O tempo (cruel) passou, não atormento mais meus pais com os “por quês” e já descobri que ácido ascórbico e veneno de cobra não tem nada a ver, mas a curiosidade permanece e sempre que faço minhas andanças por aí não deixo de reparar em placas, faixas e banners que enfeitam (?) nossas ruas. E foi em uma rua tipicamente residencial que reparei a seguinte placa no portão de uma casa:
Salvador leva a fama – merecida – de ser uma cidade musical. E complemento: uma cidade musical em alto volume. A capital baiana é tão barulhenta que já foi agraciada com o nada honroso título de “cidade mais barulhenta da América Latina” pela Organização Mundial da Saúde. Carros com sistema de sons que fariam inveja a muitas boates lideram o ranking dos mais barulhentos e a prefeitura tenta coibir os abusos fiscalizando, apreendendo e destruindo equipamentos de som.
Costumo dizer que vivemos em uma “sociedade de direitos”: todo mundo se acha no direito de fazer o que bem entende. Os deveres, bem, esses aí devem ficar por conta “dos outros”. E quem são esses “outros”? È bastante curioso o que acontece: muitas pessoas cobram ética de nossos políticos – reivindicação bastante justa, aliás – e no dia a dia acham absolutamente normal estacionar o carro em uma vaga destinada a deficientes físicos, por exemplo. Ou “ligar o som” em alto volume com músicas de gosto duvidoso sem se importar com a vizinhança. E quanto aos “outros”? Todo mundo conhece um espertão: “Os incomodados que se mudem, tô curtindo MEU SOM”.
“Meu som”, “minha curtição”; reparem que se trata de uma posição individualista. “Meu espaço”, mesmo que seja em um espaço público, comum a todos. No livro “Política para não ser idiota”, os professores Mário Sério Cortella e Renato Janine Ribeiro trazem reflexões pertinentes sobre política e cidadania e é desta obra que compartilho este trecho:
“Vivemos numa sociedade em que o consumismo chegou ao ponto de entender dos próprios sentidos jurídicos – como direito, dever e liberdade – enquanto objetos de consumo. Então, é muito fácil uma pessoa dizer: ‘Faço isso porque quero, porque tenho’.”
É preciso que as pessoas entendam o recadinho simples do professor Cortella, no mesmo livro: “Viver é conviver, seja na cidade, ainda que em casa ou prédio, seja no país, seja no planeta”. Ninguém está querendo impedir o sujeito de escutar “Delícia delícia delícia lícia ai ai ai ui ui”, trata-se apenas de bom senso e respeito às pessoas que não apreciam “o seu som” e têm outras preferências sonoras– mesmo que seja o silêncio.
Entretido nestas reflexões cheguei ao ponto de ônibus e ao entrar no coletivo me deparo com os “DJ´s do Buzu” e seus celulares irritantes em alto e bom (?) som. Chego em casa onde espero finalmente relaxar quando a vizinhança me recebe com a sonoridade contagiante do pagodão baiano que não deixa nada parado, tanto que as paredes começam a tremer. Como se não bastasse, o namorado da moradora do 6º andar prefere buzinar da rua ao invés de usar o celular ou o interfone para chamar a amada. Para completar é possível escutar “Meteoro da Paixão/Explosão de sentimentos” de alguma caixa de som e o único sentimento que consegue despertar está relacionado a meteoro e explosão...



