sexta-feira, abril 16, 2010

Terra de Cegos - uma fábula


(Clique na imagem para ver melhor a charge sem graça de hoje)

ATENÇÃO: esta é uma obra de ficção. Qualquer coincidência com nomes, fatos e datas será mera coincidência... ou nem tanto assim!

- Boa noite! Está no ar mais uma edição do programa “A Hora da Verdade” e hoje estamos recebendo em nossos estúdios o governador do estado da Jazia, o sr. Jean Jackson Walter. Governador, seja bem vindo aos nossos estúdios!

- Obrigado, boa noite, é um prazer estar aqui.

- Governador, a população tem acompanhado as propagandas na TV que sempre mostram muitas obras sendo feitas no estado, atualmente. É uma parceria com o governo Federal?

- Algumas obras são em parceria com o governo Federal, através do programa PAC MAN, em que as verbas são usadas justamente para promover o crescimento econômico e social do estado através de obras de infra-estrutura.

- Governador, a capital do estado foi escolhida como sede para um evento internacional sobre segurança pública...

- ...o que é muito importante para o estado e para o país.

- ...sem dúvida, mas veja bem: foi anunciado que o estado pagará por volta de R$ 350 mil, entre cachê e custos de produção, para que dois artistas – Gabriela Neptune e Dominguinhos Van Braunn – se apresentem neste evento. Governador, não vou discutir o talento ou o merecimento dos artistas, mas apenas fazer a pergunta: é mesmo necessário pagar valores tão elevados para esses artistas em um estado tão pobre, que sofreu recentemente com centenas de desabrigados com as chuvas e que paga muito mal, por exemplo, aos professores, que tem o 4º pior salário do país?

- Claro que é! Você dá uma festa, de padrão internacional, e vai oferecer o que? Esses artistas representam muito bem a Jazia no mundo todo, são queridos e merecem o que se paga a eles e...olha, meu jovem, essa pergunta não estava no roteiro! Ou você pergunta aquilo que combinamos antes da gravação ou a entrevista encerra aqui!

- Governador, me desculpe, mas o nome do programa é “A Hora da Verdade”. O senhor não acha indecente pagar R$ 180 mil pra que Dominguinhos Van Braunn e equipe façam a sua batucada por 1 hora de show enquanto um professor com 20h semanais de trabalho em escolas detonadas ganhe pouco mais de R$ 600 por mês?

- Olhe, pra mim chega, a entrevista está encerrada e...ei, o que é isso?

- O senhor está preso em nossa cadeira, governador. Não se preocupe, assim que responder as perguntas nós liberaremos as correias que prendem o seu pulso e seus pés à cadeira.


- Mas...mas...isso é um absurdo! Isso é um crime, é cárcere privado! Onde estão meus assessores? Socorro, socorro!

- Não adianta gritar, senhor governador. Aqui no estúdio só estamos eu, o senhor, o operador de câmera e nossa produtora, todos concordaram com esta ideia. Os seus assessores estão em outra sala, muito bem tratados ao som do Reboilexon e várias piriguetes para entretê-los.

- Mas...que droga! O que vocês querem? Vão me sequestrar, exigir resgate, me matar?

- Nada disso, governador. Queremos apenas que nos explique uma coisa: quando professores, médicos e policiais paralisam as atividades pedindo aumento salarial, o senhor e seus secretários dizem que não podem dar um aumento por conta da “realidade financeira do estado” e, no entanto, soltam sem dó uma grande verba para pagar dois shows musicais em um evento. Como é isso?

- Só uma perguntinha: eu vou responder, mas o que vão fazer com essa informação? Vão usá-la na campanha eleitoral? Já sei, vocês são da oposição!

- Nada disso, governador, não somos políticos. Queremos apenas exibir sua resposta na TV para que o POVO enxergue a realidade e a verdade!

- Ah, é pra isso? Hahaha! Vocês são muito ingênuos! Conhecem o conto de H.G. Wells chamado “Em Terra de Cego”?

- Não...

- É o seguinte: um forasteiro se perdeu na cordilheira dos Andes e descobriu uma civilização estranha: todas as pessoas são cegas. Essas pessoas não sabem o que significa a palavra “cegueira” e estão muito satisfeitas com o seu modo de vida. O forasteiro logo pensou no ditado “em terra de cego, quem tem um olho é rei”, mas não conseguiu convencer aquelas pessoas sobre as vantagens e maravilhas de “ver”. Mas os nativos não queriam nem saber daquilo que o forasteiro dizia sobre “enxergar o mundo”, eles achavam tudo aquilo uma bobagem. E, se quisesse continuar entre eles, o forasteiro teria que arrancar os olhos. Ele entendeu que se continuasse ali teria que se adaptar à situação e ao modo de vida dos que preferem a cegueira, então preferiu fugir e conservar a visão. Captou a mensagem, meu jovem?

- Er...sim, sr. Governador. Nós entendemos. Iremos soltá-lo agora mesmo. Desculpe o constrangimento, o sr. tem toda a razão.

- Muito bem, meu jovem. Façamos o seguinte: vamos esquecer esse mal entendido, ok? Você é um bom rapaz, mas um tanto ingênuo, procure relaxar. Aliás, quer um convite para assistir ao show de Gabriela Neptune e Dominguinhos Van Braunn? Aceite, é cortesia, o estado paga. Lembre-se do nosso lema: fazemos mais para quem mais precisa!

Abra o olho e me siga no twitter: www.twitter.com/jaimeguimaraess

14 comentários:

  1. olá, gostei da sua fábula, bem escrita. remete àquele velho assunto: como os políticos gastam o dinheiro público. já não sei mais o que temos que fazer p/ reverter esssa situação, a vontade é ir p/ outro país.

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  2. ADOREI a sua fábula, muito bem colocada, e os nomes fictícios, então? kkkkk, ri muito aqui. Pois é, digamos que o poder corrompe. Às vezes me bate um certo desespero ao pensar nessas questões, em como o dinheiro público é mal aplicado, em como politicagem e mídia caminham lado a lado acertando em cheio o "alvo fácil" que se encontra na ingenuidade do povo. Muita gente sabe, mesmo em meio à ignorância, o quanto somos roubados dia após dia (nem me atrevo a usar aspas, desnecessário) e mesmo assim, o que se faz além de aceitar e dizer amém? Até mesmo as pessoas mais esclarecidas que pensam em mudar essa situações, são consideradas, como colocado no texto, ingênuas e inofensivas diante da dimensão do problema, porque "uma andorinha só não faz verão" e lutar, transformar passa a ser uma utopia da qual riem. No texto que tentei postar esses dias e não consegui por falta de colaboração do blogger, eu trato desse dom pro conformismo que o brasileiro tem de saber o que está errado e não fazer nada. E se deixar comprar, se deixar distrair com tudo de mais fútil e vazio que há no que diz respeito a mídia. Como diz uma colega de twitter: Como proceder? =S

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  3. fábula?
    ah! a parte da cadeira que prende, né?
    hehehe

    vai ter o 2? no 2 o apresentador vota no governador nas próximas eleiçõe, né? Ou aí já viraria muita realidade?
    hehehe

    Só rindo mesmo!

    bjos

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  4. Jaime, como mudam as coisas e as pessoas,não é? E mudam tanto para pior que aacabo dando razão àquele ditado quando diz que o poder corrompe absolutamente. Conheci esse Jackes Wagner nos tempos que ele era um combatente sindicalista. Chega a ser patético ver hoje no que se transformou. O poder...
    abração, amigo! Paz e bem.

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  5. É... Triste Bah... OPS! Jazia, Triste Jazia...

    Mais uma vez, nota 10!!!

    Abraço.

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  6. Fantástico!
    A Zona de conforto é um lugar perigoso, uma vez lá e você dificilmente quererá sair.

    Um grande abraço, meu singelo gênio.

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  7. olá, professor!

    como cantava um Zé, essa é a "vida de gado: povo marcado, povo feliz". quem nos dera que esse tipo de conduta se restringisse à ficção ou a um único político de um único estado ou fosse exclusividade de algum país tropical. infelizmente essa já é uma cultura enraizada (e de raízes profundas).

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  8. PARABÉNS... PENA VC NÃO PODER ESCUTAR MEUS APLAUSOS...

    Mas o pior não é ler este belo texto, o achar mto bem escrito, de certa forma ele é até irônico... Enfim... O pior é saber que este texto EXISTE na vida real, com outros nomes, em outras situações, mas ele EXISTE na vida real...

    Abraços

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  9. Eu vivo insistindo nesse tema, mas as pessoas preferem não ver nada disso! O governo vive maquiando toda a miséria que há por ai e iludindo a população com um monte de coisa fútil. O pior: O POVO GOSTA! E não faz a mínima questão de lutar por alguma igualdade! No parágrafo :
    - Nada disso, governador. Queremos apenas que nos explique uma coisa: quando professores, médicos e policiais paralisam as atividades pedindo aumento salarial, o senhor e seus secretários dizem que não podem dar um aumento por conta da “realidade financeira do estado” e, no entanto, soltam sem dó uma grande verba para pagar dois shows musicais em um evento. Como é isso?

    Para que se gastar a mais com trabalhadores, muito úteis para a população, porém MINORIA, se pode conquistar uma grande massa "ignorante politicamente"?

    Lembrei de uma música: " Inúteis, AGENTE SOMOS, inúteis..."

    Beijos ADOREI!!!

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  10. Menino, as coisas não mudam aí né-...
    saio da Bahia, vou retornar e a politicagem na mesma...
    Que sonho, viu!

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  11. Menino, as coisas não mudam aí né-...
    saio da Bahia, vou retornar e a politicagem na mesma...
    Que sonho, viu!

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  12. Oi, Groo!

    Vim agradecer pela sua visita e comentário lá no Ortografando. Que bom que gostou! E pode opinar sempre que quiser, deixar dúvidas e observações, pois terei o maior prazer em respondê-lo!

    Bom, quanto ao seu post, a realidade é essa mesma, né? Infelizmente. O dinheiro público nunca retorna para o "público", e enquanto as coisas funcionarem dessa maneira, a realidade brasileira não irá mudar. É tudo muito desigual!
    Mas gostei muito da maneira como você tratou do assunto. Como sempre, divertidíssimo! rs

    Abração!

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  13. Se as entrevistas pudessem ser assim, seria demais, imagina poder arrancar tudo de um politico!!
    E ainda tem gente que insiste em tapar os olhos para esse tipo de situação, sabe , tem gente não relaciona uma coisa a outra, tipo o governo poder pagar um Andrea Bocelli para floripa e não poder aumentar os salário dos professores e dos policias de ação. aiai
    Muito perfeita a Fabula!

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  14. Eu a-d-o-r-e-i !!!!!
    Queria demais um programa de tv como esse.
    "programa PAC MAN" tbm não seria mal, hahahahahahahaaha

    Jaime, aqui em Brasília pagaram muito por nada, pra variar. Mas remédio na rede hospitalar tem não. Nem esparadrapo. Nem etiqueta pra etiquetar exame. Acredite, Groo: Pagaram a Daniela Mercury pra cantar no aniversário, mas as crianças estão sem poder fazer exames de urina!

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