
Prezado mestre Luiz “Lula” Gonzaga, filho de seu Januário,
Aceite minhas saudações cá deste mundo em que a terra continua ardendo até mais que a fogueira de São João. Primeiro deixe-me dizer que sou um grande fã de sua obra e suas canções, apesar de eu gostar mesmo é de rock – e não vou citar aqui os nomes das bandas preferidas porque são bem estranhos.
Retomando: gosto de ouvir suas canções, são geniais! E nesta época em que os festejos juninos se aproximam é inevitável não render-me ao ritmo e letra de “o Xote das meninas”, me divertir com a SENSACIONAL “Samarica Parteira” e nunca cansar de ouvir “Asa Branca”, uma beleza que já ouvimos na voz de diversos cantores, desde Caetano Veloso, passando por Chitãozinho e Xororó e até mesmo Raul Seixas com uma versão em inglês!
Bem, mestre Lula, seu negócio era xote, baião e xaxado pra fazer a alegria do povo com apenas uma sanfona e acompanhado de um triângulo e uma zabumba. Não precisava de muita coisa, não é verdade? Atualmente vejo umas bandas de forró eletrônico enchendo o palco com uma parafernália de instrumentos que faria inveja ao Pink Floyd! ( ah, é uma banda de rock que eu gosto)
Pois é, Gonzagão, sei que todos os ritmos e bandas têm seu espaço e gosto não se discute. Mas vem cá, me diga aí: rock combina com festa junina? Imagine aqueles cabeludos, os Beatles, numa festa de São João lá no sertão. A não ser que eles gravassem “Asa Branca”, naquela brincadeira que espalharam sobre o quarteto de Liverpool gravarem Gonzagão. Pois é: eu não tenho nada contra as bandas de axé music, cantores sertanejos ou mesmo pagodeiros. Só acho que "cada macaco no seu galho".
Andei olhando num jornal as atrações do São João pelas cidades do interior da Bahia: tem bandas como Chiclete com Banana, Harmonia do Samba, Psirico e Timbalada contratadas para os festejos. Inclusive uma dessas cidades, justamente a que vai gastar R$ 3 milhões só na festa, resolveu homenagear o evento com seu nome – e nesta cidade estarão cantores como Belo e Luan Santana. Esse menino, o Luan Santana, tem o cachê que - dizem - custa R$ 500 mil. Mas parece que ele é camarada e faz o show por R$ 250 mil. Imagine aí: o garoto com uns 10 shows no mês já poderia tirar férias pelo resto do ano, se quisesse!
Ainda tem um espacinho para o xote e para o forró nessas grandes festas que as prefeituras promovem – aliás, nem sei como arrumam dinheiro pra isso...na verdade até desconfio, sabe? Mas deixa pra lá: pelo menos seu discípulo Dominguinhos anda fazendo shows por aí e algumas bandas e sanfoneiros ainda insistem com os ritmos mais apropriados para a época. Os tempos mudaram, é verdade; mesmo assim creio que algumas tradições deveriam ser preservadas.
Eu sei que tô enchendo a paciência, mestre Lula, mas já está no final. Eu só fico preocupado com o seguinte: que a festa de São João se transforme em uma micareta qualquer, uma espécie de carnaval fora de época. Tem lugar por aí que o povo nem comemora mais as festas juninas, a galera prefere comemorar o Halloween, festa típica dos Estado Zunido. Até no sertão tá acontecendo uma coisa esquisita: o povo, que se reunia em volta da fogueira pra contar uns causos, comer as delícias feita do milho, tá preferindo se reunir em volta da TV e assistir novela e a pamonha é vendida congelada para depois ser aquecida no forno microondas!
Bom, seu Luiz Gonzaga, vai desculpando o tempo que tomei. Sei que o senhor não entendeu umas coisas que eu escrevi nesta carta, por aí deve ter alguém que explique direitinho. Não quis me alongar muito, mas já deu pra perceber que onde o senhor está, tá bom demais, as coisas por aqui estão esquisitas. Aceite minhas saudações e na noite de São João vou olhar pro céu e provavelmente não encontrarei balões pelo ar, talvez só um pouco de xote e baião no salão – quem sabe, no terreiro, uma morena cujo olhar vai incendiar meu coração?
Salve, mestre Lula! Um abraço, anime a festa aí do Seu João e pede pra Seu Pedro e Seu José mandarem umas chuvinhas lá pro sertão.

