Difícil não se impressionar e se horrorizar com a guerra civil que vem acontecendo no Rio de Janeiro há alguns anos e que esta semana chegou ao ápice nos conflitos entre policiais e traficantes.Também custa acreditar que em Salvador crimes bárbaros como adolescentes decapitadas e “balas perdidas” que acertam crianças dentro de casa estejam ocorrendo. O que aconteceu com a cidade maravilhosa e a terra da alegria, da felicidade e do axé, e que serão cidades-sede para a Copa do Mundo em 2014?
Este é o problema: quase nada aconteceu em termos de políticas públicas e inclusão. As drogas estão ligadas à humanidade desde o inicio dos tempos e até a Bíblia traz relatos de patriarcas “mandando ver” no vinho. Nativos da América Central e do Norte já utilizavam peyote (espécie de cacto) para suas visões e eram imitados pelos seus irmãos sul-americanos com diversas ervas alucinógenas; na Ásia, a flor da papoula deu origem ao ópio e por aí segue a história e muitos livros, discos e filmes que você leu, ouviu e assistiu foram inspirados por “viagens”.
Portanto, a repressão pura e simples em relação às drogas vai adiantar pouco, pois se trata de uma reação a um problema criado pela ausência do poder público em várias comunidades. Não estou dizendo que o princípio da legalidade ( polícia, projetos, normas) tenha que ser desprezado, nada disso; apenas que o presente modelo não passa de mais um paliativo que serve bem a coberturas midiáticas que ajudarão eleger políticos e fomentar a indústria de armas e segurança privada.
Educação, eis a solução! Devagar: a educação de qualidade é rigorosamente necessária e condição sine qua non para que um país possa ser classificado como desenvolvido; contudo, apesar da necessidade de se investimento e maior atenção ao setor, a educação não fará milagres se o modelo de responsabilidade continuar o mesmo, ou seja, apenas a cargo escola.
A partir daí surgem fetiches como “escola em tempo integral” esperando que a mesma resolva todos os problemas da sociedade, e a sociedade é composta por atores que precisam entrar no jogo e assumir suas responsabilidades. Fácil se eximir das mesmas sob o argumento simplista de “pago meus impostos” e fim de papo. Apenas um exemplo: o dono daquele bar sabe que é proibido vender bebidas alcoólicas a menores, mas o faz sem o menor constrangimento. E desnecessário reforçar aqui o papel dos pais em todo o processo de formação da criança e adolescente.
E investir na escola sem investir em políticas públicas adequadas e que ofereçam perspectivas para crescimento pessoal e profissional para milhares de jovens estudantes também não será a salvação. Os modelos de ascensão social no Brasil raramente estão ligados ao estudo e isso precisa mudar. Em muitos casos os jovens entram no mundo do crime atraídos justamente pelas “benesses” que o narcotráfico e o crime organizado podem proporcionar: poder e sexo.
A gênese de toda essa violência que acontece no Rio, Salvador e no Brasil de modo geral é também relacionada ao tráfico de drogas - além de tantas outras causas como a desigualdade histórica deste país - que mantém uma fronteira muito tênue com a corrupção. Não vi Tropa de Elite II ( na verdade, nem o I ) mas não é preciso especificamente um filme - que no caso deste sucesso do cinema nacional tem méritos - para perceber o Estado corrupto que se apresenta diante de nossos olhos todos os dias e às vezes – ou na maioria – sem reação diante de notícias de armamento pesado do exército nas mãos de traficantes do morro ou da favela. Obviamente tais armas não chegam via sedex.
Corrupção, claro. E as notícias sobre este assunto são tantas que passam e caem no esquecimento. Mas é bom lembrar de uma bem recente: na Bahia a Polícia Federal prendeu 7 prefeitos acusados de desviar verbas da merenda escolar e de medicamentos. E são tantas irregularidades em mais 20 municípios que o prejuízo pode chegar a R$ 60 milhões. Vejam que as verbas existem e são liberadas para atender certa necessidade, mas parafraseando Drummond, "tinha um interceptador no meio do caminho". Vários interceptadores, melhor dizendo.
Dentro do princípio da legalidade, a aplicação severa das leis contra o tráfico de drogas e corrupção deve continuar acontecendo nos morros e nas comunidades onde o tráfico domina, mas também em diversos condomínios de luxo, fazendas, mansões, coberturas, gabinetes políticos. Urgem políticas públicas adequadas, investimentos sérios e bem distribuídos em setores importantes como educação, saúde, esporte/lazer e cultura.
E tudo isso deveria acontecer independente de uma Copa do Mundo e de Jogos Olímpicos.
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