terça-feira, junho 21, 2011

Carta para Luiz Gonzaga

Prezado mestre Luiz “Lula” Gonzaga, filho de seu Januário,

Aceite minhas saudações cá deste mundo em que a terra continua ardendo até mais que a fogueira de São João. Primeiro deixe-me dizer que sou um grande fã de sua obra e suas canções, apesar de eu gostar mesmo é de rock – e não vou citar aqui os nomes das bandas preferidas porque são bem estranhos.

Retomando: gosto de ouvir suas canções, são geniais! E nesta época em que os festejos juninos se aproximam é inevitável não render-me ao ritmo e letra de “o Xote das meninas”, me divertir com a SENSACIONAL “Samarica Parteira” e nunca cansar de ouvir “Asa Branca”, uma beleza que já ouvimos na voz de diversos cantores, desde Caetano Veloso, passando por Chitãozinho e Xororó e até mesmo Raul Seixas com uma versão em inglês!

Bem, mestre Lula, seu negócio era xote, baião e xaxado pra fazer a alegria do povo com apenas uma sanfona e acompanhado de um triângulo e uma zabumba. Não precisava de muita coisa, não é verdade? Atualmente vejo umas bandas de forró eletrônico enchendo o palco com uma parafernália de instrumentos que faria inveja ao Pink Floyd! ( ah, é uma banda de rock que eu gosto)

Pois é, Gonzagão, sei que todos os ritmos e bandas têm seu espaço e gosto não se discute. Mas vem cá, me diga aí: rock combina com festa junina? Imagine aqueles cabeludos, os Beatles, numa festa de São João lá no sertão. A não ser que eles gravassem “Asa Branca”, naquela brincadeira que espalharam sobre o quarteto de Liverpool gravarem Gonzagão. Pois é: eu não tenho nada contra as bandas de axé music, cantores sertanejos ou mesmo pagodeiros. Só acho que "cada macaco no seu galho".

Andei olhando num jornal as atrações do São João pelas cidades do interior da Bahia: tem bandas como Chiclete com Banana, Harmonia do Samba, Psirico e Timbalada contratadas para os festejos. Inclusive uma dessas cidades, justamente a que vai gastar R$ 3 milhões só na festa, resolveu homenagear o evento com seu nome – e nesta cidade estarão cantores como Belo e Luan Santana. Esse menino, o Luan Santana, tem o cachê que - dizem - custa R$ 500 mil. Mas parece que ele é camarada e faz o show por R$ 250 mil. Imagine aí: o garoto com uns 10 shows no mês já poderia tirar férias pelo resto do ano, se quisesse!

Ainda tem um espacinho para o xote e para o forró nessas grandes festas que as prefeituras promovem – aliás, nem sei como arrumam dinheiro pra isso...na verdade até desconfio, sabe? Mas deixa pra lá: pelo menos seu discípulo Dominguinhos anda fazendo shows por aí e algumas bandas e sanfoneiros ainda insistem com os ritmos mais apropriados para a época. Os tempos mudaram, é verdade; mesmo assim creio que algumas tradições deveriam ser preservadas.

Eu sei que tô enchendo a paciência, mestre Lula, mas já está no final. Eu só fico preocupado com o seguinte: que a festa de São João se transforme em uma micareta qualquer, uma espécie de carnaval fora de época. Tem lugar por aí que o povo nem comemora mais as festas juninas, a galera prefere comemorar o Halloween, festa típica dos Estado Zunido. Até no sertão tá acontecendo uma coisa esquisita: o povo, que se reunia em volta da fogueira pra contar uns causos, comer as delícias feita do milho, tá preferindo se reunir em volta da TV e assistir novela e a pamonha é vendida congelada para depois ser aquecida no forno microondas!

Bom, seu Luiz Gonzaga, vai desculpando o tempo que tomei. Sei que o senhor não entendeu umas coisas que eu escrevi nesta carta, por aí deve ter alguém que explique direitinho. Não quis me alongar muito, mas já deu pra perceber que onde o senhor está, tá bom demais, as coisas por aqui estão esquisitas. Aceite minhas saudações e na noite de São João vou olhar pro céu e provavelmente não encontrarei balões pelo ar, talvez só um pouco de xote e baião no salão – quem sabe, no terreiro, uma morena cujo olhar vai incendiar meu coração?

Salve, mestre Lula! Um abraço, anime a festa aí do Seu João e pede pra Seu Pedro e Seu José mandarem umas chuvinhas lá pro sertão.

quinta-feira, junho 16, 2011

Vamos estar resolvendo o problema com quem?


“Seja bem vindo ao serviço de atendimento ao consumidor. No momento, todos os nossos terminais de atendimento estão ocupados. Não desligue: sua ligação é muito importante para nós. Tecle 1 para novo cadastro; Tecle 2 para cobranças; Tecle 3 para serviços; Tecle 4 para dúvidas e reclamações ou aguarde para falar com um de nossos atendentes.”

Infelizmente passou um tanto despercebida a notícia que vem lá de Fortaleza: a justiça proibiu uma operadora de telefonia celular (TIM) de comercializar e habilitar novas linhas no Ceará enquanto a empresa não melhorar seu serviços. Parece que o sinal da operadora de celular na terra do José de Alencar - não é o ex vice presidente, atenção! - não anda tão claro... ops!

Basta uma rápida busca pela internet para confirmar que os serviços prestados pelas operadoras estão no topo das reclamações de qualquer PROCON estadual. Mas não apenas os celulares: instituições financeiras, planos de saúde, cartões de crédito e lojas de eletrodomésticos estão entre as empresas que mais causam dores de cabeça aos consumidores no chamado pós-venda.

“Seja bem vindo ao serviço de atendimento ao consumidor. No momento, todos os nossos terminais de atendimento estão ocupados. Não desligue: sua ligação é muito importante para nós. Tecle 1 para novo cadastro; Tecle 2 para cobranças; Tecle 3 para serviços; Tecle 4 para dúvidas e reclamações ou aguarde para falar com um de nossos atendentes.”

A lógica que ainda impera em muitas empresas e empresários é “o que importa é vender”. E as propagandas fazem isso muito bem: um mundo de vantagens e felicidades ao alcance de todos em parcelas fixas com financiamento a perder de vista. Se depois de 2 dias de uso o aparelho apresentar algum problema o consumidor que se vire para resolver. A primeira providência é entrar em contato com o SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) da empresa e se deparar com isso:

“Seja bem vindo ao serviço de atendimento ao consumidor. No momento, todos os nossos terminais de atendimento estão ocupados. Não desligue: sua ligação é muito importante para nós. Tecle 1 para novo cadastro; Tecle 2 para cobranças; Tecle 3 para serviços; Tecle 4 para dúvidas e reclamações ou aguarde para falar com um de nossos atendentes.”

Caso clássico: uma boa lei que não “pegou” é essa que determina o atendimento em até 1 minuto da parte do call center para determinadas instituições - notadamente as mais problemáticas. Bastante comum a vítim...quer dizer, o consumidor ficar pendurado ao telefone ouvindo essas mensagens gravadas da empresa ou alguma música de fundo - espero que não descubram Stairway to Heaven do Led Zeppelin – enquanto vai ruminando algumas reflexões que...alô? alô?

- Serviço de Atendimento ao Consumidor, bom dia. Em que posso ajudá-lo?

- Ah, finalmente! Seguinte: adquiri pelo site de vocês um netbook, efetuei o pagamento, tudo certinho e recebi em minha casa uma torradeira! Quero receber aquilo que comprei, como faço?

- Vou estar transferindo o senhor para o setor de vendas, aguarde na linha.

- Não, não, peraí...

“Seja bem vindo ao serviço de atendimento ao consumidor. No momento, todos os nossos terminais de atendimento estão ocupados. Não desligue: sua ligação é muito importante para nós. Tecle 1 para novo cadastro; Tecle 2 para cobranças; Tecle 3 para serviços; Tecle 4 para dúvidas e reclamações ou aguarde para falar com um de nossos atendentes.”

Nestas situações em que a empresa não quer resolver o problema - ou demonstra aquela má vontade danada - o jeito é recorrer ao PROCON; em instituições públicas entra em cena o velho e bom DESPACHANTE! Mas essa é outra história... alô? ALÔ!!! TEM ALGUÉM AÍ???

segunda-feira, junho 06, 2011

Tá todo mundo louco ou só eu?

Eu já comentei há algum tempo sobre o meu desejo de ser uma espécie de alienado, do tipo que não se importa com o que acontece na política, na sociedade, no mundo. Ou apenas dar atenção às chamadas futilidades dos programas de fofoca, celebridades e programas de auditório na TV e demais mídias.

Como cantou Caetano Veloso, a impressão que tenho é que alguma coisa está fora da ordem. Ou talvez eu esteja deslocado e parado no tempo. Quando vejo que um professor universitário iniciante no Estado da Bahia recebe pouco mais de R$ 700 de salário ( sem as chamadas “gratificações”) e um bombeiro no Estado do Rio Janeiro recebe algo em torno de R$ 950 fico pensando no que é essencial para a sociedade, sobretudo quando comparo a relevância do trabalho de professores e bombeiros em relação a deputados, vereadores e senadores – e sem falar de governador que trata com desdém absurdo a educação ou chama bombeiros grevistas de “vândalos”.

Agora faça um pequeno exercício de imaginação: você é o técnico da seleção brasileira de futebol e tem à disposição para o ataque do time o Ronaldo Fenômeno no auge da forma física e técnica, 100% inteiro e motivado para vestir a camisa da seleção; mas aí você surpreende a todos e resolve convocar o esforçado e simpático perna de pau Obina. Loucura, não? Pois é mais ou menos isso que aconteceu na eleição do jornalista Merval Pereira para a Academia Brasileira de Letras: de um lado o escritor baiano Antônio Torres, autor de vasta e elogiada obra e ao menos um grande clássico, “Essa Terra”; de outro um jornalista que é mais notado por suas ferozes opiniões sobre o ex-presidente Lula – o que rendeu um livro, totalizando duas obras literárias em sua carreira até aqui. Não se trata de partidarismo ou oposição/situação: deveria ser literatura. E a ABL demonstra, com essa escolha, que a literatura é somente um mero detalhe a ser observado.

Continuando com o que há de mais bizarro no Brasil, dou razão ao velho clichê dos apresentadores sensacionalistas de TV: “bandido tá solto e gente de bem tá presa em casa”. Do jeito que as coisas vão é melhor deixar assim. O sujeito vai até o supermercado da esquina para sacar uns trocados do caixa eletrônico e descobre que na madrugada alguns bandidos resolveram explodir o equipamento para sacarem muito mais do que uns trocados; assustado, o sujeito resolve ir à padaria para tomar um cafezinho e senta-se ao lado de um distinto e simpático senhor. Mais tarde, no telejornal, o sujeito descobre que os bandidos responsáveis pela explosão de terminais eletrônicos de bancos são da polícia e o distinto senhor que tomava cafezinho na padaria é um assassino confesso da namorada e que nunca cumpriu a pena graças aos inúmeros habeas corpus e recursos legais.

Eu sei que as coisas estão mudando e que há novos padrões de comportamento na sociedade. Bob Dylan também mandou seu recado: the times, they are changing. Apesar disso já afirmei que não sou saudosista, apenas sigo lógicas que hoje parecem estranhas: Academia Brasileira de Letras = literatura. Polícia = segurança. Bandido = cadeia. Professor = respeito. Bombeiro = herói. Simples, não é? Por isso encerro estas ingênuas reflexões citando outro gênio da lógica simples, o grande filósofo Falcão:

Porque homem é homem

Menino é menino

Político é político

E baitola é baitola.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails