foram extremamente gentis. Estimo que passem bem. Saúde, felicidades, tudo de bom. Muito obrigado e até logo.” 
Ivan Lessa 

quarta-feira, junho 06, 2012

Morre Ray Bradbury, mas Montag e Spender continuam vivos em nossa memória


Faleceu neste dia 06 de Junho de 2012 o escritor norte-americano Ray Bradbury, aos 91 anos de idade. É considerado um dos mais importantes escritores de ficção científica dos EUA – e de todos os tempos, eu acrescento, modestamente.

Seu livro mais famoso, sem dúvida, é o excelente “Fahrenheit 451 - editado em 1953 -, onde a figura do inesquecível bombeiro Guy Montag passa por uma crise de identidade: em um futuro onde a sociedade é mantida sob controle através dos meios de comunicação eletrônicos – neste caso, a TV – os livros são considerados “perigosos” e alvos de censura. O trabalho de bombeiros como Montag é localizar estes livros (através de investigações ou denúncias) e queimá-los. 


- Uma última coisa – disse Beatty. - Pelo menos uma vez na carreira, todo bombeiro sente uma coceira. O que será que os livros dizem, ele se pergunta. Aquela vontade de coçar aquele ponto, não é mesmo? Bem, Montag, pode acreditar, no meu tempo eu tive de ler alguns, para saber do que se tratava, e lhe digo: os livros não dizem nada! Nada que se possa ensinar ou em que se possa acreditar. (...)

- Bem, nesse caso... e se um bombeiro, acidentalmente, realmente sem nenhuma intenção, levar consigo um livro para casa?

Montag se contraiu. A porta aberta olhava para ele com seu grande olho vazio. 

- Um erro natural. Apenas curiosidade – disse Beatty. – Não ficamos superansiosos ou furiosos. Deixamos que o bombeiro fique com o livro por vinte e quatro horas. Se ele não o queimar até lá, simplesmente chegamos para queimá-lo para ele.


Quanto aos leitores, bem, alguns destes são encaminhados para hospícios ou “desaparecem”. As consequências? “A escolaridade é abreviada (...), gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas e, por fim, quase totalmente ignoradas. (...) Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?

No entanto o meu livro preferido de Bradbury continua sendo “As crônicas marcianas”, editado em 1950. Neste livro encontramos 26 contos articulados sobre a conquista do planeta Marte pelos seres humanos. Uma das personagens mais intrigantes da obra é Jeff Spender, arqueólogo e um dos tripulantes da 4ª expedição ao planeta Marte, em 2001 – sim, Bradbury não foi um bom profeta.

Spender “surta” ao desembarcar e passa a acreditar que os seres humanos, em Marte, não será um bom negócio para o planeta –  e muito menos para os marcianos. ( mas será que eles ainda existem?)

- Acredito nas coisas que foram feitas, e há evidências de muitas coisas feitas em Marte. Há ruas e casas, há livros, imagino, grandes canais, relógios e estábulos, se não forem para cavalos, bom, então são para algum outro tipo de animal, quem sabe com doze patas? Para qualquer lugar que eu olho, vejo que as coisas foram usadas, tocadas e manuseadas durante séculos. (...) Por mais que nos aproximemos de Marte, nunca o tocaremos. E ficaremos bravos por isso, e o senhor sabe o que vamos fazer? Vamos despedaçá-lo, arrancar sua pele e transformá-lo à nossa imagem e semelhança.
- Não vamos destruir Marte – disse o capitão. – É grande e bom demais.
- O senhor acha que não? Os homens da Terra têm talento para acabar com coisas grandes e belas. A única razão por que não montamos barraquinhas de cachorro-quente no meio do templo de Karnak, no Egito, é porque estava fora de mão e não era uma grande oportunidade comercial.  

A solução de Spender para o “problema humano” é acabar com seus companheiros de expedição e impedir que outros foguetes terrestres aterrissem em Marte. Não foi bem sucedido, claro, mas o arqueólogo estava certo: em pouco tempo os terrestres adotam as mesmas práticas de dominação e controle social na Terra no planeta colonizado. 

Se Bradbury foi ou não um bom profeta em seus livros clássicos sobre Marte e as tecnologias, não importa. Suas obras despertam inquietudes sobre os rumos das sociedades e a relação das pessoas com as tecnologias. A chegada a Marte parece ainda muito distante, mas ainda temos muitos “bombeiros” e “sabujos” promovendo a censura e a destruição – em nome do consumismo e da futilidade. E isso não é ficção.

BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. Tradução Cid Knipel. São Paulo: Editora Globo, 2009.
BRADBURY, Ray. As Crônicas Marcianas. Tradução Ana Ban. São Paulo: Editora Globo, 2006. 

sexta-feira, junho 01, 2012

A greve dos professores da rede estadual da Bahia

(clique na imagem para melhor visualização) 

A greve dos professores da rede estadual de ensino básico da Bahia já passa dos 50 dias. Além de 1 milhão de alunos sem aulas, o governador da Bahia, Jaques Wagner ( PT), resolveu cortar os salários dos grevistas e o movimento foi considerado ilegal pela justiça. Até a presente data ( 01 de Junho) não houve um acordo para o fim de greve e as manifestações de professores, pais e alunos na ruas de Salvador e cidades do interior são cada vez maiores. O governador, no entanto, permanece inflexível e afirma que só abre negociações e efetua a devolução dos salários se os professores retornarem ao trabalho. 


Para entender a greve


Em Novembro de 2011 o governo da Bahia assinou um acordo com a categoria se comprometendo a pagar o reajuste do Piso Nacional do Magistério – um reajuste de 22,22%, com o piso passando de R$ 1.187 para R$ 1.451. Tais valores são definidos ( e corrigidos) de acordo o FUNDEB – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica

O governo da Bahia alega que já paga o Piso Nacional aos professores desde 2009 e que “não há como oferecer o reajuste de 22%”. No entanto tal "reajuste" foi concedido apenas aos professores de nível médio ou licenciatura curta – já para os demais professores o reajuste foi de 6,5%, o mesmo para todo o funcionalismo. Na verdade o "reajuste" a estes professores é uma espécie de trapaça: o que o governo fez foi transformar gratificações - e outras vantagens adquiridas pelos professores ao longo do tempo - em subsídios. 

Além disso, o governo da Bahia também afirma pagar “salários acima de Rio de Janeiro, Paraná e São Paulo”. De acordo com as informações do site da Secretaria de Educação da Bahia, um professor com pós-graduação em regime de 40 horas recebe R$ 3.817,00 de remuneração – um professor iniciante, segundo o governo, recebe R$ 2.084,00. 

Estes valores, infelizmente, não são verificados nos contracheques dos professores da rede estadual. Assim temos o quadro que levou a greve a passar dos 50 dias: o descumprimento do acordo por parte do governo da Bahia - e Wagner, ingenuamente, afirmou "não saber" de tal documento assinado - o não pagamento do reajuste do piso salarial para todos os professores, o corte de salários, a greve considerada ilegal e principalmente a intransigência do governador Jaques Wagner.


Tudo igual na Bahia: "cabeça branca" continua.  

O grupo político de Antônio Carlos Magalhães dominou a Bahia por décadas até ser derrotado em 2006 nas eleições para governo do Estado por Jaques Wagner, do PT. A esperança de que finalmente os baianos teriam mudanças significativas no governo e nas políticas públicas aos poucos se tornou frustração, principalmente em áreas como Educação e Segurança Pública. Quem é professor na Bahia, tanto da rede básica quanto das universidades estaduais, sabe o que é o governo Wagner – em 2011 os professores universitários permaneceram em greve por 2 meses e em 2007 também houve longa greve dos professores da rede básica. 

O que causa estranheza, seja em 2007, 2011 ou 2012, é a postura intransigente e arrogante do governador Jaques Wagner, um ex-sindicalista que alçou projeção política através de participações e apoios a greves – e não apenas ele, mas também muitos políticos do PT que marcavam presença em assembleias sindicais e manifestações grevistas e hoje, no “poder”, viraram as costas, seguem o burocrático discurso oficial e há até deputado da "base governista" que  desrespeite professores - e desta vez sobrou até para alguns pais de alunosEm todas estas greves ocorridas durante o mandato de Wagner houve ameaças de corte de salários ( que aconteceram, no caso dos professores) e uso de propaganda incessante em diversas mídias ( TV e rádio, principalmente) para tentar convencer a população de que este é um governo aberto ao diálogo e age com transparência – e alguns jornalistas “formadores de opinião” e parte da imprensa baiana fazem coro ao governador tentando atribuir a culpa da greve única e exclusivamente aos professores, utilizando termos como “radicalização” (por parte dos professores), “greve ilegal”, “alunos prejudicados” e “o governo não pode pagar”. Talvez seja receio em perder as verbas de propaganda do governo. 

E o governador Jaques Wagner mantém uma característica interessante: não importa o que esteja acontecendo na Bahia - greve da PM, greve dos professores, a pior seca no sertão nos últimos 30 anos - a saída de Wagner é o aeroporto. Trata-se do governador que mais viajou ao exterior no atual mandato - imaginem se ele fosse Ministro do Turismo. 


Mas não tem dinheiro mesmo? 


A justificativa do governador da Bahia – e de quase todos os políticos quando se fala em verbas para a Educação – é a falta de dinheiro ou, se preferirem um termo no “economês”, a famosa “restrição orçamentária”. 

A verba do FUNDEB para a Bahia para 2012 é de R$ 2,2 bilhões; 60% deste valor deve ser utilizado para remuneração dos professores. Perguntas: o que é feito deste dinheiro? Por que o governo Jaques Wagner não é transparente quanto ao destino desta verba? Por que tanta dificuldade em cumprir uma Lei Federal?   

Enquanto isso o governo da Bahia comemora, sempre com muita propaganda, a escolha de Salvador e do estádio da Fonte Nova como uma das sedes para a Copa das Confederações em 2013 e, claro, Copa do Mundo em 2014. Ninguém se entende quanto aos custos do estádio: para o Tribunal de Contas da União, o valor ultrapassa R$ 1 bilhão; para o governo federal, o valor ficará em R$ 597 milhões; e para o governo estadual, a Fonte Nova custará R$ 592 milhões. E o mais interessante de tudo: durante 15 anos o governo da Bahia deverá pagar R$ 107 milhões (por ano!) conforme previsão do contrato de parceria público-privada. E os números para a Copa não param de impressionar: R$ 6,712 bilhões sairão dos cofres públicos para a construção e reformas de estádios. Ah, o “legado”? Qual foi o legado que os Jogos Pan-Americanos de 2007 deixou ao Rio de Janeiro? Na época só se falava do “legado” e das “melhorias” que os jogos trariam para a cidade - e pelo visto não foi muita coisa

Nada contra o futebol, pelo contrário, mas a pergunta permanece: não tem dinheiro mesmo?

De novo, Gustavo Ioschpe...

...aparece dizendo que “aumentar o salário do professor não é um caminho para melhorar a qualidade da educação”. Talvez o economista e “especialista em educação” (!) não saiba que, dentre as profissões de nível superior, o magistério paga os salários mais baixos – e este é um dos motivos para um “apagão” no ensino público, onde faltam professores principalmente de disciplinas como Matemática e Química.

É claro que Educação de qualidade vai além da questão salarial, mas tal questão não deve ser excluída. Como é possível que um país com a 6ª ou 7ª  economia do mundo pague salários tão irrisórios no magistério, desestimulando quem queira seguir a carreira de professor? Como falar em qualidade de ensino se os professores precisam pular de escola em escola pela cidade para completar carga horária estafante e assim melhorar um pouco os salários?  

Entre o referido "especialista" e Paulo Freire, a escolha é óbvia: “Se há algo que os educandos brasileiros precisam saber, desde a mais tenra idade, é que a luta em favor do respeito aos educadores e à educação inclui que a briga por salários menos imorais é um dever irrecusável e não só um direito deles.” ( in Pedagogia da Autonomia)

Infelizmente, pelo visto, Jaques Wagner e o PT da Bahia ( além dos partidos da base governista) demonstram que preferem as palavras do tecnocrata Gustavo Ioschpe munido de "dados e estatísticas". E pensar que o PT, um dia, teve Paulo Freire como Secretário da Educação na cidade de São Paulo...

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