domingo, abril 22, 2012

Paralisia do sono


Tentei gritar, e meus lábios e minha língua seca moveram-se convulsivamente, em comum tentativa, mas nenhuma voz saiu dos cavernosos pulmões, que, como oprimidos sob o peso de alguma esmagadora montanha, arfavam e palpitavam com o coração a cada trabalhosa e penosa respiração.
           Edgar Allan Poe – O enterramento prematuro

Era uma noite agradável e eu estava deitado na rede, em uma varanda no prédio onde moro. Estava pegando no sono quando ouvi vozes - pensei que eram os vizinhos, mas eram vozes sussurradas, como se alguém estivesse falando próximo aos meus ouvidos. Eu não conseguia distinguir o que estavam falando, mas eram vozes de crianças – primeiro umas duas e logo depois as vozes eram adultas, como se fossem proferidas por um grupo. Não distinguia uma palavra sequer, mas fui tomado por um terror inexplicável: tentei sair da rede, mas não conseguia mesmo erguer os braços. Estava inerte, sem conseguir me mexer e, sem que eu fizesse nenhum esforço, a rede começa a balançar – e balançar mais e mais, a ponto de meu corpo quase bater na parede ou, pior, ser jogado da varanda alguns metros abaixo; as vozes eram cada vez mais intensas e eu tentava gritar por socorro ou que ao menos parassem de gritar em meus ouvidos e repentinamente senti que estava “subindo”, ou seja, eu estava “levitando” quando a rede finalmente parou de balançar. Abri um dos olhos: nada havia mudado, eu ainda estava ao mesmo nível, a rede nunca balançara e a madrugada era silenciosa. Mas ainda não conseguia mexer ao menos as pernas e fechei o olho novamente; senti uma vertigem e então desperto daquele estado entre o sono e a consciência. Alívio: já era capaz de movimentar os braços, as pernas e as mãos... e falar! Olhei ao redor e estava tudo absolutamente normal, como no momento em que deitei na rede.

Não se trata de uma obra de ficção ou de um trecho de conto de Poe, Ambrose Bierce ou H.P.Lovecraft: este é um relato do que realmente aconteceu comigo. Tive o que muitos chamam de “paralisia do sono”, um estado confuso – e assustador - entre o sono e a consciência. É muito curioso como o nosso cérebro funciona e nos prega peças: segundo descrição da wikipedia,

A paralisia do sono ocorre quando o cérebro acorda de um estado REM, mas a paralisia corporal persiste. Isto deixa a pessoa perfeitamente consciente, mas incapaz de se mover. Além disso, o estado pode ser acompanhado por alucinações hipnagógicas.”

Isso também é confirmado no livrinho que tenho por aqui, “Fique por dentro dos sonhos”, de Maeve Ennis e Jennifer Parker:

Um aspecto normal do sono REM é que o corpo fica imobilizado, para que a pessoa não possa agir nos sonhos. Durante a paralisia do sono, o corpo está paralisado e o cérebro, produzindo imagens de sonhos. As pessoas veem, ouvem e sentem coisas, mas não conseguem se mover, e sentem-se despertas. Uma sensação de terror com freqüência acompanha esse estado”.

Não é uma novidade para mim a paralisia do sono. Eu já senti o mesmo durante outras ocasiões e, claro, não é uma sensação agradável. Lembro de uma ocasião, quando criança, em que eu estava dormindo na casa de minha avó e de repente estava indo de encontro ao telhado, levitando pelo quarto; em outra ocasião vi alguns vultos em meu quarto e um deles parou ao meu lado, como se estivesse a me olhar com muita atenção. Em todas essas vezes tentei gritar por socorro, mas a voz não saía.  

Para minha felicidade nunca contei isso para ninguém (até agora)  pois desta forma sugeririam teses malucas – desde que eu estaria sendo abduzido por extraterrestres (a levitação), sendo sequestrado por alienígenas e até mesmo visitado por demônios, isso sem falar na “viagem astral”, em que a alma sai do corpo para dar um passeio por aí. Havia até mesmo uma crença de que antes de dormir deveríamos tomar um copo d´água para evitar que nossa alma ( ou o anjo da guarda) deixasse o corpo procurando saciar a sede - isso nos deixaria invulneráveis aos maus espíritos. 

A tese dos demônios é mais antiga e desde tempos medievais há relatos de freiras “visitadas por demônios” - os chamados “incubus”, espécie de demônios masculinos que forçavam as mulheres a manterem relações sexuais com eles; já a história com os extraterrestres é mais recente e Carl Sagan, em seu livro “O mundo assombrado pelos demônios”, relaciona a paralisia do sono com os famosos relatos de visitas dos ET´s:

Embora não seja bastante conhecida, uma síndrome psicológica comum, um tanto parecida com o rapto por alienígenas, é a chamada paralisia do sono. Muitas pessoas a experimentaram. (...) Pode-se passar por alucinações auditivas ou visuais – de pessoas, demônios, fantasmas, animais ou pássaros. No ambiente adequado, a experiência pode ter ‘toda a força e todo o impacto da realidade’, segundo Robert Baker, psicólogo da Universidade de Kentucy. (...) Baker afirma que esses distúrbios comuns do sono estão por trás de um grande número, se não da maioria, dos relatos de raptos por alienígenas.”

O que se recomenda nestes momentos? Manter a calma, o que reconheço ser muito difícil, pois a sensação é terrível e nada agradável. O que parece ser uma experiência mística, demoníaca ou extraterrestre é, na verdade, mais um dos mistérios do nosso cérebro. Como Hipócrates afirmara, no século V aC: “Deveria ser sabido que ele é a fonte do nosso prazer, alegria, riso e diversão, assim como nosso pesar, dor, ansiedade e lágrimas, e nenhum outro que não o cérebro. (...) É o cérebro também que é a sede da loucura e do delírio, dos medos e sustos que nos tomam, muitas vezes à noite, mas ás vezes também de dia”. 

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