Ilustração: Van Gogh, "Starry Night". Até que enfim, uma ilustração de verdade neste blog. Fonte aqui. O sertão é quente, quase inóspito, lugar de muita luta pela sobrevivência. O sertão é para os fortes, fazendo referência ao clássico da literatura brasileira sobre a Guerra de Canudos.
Mas à noite o sertão proporciona um dos mais belos espetáculos que podem ser apreciados e que a gente da (e na) cidade grande não consegue assistir: um céu estrelado.
Se você lembrou de Catulo da Paixão e o seu “não há luar como este do sertão”, não foi à toa. O poeta soube traduzir em versos de grande beleza e sensibilidade aquilo que o sertanejo enxerga ao parar e voltar seu olhar para o céu em uma noite de luar – um ato que hoje soa como heresia, afinal vivemos sob o comando “não perder tempo”.
Podem argumentar estes comandados - ou robotizados: o que se ganha ao ficar parado simplesmente olhando para o céu, a lua em uma noite estrelada?
Pobres que são aqueles que nunca fizeram isso.
Uma noite estrelada no sertão é algo tão belo que eu não me importo de passar um bom tempo olhando para o céu enquanto a mente tenta alcançar aquelas estrelas. Onde estarão? De que sistema fazem parte? Existe algum ser inteligente em alguma dessas estrelas que brilham no firmamento observando o que acontece por aqui? Ground control for Major Guimarães!
Dentre tantas estrelas no céu foco meu olhar e atenção em uma delas. Eu não sei o nome a qual foi batizada pelos astrônomos, se é que tem um nome; não sei a quantos anos-luz ela se encontra distante da Terra; eu nada sei sobre aquela estrela, apenas que seu brilho está ali. Talvez seja apenas o brilho, pois ela pode ter explodido, extinta. O que resta é o seu brilho viajando pelo espaço para que alguém o veja e se lembre do seu legado.
Talvez por isso nossos avós diziam, a título de consolo para nossa tristeza diante da morte, que fulano hoje é uma “estrela no céu para que nos lembremos”. Bonito, poético, até.
Mas nunca engoli minha avó dizendo que não podia apontar para as estrelas, pois isso daria verruga – ou berruga, como alguns diziam - no dedo. Bem, meu avô me apontou algumas estrelas: “Aquela é Vênus, ali fica o Cruzeiro do Sul”. E eu apontava para outra querendo saber o nome. Em nossos dedos nunca apareceu verruga.
Uma estrela cadente! Fiz um pedido. Sei que nunca vai se realizar, pois tive minha chance. Paciência. Seria pedir demais que o brilho das estrelas refletisse em minha vida. Mas é um espetáculo tão belo, me contento em admirar...não, não vou entrar agora, só mais tarde. Bem mais tarde...
Sertão, 28/12/2010


