
Certas notícias chamam a atenção por aparentemente serem absurdas, mas estas apenas refletem uma realidade muito presente na sociedade brasileira e que muitos preferem não admitir: o preconceito social.
Nos últimos anos algumas medidas econômicas e sociais possibilitaram a milhares de brasileiros oportunidades de consumo e estudo. No entanto muitos representantes da “velha classe média” sentem-se incomodados com isso: 48% acham que os serviços e as filas pioraram por conta do acesso à “nova classe média” - no caso a chamada “classe C”. E mais: 16,5% acham que “pessoas mal vestidas” deveriam ser barradas em “certos lugares”.
Estes dados foram divulgados através de uma pesquisa que coletou opiniões de mais de 18 mil pessoas pela internet. Que sejam contestados tais números e a metodologia de pesquisa é natural, ainda mais quando feita pela internet, mas o preconceito social existe, não é pouco e pode ser constatado facilmente no dia a dia.
Ser professor da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em um bairro periférico em Salvador é sempre um desafio. São homens e mulheres trabalhadores que deixaram de estudar há tempos por vários motivos – geralmente para ajudarem a família no sustento do lar - e que tentam retomar os estudos. São pessoas que estão em busca do tempo perdido, de maior qualificação e ainda fazem grandes esforços para continuarem na escola. Não é fácil trabalhar o dia todo em condições precárias na construção civil, por exemplo, e arrumar disposição para estudar à noite. E ouço alguns relatos revoltantes como este a seguir.
Uma aluna de 51 anos de idade – irei chamá-la de “Maria” – falta bastante às minhas aulas, no turno da noite. Perdeu algumas avaliações e veio conversar comigo. “Professor, não vou pedir para fazer as provas e atividades que perdi, vim apenas justificar o porquê de tantas faltas”. O motivo, como acontece na maioria dos casos da evasão escolar no período noturno, é o horário de trabalho, além do deslocamento em uma cidade com o trânsito cada vez mais caótico. É uma “pedra no sapato” da EJA e que as escolas muitas vezes não conseguem resolver.
“Eu trabalho em casa de família, lá na Graça”. Este bairro, da Graça, em Salvador, é a chamada “área nobre” da cidade, reduto de classe média-alta e classe alta. “Sou cuidadora de idoso, olho uma velhinha de 90 anos, mãe da minha patroa. Só que a patroa não tem hora pra chegar, então tenho que ficar por lá até a hora em que ela resolve aparecer. Pode ser 5 horas, mas pode ser 8, 9 horas da noite”.
Questionei se a Maria trabalhava com carteira assinada e se ela fazia também o trabalho doméstico. Além de não ter carteira assinada, não ficou acordado nem mesmo verbalmente que ela faria outra função além de cuidar da idosa. “A patroa é rica, professor. Mora na Graça, né? Tem outra empregada lá pra fazer o serviço de casa”.
Enxerido, perguntei para a Maria se a patroa sabia que ela estudava à noite e se não era possível encontrar alguma solução para observar a questão do horário. A resposta foi de estremecer:
“Ela nem faz caso, professor. Sabe o que ela diz? ‘Maria, na sua idade, você quer estudar pra quê?’; teve uma vez que a velhinha estava dormindo e como eu já tinha arrumado toda a roupa peguei o caderno pra tentar fazer o dever de Português. A patroa viu e disse: ‘Larga isso, Maria, que bobagem, uma mulher na sua idade ainda quer perder tempo com essas coisas, tá vendo que você não aprende mais nada? Por que você não ajuda Fulana* a passar a roupa?’. É assim que ela faz, professor”.
O pior de tudo é que a Maria revelou que a tal patroa é psicóloga. Para tentar aliviar o desconforto, recorri a uma gracinha: “Puxa, depois você me diz onde é o consultório desta mulher, pois quero passar bem longe: aposto como ela deprime os pacientes”. Ela deu um sorriso acompanhando de um “pois é” e continuou: “Eu não tenho ideia de fazer faculdade e virar doutora não, professor, mas eu quero continuar estudando porque quero desenvolver, às vezes leio umas coisas lá nas revistas, vejo umas notícias e não entendo. Quero entender, desenvolver!”, concluiu.
Este é um dos medos desta elite: que a Maria, o João, o Severino, o Pedro e tantos outros “desenvolvam”, consigam entender as coisas com maior clareza – e os métodos para impedir são os mesmos de sempre: humilhação, o velho tratamento “com quem você pensa que tá falando?”, descaso com a educação, manutenção de privilégios; um apartheid social, como faz referência o economista e hoje senador Cristovam Buarque no livro O que é apartação: “É a força dos ricos para impedir a distribuição de seus privilégios, ao mesmo tempo em que tentam manter a farsa de que são solidários e defendem a igualdade entre os homens”. Não poderia haver melhor definição para o que ocorre nesta jovem, tortuosa e desigual democracia.


