quarta-feira, maio 23, 2012

Dalton Trevisan: "Um bom conto é pico certeiro na veia"


Deve ter sido surpresa até para ele, mas o fato é que o escritor curitibano Dalton Trevisan foi o grande vencedor do Prêmio Camões 2012, que premia escritores de língua portuguesa. Trevisan faz parte de uma lista de vencedores que conta com nomes do quilate de José Saramago, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado e tantos outros premiados desde 1988.

Dalton Trevisan é um escritor recluso, avesso às entrevistas e exposição midiática, tal como os norte-americanos Thomas Pynchon e J.D.Salinger. E até por isso recebeu o apelido de “Vampiro de Curitiba”, título de uma de suas obras mais conhecidas. Ao menos não se tornou personagem de teorias conspiratórias malucas como a de que Thomas Pynchon seria, na verdade, Jim Morrison.

O nosso Vampiro de Curitiba é mais um dos grandes escritores pouco reconhecidos no Brasil, como Campos de Carvalho, Fausto Wolff, José Cândido de Carvalho, Antônio Torres e é melhor parar por aqui ou a lista será imensa. Espero que o Prêmio Camões e uma exposição maior na mídia por conta disso torne a obra de Dalton Trevisan mais conhecida – contos de estilo direto e objetivo, com doses de sarcasmo e humor negro que podem afugentar os mais puritanos. Ao menos ele vai ter que sair de casa para receber os 100 mil euros da premiação. 

Para quem não o conhece, apresento alguns contos e minicontos deste escritor – e para quem já o conhece, divirta-se. 

No velório

No velório, a viúva:
- O que separou a gente foi a morte.
- Coragem, Maria.
Um longo suspiro.
- A vida dele acabou...
- ...
- ...e a minha hoje começa!

O gemido

- Não acredito. Nunca te fiz gozar?
- Isso mesmo.
- Houve uma vez, sim. Bem que você gemeu.
- Eu? Nunquinha.
- Até gemeu alto.
- Agora me lembro. É mesmo. Eu gemi.
- Viu, amor?
- Essa  tua fivela de cinta. Me machucando.

42

- Ai, querido, você não deve me censurar. Eu não volto sempre para você? E sempre mais experiente, mais segura de mim. Não fossem os outros, me diga, saberia eu comparar? Cada um deles só me faz reconhecer que você é o grande, o único, o eterno amor de minha vida.

51

- Do amor desprezado fiquei mudo, surdo e cego. Mudo porque você não me fala. Surdo porque você não me ouve. Cego porque você não me vê.

82

Para ele o rico pastelzinho. Para ela o cheiro de fritura no cabelo.

138

Ao chegar em casa, do programa no motel, o marido é saudado com um grito pela mulher:
- Eu soube de uma coisa terrível!
Pronto, ele pensa, estou perdido. Ela descobriu tudo.
- Pô...o quê...mas o quê... O que aconteceu?
- Mataram o filho do seu João!
- Urr...Orra. É mesmo? Pobre do seu João.
Te devo essa, Deus.

Contos “o gemido” e “o velório” do livro “Duzentos Ladrões”, editora L±
Contos 42, 51, 82 e 138 do livro “Pico na Veia”, editora Record.

terça-feira, maio 15, 2012

Caiu na net!

- merdamerdamerdamerdamerda!!!

- Calma, Manuzinha, ficar nervosa não vai adiantar.

- Como calma, Adalberto? Algum imbecil colocou na internet umas fotos que eu tirei pelada, tá todo mundo comentando e você pede que eu tenha calma?

- Foram 25 fotos em que você aparece nuazinha...

- Eu sei fazer conta, Adalberto, não precisa me lembrar disso! Em vez de ficar contando quantas fotos caíram na net, faça alguma coisa!

- Já soltei para a imprensa que as fotos não passam de montagem e...

- ...e você acha que alguém acreditou, seu palerma? Aquela revista chinfrim de fofocas teve as manhas de destacar minhas tatuagens comparando com outras fotos só para provar que sou eu mesma!

- Tatuagens com o nome de seu filhinho e do ex-namorado.

- Quer parar? E não cite aquele desgraçado, pois ainda estou vendo o que é melhor: cobrir com outra tatuagem ou fazer tratamento de laser para apagar o nome daquele pilantra - não pode ter sido ele que jogou minhas fotos peladas na internet, mas é o tipo de vingança que tem a cara daquele tarado por modelo esquelética, ah, ele que faça bom proveito daquele monte de ossos ambulante!

- Eu avisei, Manuzinha, mas você insistiu em tatuar “Amor eterno, luz da minha vida, para todo o sempre vou te amar enquanto o sol brilhar, te amo, Cauê Raimundo!”. Sabe, não entendo o porquê tatuar frases e até versículos bíblicos no corpo... será que o pessoal nunca ouviu falar em papel? Um cartão com uma flor já resolve tudo e além disso...

- ...além disso ou você cala essa boca e começa a agir ou será mais um advogado defendendo trombadinha em porta de cadeia!

- Certo, Manuzinha, o que você sugere?

- Como assim ‘ o que eu sugiro’, porra? Você é meu advogado, assessor de imprensa e agente, você fica com 10% dos meus contratos pra quê?

- Precisamos renegociar estes termos, Manuzinha. Eu deveria ficar com 30%: 10 para o advogado, 10 para o assessor e 10 para o agente.

- Droga, Adalberto, mas que saco, não é hora pra piada, eu quero agir, quero processar, quero justiça, quero indenização!

- Olha, o melhor é ir à imprensa e assumir. Isso, assumir de uma vez que as fotos são suas, que você tirou fotos peladas como muita gente faz para agradar o namorado, amante e até o marido. Às vezes o melhor marketing é a sinceridade.

- Você endoidou de vez, Adalberto?

- Claro que não, Manuzinha, se liga no detalhe: você assume que é isso aí, tirou as fotos e é você mesma, sem photoshop, sem retoque, sem produção, toda gostosona ao natural, espôntanea. Demonstra personalidade, entende?

- Saco, Adalberto, eu tenho um filho!

- Mas ele é tão novinho, tem o que? Uns 3 ou 4 anos, nem sabe o que acontece no mundo e você sabe melhor do que eu como é o mundo das celebridades, das fotos e polêmicas - dura uns 15 minutos e depois a indústria da fofoca corre em busca de outras novidades. Olha a Xuxa: quase ninguém lembra daquele filme em que ela seduz um garotinho de 10 anos toda pelada, macia...macia...

- É isso! Não dá para proibir essas fotos de circularem por aí como a Xuxa fez com o filme dela?

- Manuzinha, entenda uma coisa: caiu na net, já era. E a Xuxa, espertamente, mal toca no assunto, pois assim ninguém lembra - ou ela pensa que ninguém lembra. Repara se alguém lembra da Claudia Raia posando pra Playboy? Ela nem fala sobre isso. Eu recomendo que você faça o mesmo: vai causar um frisson no começo, mas logo o povo esquece.

- É...é, pensando bem...acho que sim, Adalberto. É, acho que você tem razão. Droga, que mancada! Como isso foi acontecer?

- Vacilou mesmo, Manuzinha. Eu avisei que a senha “cauelove” era muito óbvia. Mas sabe o que é pior?

- Ainda tem como piorar?

- Lembra daquelas propostas pra lá de vantajosas da PLAYMAN e da SEXIES? Pois é, Manuzinha: agora todo mundo tá vendo, inteiramente grátis, você nuazinha em pelo! Aliás, é muito pelo, Manu. Não sabia que você era adepta do estilo Claudia Ohana e Vera Fischer. É tão...anos 80! Manuzinha, corta essa!


segunda-feira, maio 07, 2012

Jaime e a italiana*


Não é fácil aprender um idioma estrangeiro e ensiná-lo também é um desafio. Uma pessoa que fale inglês encontrará dificuldades para aprender Português, sobretudo na pronúncia das vogais abertas, fechadas e dos ditongos nasais decrescentes  - experimente ouvir um americano tentando falar “e aê, mermão, que jogão, hein?”. E a nossa querida língua portuguesa, reconheço, é muito chata na parte morfológica. Flexões verbais, preposições ( ah, mas os “Phrasal verbs”, em inglês, não ficam muito atrás!), gênero, número...e vai explicar para alguém o que é uma Oração Subordinada Substantiva Completiva Nominal!

Portanto, para um estrangeiro aprender português ele precisa de um componente fundamental: tempo. E tempo era justamente o que me faltava e foi o que tentei explicar para Sophia, a italiana moradora de um condomínio muito simpático em uma cidade onde estive presente para um congresso sobre Educação. A italiana me procurou para ter aulas de língua portuguesa.

Sophia era surpreendente em vários aspectos: uma italiana que parecia mais uma modelo saída das passarelas de Milão, loira e com olhos azuis encantadores. Além disso, fazia torta de morango e cafezinho imbatíveis! Não sei se foram os olhos azuis, o sorriso, a torta de morango ou ouvir sua voz calma expressando em um português perfeito ( mais uma surpresa!) que me deixaram quase hipnotizado ao ouvir o quanto ela desejava  ter aulas de português.

  - Pois bem, isso não me surpreende. Por isso estou disposta a ter aulas intensivas enquanto permanecer na cidade. Não se preocupe, professor Jaime, eu aprendo rápido e com certa facilidade.

A italiana terminou de falar e deu um sorriso que conseguiria acabar com qualquer mau humor em uma segunda-feira matinal, mas ainda assim procurei manter a objetividade e passei-lhe o valor das horas/aulas. Senti o desconforto de Sophia, pois a moça esfregou com a ponta dos dedos da mão direita o anel de pérola e ouro branco colocado no indicador da outra mão e finalmente expressou que achava o valor um tanto elevado. Expliquei-lhe que o valor ainda estava abaixo do que se cobra normalmente em aulas de língua portuguesa para estrangeiros – levei em conta o fato de que ela já sabia falar bem o nosso idioma, o que seria de certa forma um alívio, pois o que sei falar em italiano? Pizza, Spaghetti, Roberto Baggio, Mama Mia, máfia...Paolo Rossi, maledeto! Após um breve silêncio, Sophia retomou o pedido:


- Jaime, deixarei bem clara a minha intenção: gostaria de tê-lo como meu professor particular. Suas referências são excelentes e também não conheço quem mais poderia me ajudar neste assunto – disse a italiana massageando suavemente seu próprio pescoço. E continuou: - O que falta é apenas efetivar essa negociação. Tenho certeza que entende o que estou dizendo.

Ajeitei os óculos – como não ajeitá-los? – e confesso que fiquei um tanto sem jeito com aquela situação, eu não sabia como agir. Foi então que reparei nos quadros nas paredes da sala. Belos quadros de várias tendências: renascentistas, impressionistas... comentei sobre os quadros e Sophia disse que era uma grande admiradora das artes, em especial pintura e poesia. Apontei para um quadro próximo a uma cristaleira e comentei sobre a escola impressionista ao qual a pintura pertencia. 


- Professor Jaime, estou encantada! Pois bem, aqui tenho alguns renascentistas, aquele em especial faz parte mesmo da escola impressionista! Sua esposa é uma mulher de sorte.

Expliquei-lhe que não sou casado e sequer tenho namorada – iria usar o termo “encalhado”, mas mudei de ideia. Trocamos alguns comentários sobre os quadros e o papo estava bom, mas eu tinha que perguntar uma coisa:

- Então, Sophia, fico curioso: a senhorita com todas estas obras de arte na parede...

 Rapidamente a italiana interrompeu minhas palavras e tocou em meu braço:

- Não se preocupe, quero tê-lo como professor. Serei mais clara em minha proposta, talvez lhe interesse: pago a quantia que você me pede, mas só posso recompensá-lo em euros e no final do mês, quando o meu pai volta da Itália. Pode ser?

Mais uma surpresa e antes que eu respondesse alguma coisa a bela moça levantou e seguiu em direção ao armário torneado em mogno. Abriu suas portas e, escondido entre as prateleiras, estava o aparelho de som. Teoricamente não haveria mais espaços para surpresas, porém a italiana colocou para tocar aquele riff inconfundível de Keith Richards & Mick Taylor para o vocal de Mick Jagger:


E quanto às demais surpresas ocorridas naquele dia, bem, acompanhem as cenas dos próximos capítulos  no blog  http://anaceciliaromeu.blogspot.com na série “Histórias do Condomínio”, no blog da minha querida amiga Ana Cecília Romeu.
 
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*Este texto é uma obra de ficção escrito em parceria com Ana Cecília Romeu, a quem sou grato pelo convite e paciência! :)  

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