quinta-feira, dezembro 30, 2010

Para ter um bom ano novo...

(Esta é uma mensagem programada.Neste momento estou em algum local isolado,em férias)

O ser humano adora ciclos programados e rituais. A natureza tem seus ciclos próprios, como se pode constatar durante as estações do ano, nascimentos e demais eventos.E o homem também possui seus ciclos, porém controlados por calendários e relógios.

Assim, de acordo com este ciclo controlado, chegamos ao final de mais um ano. E neste período assistimos a programas de TV com suas retrospectivas, confraternizações das quais (quase) todo mundo estará vestindo peças de roupas brancas, listinhas de promessas que vão desde “emagrecer 40 quilos”,passando por casamentos,mudança de vida e tantas outras promessas que junto ao ritual de pular as ondas do mar e comer lentilhas serão realizadas,é claro.

Nesta época sempre lembro do saudoso Carlos Drummond de Andrade que dentro de sua sabedoria e simplicidade nos presenteou com o magnífico “Receita de Ano Novo”:

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)

Para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Mesmo se tratando de um mero simbolismo – pois as mudanças dependem de cada um, independente de números ou rituais - desejo a todos vocês um ano de 2011 excelente!

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Feliz "Natal", ho ho ho!

(Clique na imagem para melhor visualização, ho ho ho!)

O sujeito está vestido com um roupão vermelho, usa um gorro (da mesma cor) enorme na cabeça e para completar a indumentária, a barba branca: “ É um dinheirinho a mais no final do ano, né?”, diz ele, talvez tentando convencer a si mesmo que vestir-se como Papai Noel no Nordeste brasileiro em pleno verão não é uma insanidade.

A linda jovem está subvertendo uma tradição antiga, a dos duendes ajudantes do Papai Noel. Hoje, ela faz parte das “ajudantes natalinas”, aquelas moças responsáveis por organizarem as filas e "domarem" as crianças que querem tirar foto com o bom velhinho. O problema é que ela, linda jovem com uma saia não muito longa que deixa à mostra um belo par de pernas, tem que resistir ao assédio dos papais e irmãos mais velhos que passam todo o tipo de cantada barata e até propõem encontros. “ É um dinheirinho a mais no final do ano”, diz ela, tentando convencer a si mesma que pode suportar tudo aquilo.

A madame empetecada passeia pelos corredores lotados do shopping com um par daqueles gigantescos óculos escuros que quase esconde todo o rosto - e, consequentemente, o olhar. Repleta de balangandãs pelo pescoço e braços, fixa o olhar em uma vitrine e não repara quem está ao lado, à frente, simplesmente avança com a gula consumista que é facilmente confirmada com as sacolas de lojas chiques nas mãos. Entra na loja em um rompante e dá ordens como se a vendedora, uma morena bonita e simpática, fosse sua empregada. A madame faz as suas compras e saca o cartão de crédito. A vendedora, meio sem jeito com o ar imponente da cliente, fala sobre a contribuição para a “caixinha de natal”. A madame responde que não tem trocado e sai da loja com mais uma sacola. “Seria bom um dinheirinho a mais no final do ano”, pensa a vendedora.

O rapagão bombado, correntão de prata no pescoço, cara de malvado e cheio de marra - e nem assim consegue esconder a origem burguesa - sai atropelando a quem encontra pela frente nos corredores. Está impaciente e falando ao celular o tempo todo. Um celular que já não serve para mais nada depois de 6 meses de uso: agora quer um mais moderno, cheio de recursos. Na verdade o que ele quer mesmo é um desses novos brinquedos tecnológicos que agregam desde internet e jogos a livros digitais (embora o rapagão não seja chegado em leitura) em um produto só. Seus olhos brilham ao ver o produto e espera ganhar tal presente. Papai Noel pode escolher: ou deixa o produto junto à árvore de Natal ou dá o cartão de crédito para o garotão escolher o modelo preferido, afinal saiu “um dinheirinho a mais no final do ano”.

E na saída do estacionamento, os motoristas brigam, xingam, fecham entradas e saídas e disputam acirradamente 10 centímetros de espaço ( Freud teria uma explicação sexual para isso?) e das barracas de camelôs é possível escutar uma barafunda de músicas natalinas em diversos ritmos: Simone com “Noite Feliz”, inúmeras versões para "Merry Xmas" do John Lennon e demais hits da época executados no cavaquinho. Os guardas de trânsito da cidade, absolutamente perdidos, movimentam os braços para lá e para cá em gestos que ninguém consegue entender. E sob um sol de 40 graus neste inicio de verão no Nordeste, a decoração natalina com aquele gorducho de barba branca e roupão vermelha deixa qualquer um febril.

Os telejornais de TV falam em “melhor natal de todos os tempos” para o comércio. Surgem imagens de shoppings e centros comerciais absolutamente lotados e as pessoas fazendo malabarismos para comprar e carregar os presentes. A apresentadora sorri, o apresentador fala do percentual de crescimento, a entrevista com o presidente da Associação Comercial é quase eufórica e, nos intervalos comerciais, mais músicas natalinas, produtos, promoções, gorros vermelhos, árvores de natal e Papai Noel. Todo mundo atrás do “dinheirinho a mais no final do ano”.

Até mesmo Jesus Cristo entra nas campanhas publicitárias por intermédio de Padres, Pastores, Bispos e Ministros apelando para o espírito de confraternização para que o fiel dê uma ajuda às obras de igreja ou templo. Afinal, deve ter sobrado “um dinheirinho a mais” no final deste ano.

A verdade é que o dia 25 de Dezembro como nascimento de Jesus foi obra de uma canetada de um Papa, aproveitando a data consagrada ao deus Saturno na velha Roma e, mais tarde, ao Sol “Invicti”. Logo, uma festa paganizada – de paganizar, pagã. “Paganizar” é, segundo o dicionário, é também descristianizar, ou seja, abandonar a fé cristã. Portanto, toda esta correria aos centros de compras, o apreço pelos chamados bens finitos – produtos, presentes, carros, consumo – acaba fazendo sentido.

Mas sou teimoso e gosto de pensar que a data representa algo mais significativo para diversas pessoas. Gosto de lembrar que fui criança e esperava por Papai Noel dormindo perto da árvore de natal. Ainda existe “alguma coisa” que resiste e supera o consumismo, a apelação publicitária e a melancolia. ( a chamada "tristeza de fim de ano" não é coisa rara de acontecer)

Eu sei o que é "essa coisa". E você também deve ter “alguma coisa” por aí. Ou talvez não tenha. Seja lá como for, tenha um Feliz Natal - do modo que você achar melhor!


sexta-feira, dezembro 17, 2010

Três notícias desagradáveis

(Charge velha, mas vale para ilustrar este texto. Clique na imagem para visualizar melhor)

Quando eu afirmei neste cada vez menos acessado blog que estava tentando investir no projeto estupidez eu falei sério. Porque a estupidez me livra da obrigação de ler jornais, acessar sites de notícias na internet e escrever algumas mal digitadas por aqui como uma espécie de “desabafo”. E até por coisas deste tipo que este “Grooeland” talvez tenha lá alguma vida útil, ainda.

Pois bem, três notícias nesta última semana me chamaram a atenção e certamente atraíram o seu interesse – assim espero. São notícias que demonstram bem como as coisas funcionam no Brasil.

A primeira notícia que chama a atenção é o reajuste do salário de nossos nobres parlamentares e ilustríssimo (a) presidente (a). A bolada no contra-cheque ( 61,8% de aumento) só mesmo a partir do dia 1º de Fevereiro. Ufa, ao menos nosso natal tá garantido, hein?

A segunda notícia está relacionada à primeiram de certa forma: em Salvador nossos incríveis vereadores aumentaram a verba de gabinete em 20%. Assim a prefeitura da cidade terá um gasto extra em 2011 de mais R$ 4 milhões para atender as necessidades de tão valorosa classe política que orgulha a todos os cidadãos. Tudo bem que os funcionários terceirizados das escolas não recebam há três meses, mas quem liga para esses pequenos detalhes?

E a terceira notícia provavelmente recebeu pouca atenção por parte do grande público, pois o assunto não desperta lá muito interesse: “Professor ganha 40% menos que a média de um trabalhador brasileiro com a mesma escolaridade”. Ora, mas ser professor é uma “missão”, um “sacerdócio” e mesmo um “ato de amor”. Logo, esse negócio de dinheiro não passa de mero capricho desta sociedade voltada para o consumo, certo, professor?

A pergunta que o Tiririca fez durante a campanha eleitoral – “Você sabe o que faz um deputado?” - é bastante interessante, não acham? E acho que agora o palhaço já tem uma boa ideia do que faz um deputado. Na verdade as atribuições de um deputado federal são diversas e importantes, desde aprovar o orçamento para saúde, educação, infra-estrutura e tantos outros setores a fiscalizar os atos do presidente da República. Um deputado estadual também desempenha(ria) funções relevantes, pois lida com os procedimentos legais que refletem – bem ou mal - no dia a dia dos cidadãos. Escolas e hospitais públicos, apenas para citar dois exemplos clássicos.

Mesmo com responsabilidades tão importantes, não consigo aceitar que um deputado federal ganhe a bagatela de R$ 26 mil mensais ( e as verbas de gabinete) enquanto um professor tenha que pular de escola em escola para tentar juntar uns caraminguás no final do mês.

Da mesma forma não consigo aceitar que reajustes salariais para professores sejam vetados ou votados com toda a má vontade do mundo por conta de “restrições orçamentárias”. Enquanto nossos nobres deputados votam o reajuste de seus salários ( incríveis 61% de aumento) rapidamente e praticamente por unanimidade, os professores precisam paralisar as atividades, negociar com o governo e, principalmente, enfrentar o descaso de nossos nobres parlamentares - estaduais e federais. E assim conseguir a categoria consegue, quem sabe, 4% de aumento dividido em duas vezes.

O senador Cristovam Buarque – que por vezes me soa um tanto oportunista no trato da educação, mas é tolerável pelo fato de manter o tema na pauta dos jornalões e no próprio Congresso – defende que o reajuste de 61,8% concedido aos deputados também seja concedido aos professores. Aí está um “efeito cascata” que eu gostaria de ver: reajustes de verdade para professores, médicos, policiais. Como isso não vai acontecer, escolha a desculpa:

- Nossos professores e policiais merecem todo o nosso respeito pela função que desempenham, mas estamos passando por restrições orçamentárias e...

- Infelizmente tivemos que cortar alguns recursos do orçamento de algumas pastas, mas vamos trabalhar para equilibrar os gastos...

Enquanto isso, a principal notícia – que eu ouvi em uma emissora de rádio - da Assembléia Legislativa da Bahia por estes dias foi que o retrato de um deputado já estava na galeria dos ex-presidentes da casa. Como em breve o reajuste para deputados também chegará por estes lados, é mais um motivo para que os eleitores baianos se orgulhem de nossa bela politicanalhice.

Eu no egocentrismo chamado twitter: www.twitter.com/jaimeguimaraess

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Escrita automática ou algo estúpido

Escrita automática: é o processo de produção de material escrito que objetiva evitar os pensamentos conscientes do autor, através do fluxo do inconsciente. Fonte: wikipedia.

Comprei um livrinho que vai me ajudar muito em 2011: “Como me tornei um estúpido”, de um tal Martin Page. Digo que vai me ajudar porque pretendo fazer um curso intensivo durante as férias, um curso de estupidez. Espero que neste período ( 1 mês) eu consiga desenvolver ao menos elementos teóricos suficientes para me tornar um estúpido e, assim, não me sentir deslocado da sociedade.

My light shines on! Me convenci que só mesmo sendo estúpido terei uma vida normal. Se bem que “vida normal” é algo não muito normal hoje em dia. Eu me olho no espelho e vejo um rapaz com parcos cabelos grisalhos e expressão cansada. Mesmo sem ter lido o livro já sei que uma das receitas para se tornar estúpido é trabalhar demais. Desculpem, calvinistas, mas é isso aí: “O trabalho é uma explicação muito melhor para a crescente cretinização que nos cerca do que até mesmo mecanismos claramente imbecilizadores como a televisão e a educação”. Eu sei lá se Bob Black ( deve ser humor negro) estava sendo irônico ou apenas zoando com a cara de todo mundo ao afirmar isso, mas eu levei a sério. Então estou no caminho certo para a estupidez ou cretinização ( ou cretinice) porque meu trabalho é no ramo da educação e tenho uma competitividade muito grande com a TV e outras formas de entretenimento cretino. Se meu nome fosse Antonio Banderas e tivesse as mesmas feições do galã espanhol provavelmente meu trabalho não seria tão chato e receberia mais atenção. E calma, Quakers e Pollyanas, eu não sou contra a educação, apenas sou contra a educação que está aí, percebem?

My light shines on! E se eu fosse famoso faria umas experiências bem legais com a opinião pública. Tem esse negócio chamado twitter e um monte de famosos e aspirantes a sub-celebridades postando frases e pensamentos diversos, além de links. Sigo alguns bem legais, mas acho que eles ousam pouco. Eu adoraria ter um milhão se seguidores do tipo que diz “amém” para qualquer bobagem que eu tuíte ( se esse termo não existe agora já existe aqui e para esta necessidade de expressão, não me interrompa com a gramática, ortografia e outras frivolidades num lugar onde as pessoas dizem “nóis vai” e “azivudê”) e isso é tão verdade que basta um destes famosos publicar um “Nossa, que calor, vou tomar banho mas antes soltar um barro” isso ganha centenas, milhares de repetições e o sujeito até recebe umas respostas do tipo “hahaha você é genial” ou “legal, também vou, vc é minha inspiração!”. Malditos comediantes stand-up alçados ao panteão da “genialidade cômica”, eu tenho é saudades dos velhos Trapalhões, do Bronco e da Velha Surda!

Pois bem, eu publicaria uma frase à la Jim Morrison chapado em Miami: “Vocês não passam de um monte de fodidos que gostam de ser comandados, bando de escravos!” U-lá-lá! Eu adoraria ver as reações a isso! “Genial, cara, genial!”; “Fodido é você, seu monte de merda!”; “Concordo plenamente com você, somos tudo isso aí mesmo!”. Me digam se isso não seria mais legal do que simplesmente publicar um “Nossa, a coisa no Rio tá pegando fogo hein?” e passar de engraçadinho?

E por que eu repito “My light shines on” o tempo todo? Sabe uma música chiclete que não sai da cabeça e fica tocando o tempo todo no refrão? Repeat infinito. E é uma canção gospel, suponho, que diz “eu estava cego, agora posso ver, você me fez um crente, fora de mim, minha luz brilha, minha luz brilha”. Aleluia, irmão! Sei lá se é gospel mesmo ou é mais uma peça de ironia de uma banda da qual o vocalista consumia todos os tipos de drogas possíveis e imaginárias, até Tang Uva com Miojo Galinha Caipira, uma combinação mortal. Yeah, my junk food shines on! Let´s have dinner!

E não tenho mais paciência para desopilar o fígado através das palavras. Eu quero mesmo é que chegue o primeiro dia de férias para tirar a guitarra do pó e tocar bem alto “School´s Out” do velho Alice Cooper. É tipo um ritual, sabem? Não importa que eu não saiba tocar absolutamente NADA na guitarra além de Knockin´s on Heavens Door do Slash ( Ei, Axl Enrolose, fuck off!) e Velouria dos Pixies, mas essa música do Cooper tem que sair logo quando dizem “ok, escravo, você está de férias! Descanse bastante para retornar daqui a um mês para que possamos dizer o que você deve fazer este ano para manter tudo exatamente igual, porque educação serve para isso, reprodução, nada de alteração. E se você tentar algo diferente, primeiro te diagnosticamos como louco, para que entre em descrédito. Isso elimina ameaças e se você insistir simplesmente aumentamos sua carga horária para te quebrar as pernas e torrar seu cérebro com trabalho, dever, responsabilidades e encargos ligados ao seu setor, somente. Entendeu?”

Entenderam? My light shines on! Tenho certeza de que Martin Page e seu livro me ajudarão, mas não tanto quanto a TV aberta. Esta, sim, fundamental para minhas pretensões. Tornarei-me um estúpido e esse texto estúpido é o começo desta fase. Mas em breve vocês não verão mais textos estúpidos por aqui, porque ando pensando em encerrar as atividades deste estúpido blog. Se vou dedicar-me à estupidez plena, não há mais necessidade disso aqui. Vou publicar apenas e tão somente vídeos de 20 segundos com alguma gag do youtube ou uma comédia stand up de um destes gênios que surgem por aí aos montes pela internet e TV. E deixa eu aumentar o volume My light shines on! My light shines on! Now I can see! I´m movin´ on up now! My light shines on!

Meu twitter => dê RT nas coisas estúpidas que postarei lá: www.twitter.com/jaimeguimaraess

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Relações descartáveis no ambiente on-line


Alguém já disse que o twitter é uma excelente ferramenta para indexação de notícias e funciona bem como um “clipping jornalístico”, o que concordo. Mas além desta boa utilidade o site também revela um traço curioso e já característico desta época em que vivemos: o descarte.

Fazemos parte de uma sociedade voltada para o consumo e as pessoas são bombardeadas a todo instante por peças publicitárias induzindo à compra de objetos e aparelhos mais “modernos” mesmo que não se tenha necessidade em adquiri-los – e aí está o grande desafio da publicidade: convencê-lo de que aquele celular que você tem há um ano e serve perfeitamente às suas necessidades é ultrapassado e você precisa de um novo modelo. Isso foi apenas um exemplo para mostrar como funciona esta dinâmica consumista.

O descarte é, portanto, estimulado a todo o momento. O que não “serve” mais é jogado fora, substituído por um novinho, mais moderno, até surgir outro modelo que cumpre as mesmas funções, no entanto tem um design melhor, mais bonito, chamativo – e isso não demora muito, afinal o consumidor precisa de estímulos.

Não é sem espanto que leio certos tweets (mensagens postadas no twitter) expressando o desejo de usuários – e não são poucos – de transferir certas funcionalidades da vida on-line para a vida real. É muito comum encontrar frases do tipo “Seria ótimo se tivesse um botão de bloquear na vida real” ou “queria ter uma tecla delete para deletar certas pessoas”. Em outras redes sociais tal desejo também é expresso e muitas vezes a palavra “faxina” é utilizada: “vou fazer uma faxina no meu MSN”. Citei especificamente o twitter porque nesta rede as pessoas costumam “escancarar em público" certas ideias, - e até desabafar na timeline - respondendo à pergunta do próprio site: “what´s happening?” (o que está acontecendo?); mas isso pode ser verificado em qualquer rede social, do orkut ao facebook.

É verdade que a impessoalidade é forte característica da contemporaneidade ( ou pós-modernidade, fique à vontade com os rótulos) e também a ideia de “descarte humano” não está tão distante de alguns acontecimentos que acompanhamos indignados pela imprensa há anos: índio queimado enquanto dorme na praça, empregada doméstica espancada em ponto de ônibus, manifestações de ódio a nordestinos, homossexuais agredidos de forma tola e gratuita. Estas pessoas agredidas são consideradas por muitos como “descartáveis”, aquele tipo de gente em que a tecla “delete” ou o comando “block” seriam muito bem vindas.

Evidente que há uma grande distância do moleque mimado de classe média que ateia fogo em um índio dormindo na praça a um simples usuário de MSN que deleta ou bloqueia um ou vários contatos. Não quero dizer que o sujeito que dá um “unfollow” no twitter vai sair por aí reproduzindo o mesmo em suas relações ditas “off line”; apenas ressaltar que as pessoas são tratadas como simples objetos que podem ser descartados com um simples comando, praticamente com prazo de validade nas redes de contato de fulano ou sicrana.

Claro, no dia a dia “offline” nós conhecemos várias pessoas com as quais simpatizamos ou não. As afinidades são complementadas por gestos que indicam uma amizade talvez duradoura ou antipatia à primeira vista - e alguns destes gestos, além da esfera visual, requerem uma proximidade que uma webcam não é capaz de transmitir. No entanto, seguir a lógica consumista do descartável para com as pessoas acaba por reduzi-las a simples reprodutoras de um universo - no caso, o “on line” - onde tudo é perene e não há muito interesse – ou paciência – na manutenção: o “novo” é o desejável, pois ele traz a ilusão de que as expectativas, finalmente, sejam atendidas. Até novos contatos on-line e novas faxinas. Conquistar, dentro do que se aparenta como “novidade” na rede não é tão difícil quanto manter as relações.

Cito uma expressão do sociólogo polonês Zigmunt Bauman: “Em outras palavras: mantenham abertas todas as opções. Não jurem fidelidade ´até que a morte os separe´ a nada ou a ninguém. O mundo está cheio de de possibilidades maravilhosas, atraentes, promissoras: seria loucura perdê-las por estar de pés e mãos atados em compromissos irrevogáveis”.

Não raramente as pessoas mais jovens surpreendem-se com os casamentos e relacionamentos duradouros e até mesmo com amizades que prevalecem ao longo de muitos anos. Obviamente que redes sociais como twitter, orkut e facebook não são responsáveis por todas as separações e rupturas que acontecem em tais relacionamentos; no entanto, elas parecem reforçar e até estimular, de certa forma, a fugacidade. Como é fácil colecionar “amigos”e descartá-los a um só clique do mouse!

Se quiser colocar neste rol o banalizado “eu te amo”, fique à vontade. E se você conseguiu chegar até o final da leitura deste texto sem dispersar pelas inúmeras possibilidades que a internet oferece, parabéns: agora, sim, pode descartá-lo tranquilamente.

Se gostou do texto, dá um RT no twitter e curta no facebook: www.twitter.com/jaimeguimaraess

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails