terça-feira, abril 27, 2010

Eyjafjallajokull, poesia e a arte de enrolar


Nas últimas semanas o mundo voltou o seu olhar, assombrado, para uma ilha meio esquecida ali no Atlântico Norte, entre a Europa e a Groenlândia ( Grooeland é aqui e não tem nada a ver com esta ilha). Claro, estamos falando da Islândia, a terra de encantadores vulcões.

E foi justamente um desses vulcões que assombrou o mundo, tanto pelas cinzas expelidas levando o mundo a experimentar um pouquinho de Brasil ia-iá-iá com o “caosaereo” - e a VEJA não fez nenhuma reportagem culpando o Lula e nem o super grupo CANSEI se reuniu para pedir “justiça”- como pelo nome simpático que atende o vulcãozinho: Eyjafjallajokull. (embora o nome do vulcão não seja propriamente este, o termo acabou caindo no gosto popular e agora todo mundo fala: "aquele vulcão lá da Islândia".)

Eyjafjallajokull nos ensina algumas coisas. A não reclamar de certas circunstâncias, por exemplo. Imaginem se Eyjafjallajokull fosse um país e estivesse no grupo do Brasil na Copa do Mundo. Seria lindo ouvir o Galvão Bueno narrando “Haaaaja, coração! Hoje tem Brasil e Eyjafjallajokull!”. Ou ainda “Pra cima deles, Robinho! São só 5 zagueiros Eyjafjallajokullianos!”.

Mas o que eu sabia sobre a Islândia, além de ser terra daquela baixinha invocada, a cantora Bjork? Vocês podem não acreditar, mas eu sabia que a capital deste país é Reykjavik – mas não me peçam para pronunciar – e conhecia também a poesia islandesa que era produzida a ilha pelo século XI, XII ou anterior a este período. Calma, meu nome não é Oscar Niemeyer!

“Conhecer” é modo de dizer. Tenho aqui em casa um livrinho de Jorge Luís Borges, escritor argentino e um dos maiores do século XX – sim, a Argentina tem coisas boas: Gabriela Sabatini, vinhos e a distância – chamado “História da Eternidade”, do qual o autor se propõe, em um capítulo, analisar a poesia islandesa daquele tempo. O que mais chamava a atenção de nuestro hermano eram as “kenningar” contidas nos versos poéticos. “Kenningar” nada mais são do que “menções enigmáticas” utilizadas pelos nossos bravos islandeses para definir o céu, os pássaros, os guerreiros, enfim, qualquer coisa.

Um exemplo simples:

Maçã do peito
Dura pelota do pensamento.


Aí está descrito o coração. Bonito, mas nada que cause grande impacto à primeira vista. Então vejamos outro exemplo:

Os que tingem os dentes do lobo (guerreiros)
Esbanjaram a carne do cisne vermelho. (os mortos)

Pois é, algo parecido com “metáfora”, embora as kenningar estejam mais para “sopa de letrinhas” ou o que chamariam injustamente como “enrolação”. Vejam o que nossos amigos islandeses utilizavam para cantar uma bebida muito apreciada por nós atualmente:

Onda do chifre
Maré do copo.


Sei lá onde Borges encontrou a cerveja aí nesta passagem. Vai ver ele mesmo tomou umas a mais para enxergar isso. É verdade que palavra “chifre”aí é um tanto estranha, mas não impediria, creio, que algum pagodeiro fizesse um novo sucesso de 15 minutos para o próximo carnaval utilizando tal imagem islandesa.

E o que isso tem a ver com o meu, o seu dia a dia? Muita coisa. Assista a qualquer entrevista de um político. As kenningar estarão lá:

“Vamos procurar adequar nosso orçamento em certos setores à realidade atual promovendo algumas alterações fiscais para que possamos obter um Estado forte e enxuto”.

Adequar nosso orçamento em certos setores = corte de verbas na educação, saúde e segurança;
Promover alterações fiscais = aumento de impostos;
Estado forte e enxuto = privatizações e terceirizações.

Viram como não é difícil? Experimentem decifrar outras kenningar espalhadas por aí, sejam na política, no futebol ou nas palavras daquela empresa de telefonia que adora te enrolar. É bem mais fácil do que pronunciar Eyjafjallajokull!

Fylgdu mér á twitter: www.twitter.com/jaimeguimaraess

13 comentários:

  1. Seria bom que houvesse uma seleção com o nome de Eyjafjallajokull. Assim, o Galvão - que de Bueno no tiene nada - ficaria um longo período tentando decifrar a palavra e sua pronúncia ingrata, deixando assim os ouvidos das pessoas em paz, livres de seus RRRRRRRRR’s e comentários inoportunos.

    Quanto as kenningars, foi uma excelente analogia. Desconfio que você, nesta árdua profissão de professor, já deve ter lido várias, em especial, nos comunicados do governo a cerca das propostas de melhoria das condições de trabalho e aumento salarial, né? rs... =D

    Kisoj

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  2. P.S.: A piada com os argentinos foi a mais pura demonstração de moléstia aguda e incômoda sofrida por sua parte exterior da articulação média do braço = dor de cotovelo!

    =P

    Viva a Argentina, e seus hermanos deliciosos!

    kkk... =D

    Parabéns pelo texto!

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  3. PHODA!!! Auahuhua Adorei esse texto. Grooeland é uma excelente terra, existem pessoas inteligentes e senso de humor em demasia. Algumas pessoas não entendem e dizem que é um lugar de pessoas "caricatas", vai entender. De repente é um argentino que não entende como um paulista pode se naturalizar baiano. Esse mundo está perdido. rs O pior e quando esse mesmo Banhista (baiano com paulista) não tem nem kenningars para exprimir o quão insatisfeito está com o mundo. No entanto, a sua insatisfação e cultura nos fazem mais como posso dizer? Lobos que encontraram a maçã perdida do conhecimento. rs

    Abração!!!!

    E VAAAAAAAAAIIII QUE É TUA, JAIME!!!!

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  4. hahaha!
    muito bom
    Mas antes de analisar a "viagem" do Jorge, é preciso lembrar que ele é Argentino. Então... já precisamos partir do princípio que ele é sequelado. rsrs

    O exemplo de kenningar foi ótimo! Mas são tantos outros que acho mais fácil tentar aprender a pronunciar Eyjafjallajokull. rs

    bjos

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  5. Jaime,meu amigo, você dá aula sem enrolação e sem firula de antonomásias. Eu tenho uma singela contribuição sobre a islândia também. É talvez o país onde mais se come batatas no mundo. Um sobrinho que mora na Europa me disse que lá as melhores coisas são o frio abaixo de 45 graus e batatas, de manhã, tarde, noite, madrugada...
    Espetacular, amigo! Abração. Paz e bem.

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  6. E eu ainda me privo o prazer de desfrutar por uns dias da maestria de suas crônicas não é?! rsrs
    Olha, que bom que vc ainda foi sutil com meus queridos argentinos! hahaha
    Bom, colocar vulcão, Galvão, política e análise poética costurados com humor não é pra qualquer um não é? Só numa cuca grooeland como a sua! Parabéns moço, te admiro de montão.
    Beijos e boa semana sempre, entre as fumaças, não dos vulcões, mas dos acarajés soteropolitanos! =)

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  7. Hehehehe... Jaimão também é cultura! Porra, cara! Nunca tinha ouvido falar disso! A cada dia que passa eu me convenço mais que você é mesmo uma figura! Mas até que essa ideia de kemingar não é de toda ruim. Pensando aqui numas coisas mais amenas - eu não tenho essa sua verve de crítico voraz do sistema. Como eu falaria, em kemingar que eu broxei, por exemplo (não que isso seja um fato, evidente)? E que todo professor é fudido? Te lanço o desafio, Jaimão... Hehehehhe!

    Abraços!

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  8. Jaime eu simplesmente amei essa crônica! Como sempre consegue misturar tudo e ao mesmo tempo informa e nos fazer rir.
    Confesso-te que até hoje não consigo pronunciar esse nome Eyjafjallajokull, sai um som estranhissimo da minha boca! Rsrsrs... Imagina o Galvão?
    A comparação das "kenningar" com a entrevista do político foi o ponto máximo! Rsrsrs...
    Nossas postagens tiveram um ponto em comum: um argentino...Rsrsrs...

    Beijinhos!

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  9. kkkk... Crítica perfeita, inteligente, atualissíma e muito bem temperada com humor.

    Não sei se damos gargalhadas com o teu blog, ou se choramos por saber como é triste que tudo isso seja verdade.

    Abraços das MALUCASdeBR

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  10. No meu trabalho aprendi a decifrar as embromations mais do que nunca.
    Está escrito "Centro de excelência, prevenção e qualidade de vida" quando na verdade deveria ser "filial de Santos de poucos recursos" .

    Adorei o post, como sempre.

    Um beijo!

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  11. No meu trabalho aprendi a decifrar as embromations mais do que nunca.
    Está escrito "Centro de excelência, prevenção e qualidade de vida" quando na verdade deveria ser "filial de Santos de poucos recursos" .

    Adorei o post, como sempre.

    Um beijo!

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  12. Oi, Groo!

    Você e suas verdades sempre muito bem-humoradas!

    Saudade daqui...

    Abração!

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  13. Eyjafjallajokull é só mais um sinal do fim dos tempos. Outro sinal claro foi a Dilma Roussef aparecendo de camiseta numa propaganda. Só falta agora nascer cabelo no Serra, aí tamus folhados!

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