segunda-feira, janeiro 24, 2011

O céu estrelado

Ilustração: Van Gogh, "Starry Night". Até que enfim, uma ilustração de verdade neste blog. Fonte aqui.

O sertão é quente, quase inóspito, lugar de muita luta pela sobrevivência. O sertão é para os fortes, fazendo referência ao clássico da literatura brasileira sobre a Guerra de Canudos.

Mas à noite o sertão proporciona um dos mais belos espetáculos que podem ser apreciados e que a gente da (e na) cidade grande não consegue assistir: um céu estrelado.

Se você lembrou de Catulo da Paixão e o seu “não há luar como este do sertão”, não foi à toa. O poeta soube traduzir em versos de grande beleza e sensibilidade aquilo que o sertanejo enxerga ao parar e voltar seu olhar para o céu em uma noite de luar – um ato que hoje soa como heresia, afinal vivemos sob o comando “não perder tempo”.

Podem argumentar estes comandados - ou robotizados: o que se ganha ao ficar parado simplesmente olhando para o céu, a lua em uma noite estrelada?

Pobres que são aqueles que nunca fizeram isso.

Uma noite estrelada no sertão é algo tão belo que eu não me importo de passar um bom tempo olhando para o céu enquanto a mente tenta alcançar aquelas estrelas. Onde estarão? De que sistema fazem parte? Existe algum ser inteligente em alguma dessas estrelas que brilham no firmamento observando o que acontece por aqui? Ground control for Major Guimarães!

Dentre tantas estrelas no céu foco meu olhar e atenção em uma delas. Eu não sei o nome a qual foi batizada pelos astrônomos, se é que tem um nome; não sei a quantos anos-luz ela se encontra distante da Terra; eu nada sei sobre aquela estrela, apenas que seu brilho está ali. Talvez seja apenas o brilho, pois ela pode ter explodido, extinta. O que resta é o seu brilho viajando pelo espaço para que alguém o veja e se lembre do seu legado.

Talvez por isso nossos avós diziam, a título de consolo para nossa tristeza diante da morte, que fulano hoje é uma “estrela no céu para que nos lembremos”. Bonito, poético, até.

Mas nunca engoli minha avó dizendo que não podia apontar para as estrelas, pois isso daria verruga – ou berruga, como alguns diziam - no dedo. Bem, meu avô me apontou algumas estrelas: “Aquela é Vênus, ali fica o Cruzeiro do Sul”. E eu apontava para outra querendo saber o nome. Em nossos dedos nunca apareceu verruga.

Uma estrela cadente! Fiz um pedido. Sei que nunca vai se realizar, pois tive minha chance. Paciência. Seria pedir demais que o brilho das estrelas refletisse em minha vida. Mas é um espetáculo tão belo, me contento em admirar...não, não vou entrar agora, só mais tarde. Bem mais tarde...

Sertão, 28/12/2010

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Previsão do tempo

E o telejornal anuncia a previsão do tempo.

- Uma excelente notícia para este final de semana: sol na maior parte do Brasil! Teremos chuvas isoladas apenas nesta pequena área da Amazônia, mas os brasileiros terão um final de semana ensolarado.

A excelente notícia causa logo um alvoroço na turma da fuzarca: cervejada, sonzera na mala do carro, mulherada e muita curtição com o calor. O fim de semana com sol e calor é tudo o que a galera mais queria e os donos dos botecos já separam espaço no freezer para mais cerveja. Quem mora no litoral se prepara: vai dar praia!

Por outro lado, o sertanejo acha que uma excelente notícia seria a “moça do tempo” anunciar muita chuva para o sertão, pois as reservas de água já andam escassas e o pasto vai perdendo o verde. E o sertanejo, como se referiu Euclides da Cunha, é um bravo, mas até mesmo os bravos não aguentam tanta seca.

Mas quem confia na previsão do tempo?

A “chuva isolada na pequena área da Amazônia” resolve passear por outros ecossistemas e chega à caatinga, ao sertão. E chega com intensidade: começou à noite e durou a manhã todinha daquele final de semana que prometia sol e muito calor. Sem jeito, a “moça do tempo” diz que a culpa é de uma menina muito sapeca, a tal La Niña, mas tem outro menino que apronta das suas, o tal El Niño. E o mapa do tempo no Brasil, ontem cheio de “solzinhos” e altas temperaturas, agora está repleto de nuvenzinhas e gotinhas de chuva de Norte a Sul.

A turma da fuzarca desanima e se recolhe. Alguns xingam, outros bebem a cerveja assim mesmo, mas não é a mesma coisa. Não tem “clima” para abrir a mala do carro no meio da praça e ligar o som estridente para que toda a cidade ouça – e desafiar outros donos de som automotivo para ver ( e ouvir) quem tem mais potência.

Já na roça o barulho é outro. A Sabiá canta com força, como não havia cantado até então; os pássaros se revezam em sinfonia com os sapos e rãs alegres no coaxar, o que é uma péssima notícia para os besouros e mosquitos, afinal a alegria abre o apetite e aguça o paladar. Nos telhados das casas o som da goteira é um convite para um café quente na varanda apenas para assistir a chuva cair e molhar a terra - terra que plantando, tudo dá.

Enquanto a turma da fuzarca amaldiçoa El Niño, La Niña e a moça do tempo, o sertanejo agradece a Deus, a São José, São Pedro.

Na semana que vem tudo isso muda.

Igual ao clima.

Sertão ignorado, 31/12/2010

sábado, janeiro 15, 2011

As enchentes em SP, tragédia no Rio:Deus, natureza, descaso ou tudo junto?

(clique na imagem para ampliá-la)

O cenario é apocalíptico e eu custaria a crer se não acompanhasse as imagens que chegam através da TV e da internet. Palavras não conseguem descrever a tragédia que se abateu sobre a região serrana do Rio de Janeiro, principalmente nas cidades de Nova Friburgo e Teresópolis.

Em São Paulo, pra variar sempre nesta época do ano, enchentes e alagamentos fazem vítimas e causam transtornos à população na capital e cidades próximas, como Franco da Rocha e Caieiras. Como é de praxe, tanto no caso do RJ, SP e MG, procuramos apontar as causas e os culpados por tantas tragédias.

Apontamos quase uníssonos os políticos que pouco ou nada fazem diante da destruição anunciada todos os anos neste mesmo período de chuvas de verão, mas esquecemos daquele vizinho que joga uma latinha de cerveja ou garrafa PET na rua. E da latinha ao sofá boiando nos córregos encontramos, em parte, o porquê de tantas enchentes em níveis diluvianos – e isso não é um exagero.

No entanto os governantes têm a sua culpa no cartório. O discurso atribuindo à natureza e a Deus as causas da tragédia não é novo e nem exclusividade dos políticos brasileiros. No livro “Planeta Favela”, o autor Mike Davis traz um interessante relato que encontra semelhanças com o que vemos e ouvimos aqui no Brasil:

“Em Novembro de 2001, os bairros pobres de Bab el-Oued, Frais Vallon e Beaux Fraisier, em Argel, foram atingidos por cheias e enxurradas de lama devastadoras. Durante 36 horas uma chuva torrencial arrastou das encostas os barracos frágeis e inundou os bairros de cortiços das áreas baixas e pelo menos novecentas pessoas morreram. Diante da lenta reação oficial, as iniciativas de salvamento foram tomadas pela população local, principalmente os jovens. Três dias depois, quando o presidente Abdelaziz Bouteflika finalmente surgiu, os moradores, irritados, gritaram palavras de ordem contra o governo. Bouteflika disse às vítimas que ‘o desastre foi simplesmente a vontade de Deus. Nada poderia ter sido feito para evitá-lo’. “

Acho que concordamos ser muito difícil para o homem tentar domar as forças naturais e a vontade divina que regem este planeta, mas se temos criatividade – e arrogância – para mesmo assim persistir e tentar modificar os rumos da natureza ( e de Deus, quem sabe?), temos também criatividade para minimizar os estragos causados pelas enchentes. O problema é vontade. Enquanto nossos deputados compareciam em peso para a votação do polpudo aumento em seus salários, 30 projetos de prevenção às enchentes estão parados no Congresso aguardando votação.

Enchentes ocasionadas por grandes volumes de chuvas e deslizamentos de terras acontecem desde sempre, são fenômenos naturais - e aí é com a Geografia e Geologia. E tais fenômenos continuarão a acontecer e causarão inúmeros estragos, sejam em países pobres ou ricos (como a Austrália). E no ritmo que a humanidade vem crescendo em nível populacional e consequente falta de infra-estrutura nos grandes centros urbanos, estas cenas que vemos no RJ, SP, MG e Brisbane se repetirão muitas vezes. Mas algumas cidades procuram minimizar os estragos com grandes obras. Novamente recorro a Davis:

“As cidades ricas que estão em locais perigosos, como Los Angeles ou Tóquio, podem reduzir o risco geológico ou meteorológico por meio de grandes obras públicas e ‘ engenharia pesada’ : estabilização de encostas com redes geotêxteis, concreto injetado e parafusos para fixar as rochas; terraceamento e redução da declividade de encostas muito íngremes; abertura de poços profundos de drenagem e bombeamento da água de solos saturados; interceptação dos fluxos de detritos com pequenas represas e açudes; e canalização das águas pluviais para vastos sistemas de canais e esgotos de concreto”.

Neste exemplo Davis citou “cidades ricas” e como elas procuraram minimzar os problemas causados pela “a vontade de Deus e a força da natureza” - que atinge a ricos e pobres, mas sabemos que "a pobreza amplia os riscos geológicos e climáticos locais" (Davis) No entanto, em um país onde a carga tributária é absurda e em dois estados localizados na região mais rica em termos econômicos, será que não há espaço para o velho ditado “prevenir é melhor do que remediar”?

SAIBA COMO AJUDAR AS VÍTIMAS DAS ENCHENTES NO RIO DE JANEIRO

Acompanhamos pela TV as diversas manifestações de solidariedade de todos os brasileiros que não permanecem impassíveis diante da terrível tragédia nas cidades da região serrana do RJ.

Até o momento a maioria das ações está concentrada no próprio estado do Rio de Janeiro, inclusive a Cruz Vermelha. Provavelmente a Defesa Civil de seu estado ou cidade disponibilizará equipes para receber as doações de remédios, roupas, alimentos para os desabrigados no Rio.

Se você está no Rio de Janeiro e quer saber mais como ajudar, acesse o link do portal de notícias G1.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

A mitificação de Nova Iorque

Na primeira postagem de 2011 uma crônica escrita no final do ano passado, sobre Nova Iorque e como a cidade suscita paixões até exageradas. O layout do blog mudou, mas os textos continuam a mesma tosqueira de sempre. Bom 2011 para todos os que visitam o Grooeland.

Nova Iorque, estes New York,Big Apple,Broadway, Wall Street...você não precisa ir a NY para “conhecer” lugares, pois a TV fala sobre eles o tempo todo. Os repórteres, com ar maravilhado, quase reverenciam estes e demais pontos da mais famosa cidade dos Estados Unidos, sonho de consumo para milhares de turistas.

Andam exagerando um pouco nesta reverência à cidade. E a reverência é aquele sentimento um tanto perigoso, pois um ser ou objeto a quem se reverencie em demasia pode atravessar a tênue fronteira entre o respeito e a devoção e, assim, chegar ao que vou chamar de “babação de ovo”. Tenho acompanhado algumas matérias em programas jornalísticos da TV aberta que ultrapassam até os limites da bajulação.

Não faz muito tempo acompanhei uma série de reportagens que levava o nome de “Crônicas de Nova Iorque”. Na verdade vi apenas dois programas da série. E um deles, justamente o último que assisti, me apresentou uma novidade extraordinária: é possível encontrar batatas, pimentões, uvas em uma feira na cidade de Nova Iorque!

Sensacional: sempre desconfiei que os novaiorquinos se alimentavam apenas com dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles num pão com gergelim todos os dias. E graças à matéria jornalistica descubro que existem outros alimentos na Big Apple além de hot dog, nuggets e refrigerantes. E o melhor: uma feira! Excelente descoberta!

E no período de Natal vemos muitas reportagens sobre as compras na grande cidade. As imagens mostram milhares de pessoas se acotovelando na chamada 5ª avenida, o paraíso das compras do lugar, uma espécie de Avenida 25 de Março em SP ou Saara no RJ – sei que vou ofender muita gente com tal comparação. E, vejam só, camelôs! Sim, na cidade considerada modelo de tudo ( lembrem-se que a todo o momento na imprensa temos alguém lembrando da chamada “tolerância zero” adotada na cidade para reduzir a criminalidade) encontramos camelôs e a repórter fala, com um entusiasmo só, que é “igualzinho a São Paulo”. Ótimo, deixamos de ser colônia e agora imitamos os maiores do mundo, um viva aos camelôs!

Sim, Nova Iorque é superlativa e provavelmente por isso tenham feito matérias com o intuito de mostrar o pequeno cotidiano que acontece na cidade, com feiras, camelôs, batatas e morangos. Um efoque turístico, é verdade. Mas o exagero acontece quando as repórteres dizem que tudo isso é um “charme”. O fato de uma feira que vende batatas e um monte de camelôs em Nova Iorque é sinônimo de charme, enquanto no Brasil tais aspectos são vistos, muitas vezes, como sinônimo de falta de higiene e desordem pública, respectivamente.

Não sei se tenho disposição para tirar um passaporte, pagar uma fortuna em passagem de avião e ser confundido com um terrorista que pretende derrubar a estátua da liberdade para comprar um quilo de abóbora com charme. Até porque creio que não encontraria nas feiras de lá bordões do tipo “Olhaí, dona Maria, banana pra alegrar o seu dia”. E os camelôs vendedores de ervas, aquelas das quais “faz o véio se animar até com a véia de casa” e suas receitas milagrosas?

Achou tudo isso grosseiro, sem charme, sofisticação? Sure, baby: it´s not New York! Lá, se um feirante soltasse um “Hey, bitch / Take a banana/ Like my dick” em ritmo de rap seria wonderful, coisa que só uma cidade como Nova Iorque, em todo o seu charme, pode proporcionar.

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