quinta-feira, dezembro 30, 2010

Para ter um bom ano novo...

(Esta é uma mensagem programada.Neste momento estou em algum local isolado,em férias)

O ser humano adora ciclos programados e rituais. A natureza tem seus ciclos próprios, como se pode constatar durante as estações do ano, nascimentos e demais eventos.E o homem também possui seus ciclos, porém controlados por calendários e relógios.

Assim, de acordo com este ciclo controlado, chegamos ao final de mais um ano. E neste período assistimos a programas de TV com suas retrospectivas, confraternizações das quais (quase) todo mundo estará vestindo peças de roupas brancas, listinhas de promessas que vão desde “emagrecer 40 quilos”,passando por casamentos,mudança de vida e tantas outras promessas que junto ao ritual de pular as ondas do mar e comer lentilhas serão realizadas,é claro.

Nesta época sempre lembro do saudoso Carlos Drummond de Andrade que dentro de sua sabedoria e simplicidade nos presenteou com o magnífico “Receita de Ano Novo”:

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)

Para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Mesmo se tratando de um mero simbolismo – pois as mudanças dependem de cada um, independente de números ou rituais - desejo a todos vocês um ano de 2011 excelente!

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Feliz "Natal", ho ho ho!

(Clique na imagem para melhor visualização, ho ho ho!)

O sujeito está vestido com um roupão vermelho, usa um gorro (da mesma cor) enorme na cabeça e para completar a indumentária, a barba branca: “ É um dinheirinho a mais no final do ano, né?”, diz ele, talvez tentando convencer a si mesmo que vestir-se como Papai Noel no Nordeste brasileiro em pleno verão não é uma insanidade.

A linda jovem está subvertendo uma tradição antiga, a dos duendes ajudantes do Papai Noel. Hoje, ela faz parte das “ajudantes natalinas”, aquelas moças responsáveis por organizarem as filas e "domarem" as crianças que querem tirar foto com o bom velhinho. O problema é que ela, linda jovem com uma saia não muito longa que deixa à mostra um belo par de pernas, tem que resistir ao assédio dos papais e irmãos mais velhos que passam todo o tipo de cantada barata e até propõem encontros. “ É um dinheirinho a mais no final do ano”, diz ela, tentando convencer a si mesma que pode suportar tudo aquilo.

A madame empetecada passeia pelos corredores lotados do shopping com um par daqueles gigantescos óculos escuros que quase esconde todo o rosto - e, consequentemente, o olhar. Repleta de balangandãs pelo pescoço e braços, fixa o olhar em uma vitrine e não repara quem está ao lado, à frente, simplesmente avança com a gula consumista que é facilmente confirmada com as sacolas de lojas chiques nas mãos. Entra na loja em um rompante e dá ordens como se a vendedora, uma morena bonita e simpática, fosse sua empregada. A madame faz as suas compras e saca o cartão de crédito. A vendedora, meio sem jeito com o ar imponente da cliente, fala sobre a contribuição para a “caixinha de natal”. A madame responde que não tem trocado e sai da loja com mais uma sacola. “Seria bom um dinheirinho a mais no final do ano”, pensa a vendedora.

O rapagão bombado, correntão de prata no pescoço, cara de malvado e cheio de marra - e nem assim consegue esconder a origem burguesa - sai atropelando a quem encontra pela frente nos corredores. Está impaciente e falando ao celular o tempo todo. Um celular que já não serve para mais nada depois de 6 meses de uso: agora quer um mais moderno, cheio de recursos. Na verdade o que ele quer mesmo é um desses novos brinquedos tecnológicos que agregam desde internet e jogos a livros digitais (embora o rapagão não seja chegado em leitura) em um produto só. Seus olhos brilham ao ver o produto e espera ganhar tal presente. Papai Noel pode escolher: ou deixa o produto junto à árvore de Natal ou dá o cartão de crédito para o garotão escolher o modelo preferido, afinal saiu “um dinheirinho a mais no final do ano”.

E na saída do estacionamento, os motoristas brigam, xingam, fecham entradas e saídas e disputam acirradamente 10 centímetros de espaço ( Freud teria uma explicação sexual para isso?) e das barracas de camelôs é possível escutar uma barafunda de músicas natalinas em diversos ritmos: Simone com “Noite Feliz”, inúmeras versões para "Merry Xmas" do John Lennon e demais hits da época executados no cavaquinho. Os guardas de trânsito da cidade, absolutamente perdidos, movimentam os braços para lá e para cá em gestos que ninguém consegue entender. E sob um sol de 40 graus neste inicio de verão no Nordeste, a decoração natalina com aquele gorducho de barba branca e roupão vermelha deixa qualquer um febril.

Os telejornais de TV falam em “melhor natal de todos os tempos” para o comércio. Surgem imagens de shoppings e centros comerciais absolutamente lotados e as pessoas fazendo malabarismos para comprar e carregar os presentes. A apresentadora sorri, o apresentador fala do percentual de crescimento, a entrevista com o presidente da Associação Comercial é quase eufórica e, nos intervalos comerciais, mais músicas natalinas, produtos, promoções, gorros vermelhos, árvores de natal e Papai Noel. Todo mundo atrás do “dinheirinho a mais no final do ano”.

Até mesmo Jesus Cristo entra nas campanhas publicitárias por intermédio de Padres, Pastores, Bispos e Ministros apelando para o espírito de confraternização para que o fiel dê uma ajuda às obras de igreja ou templo. Afinal, deve ter sobrado “um dinheirinho a mais” no final deste ano.

A verdade é que o dia 25 de Dezembro como nascimento de Jesus foi obra de uma canetada de um Papa, aproveitando a data consagrada ao deus Saturno na velha Roma e, mais tarde, ao Sol “Invicti”. Logo, uma festa paganizada – de paganizar, pagã. “Paganizar” é, segundo o dicionário, é também descristianizar, ou seja, abandonar a fé cristã. Portanto, toda esta correria aos centros de compras, o apreço pelos chamados bens finitos – produtos, presentes, carros, consumo – acaba fazendo sentido.

Mas sou teimoso e gosto de pensar que a data representa algo mais significativo para diversas pessoas. Gosto de lembrar que fui criança e esperava por Papai Noel dormindo perto da árvore de natal. Ainda existe “alguma coisa” que resiste e supera o consumismo, a apelação publicitária e a melancolia. ( a chamada "tristeza de fim de ano" não é coisa rara de acontecer)

Eu sei o que é "essa coisa". E você também deve ter “alguma coisa” por aí. Ou talvez não tenha. Seja lá como for, tenha um Feliz Natal - do modo que você achar melhor!


sexta-feira, dezembro 17, 2010

Três notícias desagradáveis

(Charge velha, mas vale para ilustrar este texto. Clique na imagem para visualizar melhor)

Quando eu afirmei neste cada vez menos acessado blog que estava tentando investir no projeto estupidez eu falei sério. Porque a estupidez me livra da obrigação de ler jornais, acessar sites de notícias na internet e escrever algumas mal digitadas por aqui como uma espécie de “desabafo”. E até por coisas deste tipo que este “Grooeland” talvez tenha lá alguma vida útil, ainda.

Pois bem, três notícias nesta última semana me chamaram a atenção e certamente atraíram o seu interesse – assim espero. São notícias que demonstram bem como as coisas funcionam no Brasil.

A primeira notícia que chama a atenção é o reajuste do salário de nossos nobres parlamentares e ilustríssimo (a) presidente (a). A bolada no contra-cheque ( 61,8% de aumento) só mesmo a partir do dia 1º de Fevereiro. Ufa, ao menos nosso natal tá garantido, hein?

A segunda notícia está relacionada à primeiram de certa forma: em Salvador nossos incríveis vereadores aumentaram a verba de gabinete em 20%. Assim a prefeitura da cidade terá um gasto extra em 2011 de mais R$ 4 milhões para atender as necessidades de tão valorosa classe política que orgulha a todos os cidadãos. Tudo bem que os funcionários terceirizados das escolas não recebam há três meses, mas quem liga para esses pequenos detalhes?

E a terceira notícia provavelmente recebeu pouca atenção por parte do grande público, pois o assunto não desperta lá muito interesse: “Professor ganha 40% menos que a média de um trabalhador brasileiro com a mesma escolaridade”. Ora, mas ser professor é uma “missão”, um “sacerdócio” e mesmo um “ato de amor”. Logo, esse negócio de dinheiro não passa de mero capricho desta sociedade voltada para o consumo, certo, professor?

A pergunta que o Tiririca fez durante a campanha eleitoral – “Você sabe o que faz um deputado?” - é bastante interessante, não acham? E acho que agora o palhaço já tem uma boa ideia do que faz um deputado. Na verdade as atribuições de um deputado federal são diversas e importantes, desde aprovar o orçamento para saúde, educação, infra-estrutura e tantos outros setores a fiscalizar os atos do presidente da República. Um deputado estadual também desempenha(ria) funções relevantes, pois lida com os procedimentos legais que refletem – bem ou mal - no dia a dia dos cidadãos. Escolas e hospitais públicos, apenas para citar dois exemplos clássicos.

Mesmo com responsabilidades tão importantes, não consigo aceitar que um deputado federal ganhe a bagatela de R$ 26 mil mensais ( e as verbas de gabinete) enquanto um professor tenha que pular de escola em escola para tentar juntar uns caraminguás no final do mês.

Da mesma forma não consigo aceitar que reajustes salariais para professores sejam vetados ou votados com toda a má vontade do mundo por conta de “restrições orçamentárias”. Enquanto nossos nobres deputados votam o reajuste de seus salários ( incríveis 61% de aumento) rapidamente e praticamente por unanimidade, os professores precisam paralisar as atividades, negociar com o governo e, principalmente, enfrentar o descaso de nossos nobres parlamentares - estaduais e federais. E assim conseguir a categoria consegue, quem sabe, 4% de aumento dividido em duas vezes.

O senador Cristovam Buarque – que por vezes me soa um tanto oportunista no trato da educação, mas é tolerável pelo fato de manter o tema na pauta dos jornalões e no próprio Congresso – defende que o reajuste de 61,8% concedido aos deputados também seja concedido aos professores. Aí está um “efeito cascata” que eu gostaria de ver: reajustes de verdade para professores, médicos, policiais. Como isso não vai acontecer, escolha a desculpa:

- Nossos professores e policiais merecem todo o nosso respeito pela função que desempenham, mas estamos passando por restrições orçamentárias e...

- Infelizmente tivemos que cortar alguns recursos do orçamento de algumas pastas, mas vamos trabalhar para equilibrar os gastos...

Enquanto isso, a principal notícia – que eu ouvi em uma emissora de rádio - da Assembléia Legislativa da Bahia por estes dias foi que o retrato de um deputado já estava na galeria dos ex-presidentes da casa. Como em breve o reajuste para deputados também chegará por estes lados, é mais um motivo para que os eleitores baianos se orgulhem de nossa bela politicanalhice.

Eu no egocentrismo chamado twitter: www.twitter.com/jaimeguimaraess

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Escrita automática ou algo estúpido

Escrita automática: é o processo de produção de material escrito que objetiva evitar os pensamentos conscientes do autor, através do fluxo do inconsciente. Fonte: wikipedia.

Comprei um livrinho que vai me ajudar muito em 2011: “Como me tornei um estúpido”, de um tal Martin Page. Digo que vai me ajudar porque pretendo fazer um curso intensivo durante as férias, um curso de estupidez. Espero que neste período ( 1 mês) eu consiga desenvolver ao menos elementos teóricos suficientes para me tornar um estúpido e, assim, não me sentir deslocado da sociedade.

My light shines on! Me convenci que só mesmo sendo estúpido terei uma vida normal. Se bem que “vida normal” é algo não muito normal hoje em dia. Eu me olho no espelho e vejo um rapaz com parcos cabelos grisalhos e expressão cansada. Mesmo sem ter lido o livro já sei que uma das receitas para se tornar estúpido é trabalhar demais. Desculpem, calvinistas, mas é isso aí: “O trabalho é uma explicação muito melhor para a crescente cretinização que nos cerca do que até mesmo mecanismos claramente imbecilizadores como a televisão e a educação”. Eu sei lá se Bob Black ( deve ser humor negro) estava sendo irônico ou apenas zoando com a cara de todo mundo ao afirmar isso, mas eu levei a sério. Então estou no caminho certo para a estupidez ou cretinização ( ou cretinice) porque meu trabalho é no ramo da educação e tenho uma competitividade muito grande com a TV e outras formas de entretenimento cretino. Se meu nome fosse Antonio Banderas e tivesse as mesmas feições do galã espanhol provavelmente meu trabalho não seria tão chato e receberia mais atenção. E calma, Quakers e Pollyanas, eu não sou contra a educação, apenas sou contra a educação que está aí, percebem?

My light shines on! E se eu fosse famoso faria umas experiências bem legais com a opinião pública. Tem esse negócio chamado twitter e um monte de famosos e aspirantes a sub-celebridades postando frases e pensamentos diversos, além de links. Sigo alguns bem legais, mas acho que eles ousam pouco. Eu adoraria ter um milhão se seguidores do tipo que diz “amém” para qualquer bobagem que eu tuíte ( se esse termo não existe agora já existe aqui e para esta necessidade de expressão, não me interrompa com a gramática, ortografia e outras frivolidades num lugar onde as pessoas dizem “nóis vai” e “azivudê”) e isso é tão verdade que basta um destes famosos publicar um “Nossa, que calor, vou tomar banho mas antes soltar um barro” isso ganha centenas, milhares de repetições e o sujeito até recebe umas respostas do tipo “hahaha você é genial” ou “legal, também vou, vc é minha inspiração!”. Malditos comediantes stand-up alçados ao panteão da “genialidade cômica”, eu tenho é saudades dos velhos Trapalhões, do Bronco e da Velha Surda!

Pois bem, eu publicaria uma frase à la Jim Morrison chapado em Miami: “Vocês não passam de um monte de fodidos que gostam de ser comandados, bando de escravos!” U-lá-lá! Eu adoraria ver as reações a isso! “Genial, cara, genial!”; “Fodido é você, seu monte de merda!”; “Concordo plenamente com você, somos tudo isso aí mesmo!”. Me digam se isso não seria mais legal do que simplesmente publicar um “Nossa, a coisa no Rio tá pegando fogo hein?” e passar de engraçadinho?

E por que eu repito “My light shines on” o tempo todo? Sabe uma música chiclete que não sai da cabeça e fica tocando o tempo todo no refrão? Repeat infinito. E é uma canção gospel, suponho, que diz “eu estava cego, agora posso ver, você me fez um crente, fora de mim, minha luz brilha, minha luz brilha”. Aleluia, irmão! Sei lá se é gospel mesmo ou é mais uma peça de ironia de uma banda da qual o vocalista consumia todos os tipos de drogas possíveis e imaginárias, até Tang Uva com Miojo Galinha Caipira, uma combinação mortal. Yeah, my junk food shines on! Let´s have dinner!

E não tenho mais paciência para desopilar o fígado através das palavras. Eu quero mesmo é que chegue o primeiro dia de férias para tirar a guitarra do pó e tocar bem alto “School´s Out” do velho Alice Cooper. É tipo um ritual, sabem? Não importa que eu não saiba tocar absolutamente NADA na guitarra além de Knockin´s on Heavens Door do Slash ( Ei, Axl Enrolose, fuck off!) e Velouria dos Pixies, mas essa música do Cooper tem que sair logo quando dizem “ok, escravo, você está de férias! Descanse bastante para retornar daqui a um mês para que possamos dizer o que você deve fazer este ano para manter tudo exatamente igual, porque educação serve para isso, reprodução, nada de alteração. E se você tentar algo diferente, primeiro te diagnosticamos como louco, para que entre em descrédito. Isso elimina ameaças e se você insistir simplesmente aumentamos sua carga horária para te quebrar as pernas e torrar seu cérebro com trabalho, dever, responsabilidades e encargos ligados ao seu setor, somente. Entendeu?”

Entenderam? My light shines on! Tenho certeza de que Martin Page e seu livro me ajudarão, mas não tanto quanto a TV aberta. Esta, sim, fundamental para minhas pretensões. Tornarei-me um estúpido e esse texto estúpido é o começo desta fase. Mas em breve vocês não verão mais textos estúpidos por aqui, porque ando pensando em encerrar as atividades deste estúpido blog. Se vou dedicar-me à estupidez plena, não há mais necessidade disso aqui. Vou publicar apenas e tão somente vídeos de 20 segundos com alguma gag do youtube ou uma comédia stand up de um destes gênios que surgem por aí aos montes pela internet e TV. E deixa eu aumentar o volume My light shines on! My light shines on! Now I can see! I´m movin´ on up now! My light shines on!

Meu twitter => dê RT nas coisas estúpidas que postarei lá: www.twitter.com/jaimeguimaraess

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Relações descartáveis no ambiente on-line


Alguém já disse que o twitter é uma excelente ferramenta para indexação de notícias e funciona bem como um “clipping jornalístico”, o que concordo. Mas além desta boa utilidade o site também revela um traço curioso e já característico desta época em que vivemos: o descarte.

Fazemos parte de uma sociedade voltada para o consumo e as pessoas são bombardeadas a todo instante por peças publicitárias induzindo à compra de objetos e aparelhos mais “modernos” mesmo que não se tenha necessidade em adquiri-los – e aí está o grande desafio da publicidade: convencê-lo de que aquele celular que você tem há um ano e serve perfeitamente às suas necessidades é ultrapassado e você precisa de um novo modelo. Isso foi apenas um exemplo para mostrar como funciona esta dinâmica consumista.

O descarte é, portanto, estimulado a todo o momento. O que não “serve” mais é jogado fora, substituído por um novinho, mais moderno, até surgir outro modelo que cumpre as mesmas funções, no entanto tem um design melhor, mais bonito, chamativo – e isso não demora muito, afinal o consumidor precisa de estímulos.

Não é sem espanto que leio certos tweets (mensagens postadas no twitter) expressando o desejo de usuários – e não são poucos – de transferir certas funcionalidades da vida on-line para a vida real. É muito comum encontrar frases do tipo “Seria ótimo se tivesse um botão de bloquear na vida real” ou “queria ter uma tecla delete para deletar certas pessoas”. Em outras redes sociais tal desejo também é expresso e muitas vezes a palavra “faxina” é utilizada: “vou fazer uma faxina no meu MSN”. Citei especificamente o twitter porque nesta rede as pessoas costumam “escancarar em público" certas ideias, - e até desabafar na timeline - respondendo à pergunta do próprio site: “what´s happening?” (o que está acontecendo?); mas isso pode ser verificado em qualquer rede social, do orkut ao facebook.

É verdade que a impessoalidade é forte característica da contemporaneidade ( ou pós-modernidade, fique à vontade com os rótulos) e também a ideia de “descarte humano” não está tão distante de alguns acontecimentos que acompanhamos indignados pela imprensa há anos: índio queimado enquanto dorme na praça, empregada doméstica espancada em ponto de ônibus, manifestações de ódio a nordestinos, homossexuais agredidos de forma tola e gratuita. Estas pessoas agredidas são consideradas por muitos como “descartáveis”, aquele tipo de gente em que a tecla “delete” ou o comando “block” seriam muito bem vindas.

Evidente que há uma grande distância do moleque mimado de classe média que ateia fogo em um índio dormindo na praça a um simples usuário de MSN que deleta ou bloqueia um ou vários contatos. Não quero dizer que o sujeito que dá um “unfollow” no twitter vai sair por aí reproduzindo o mesmo em suas relações ditas “off line”; apenas ressaltar que as pessoas são tratadas como simples objetos que podem ser descartados com um simples comando, praticamente com prazo de validade nas redes de contato de fulano ou sicrana.

Claro, no dia a dia “offline” nós conhecemos várias pessoas com as quais simpatizamos ou não. As afinidades são complementadas por gestos que indicam uma amizade talvez duradoura ou antipatia à primeira vista - e alguns destes gestos, além da esfera visual, requerem uma proximidade que uma webcam não é capaz de transmitir. No entanto, seguir a lógica consumista do descartável para com as pessoas acaba por reduzi-las a simples reprodutoras de um universo - no caso, o “on line” - onde tudo é perene e não há muito interesse – ou paciência – na manutenção: o “novo” é o desejável, pois ele traz a ilusão de que as expectativas, finalmente, sejam atendidas. Até novos contatos on-line e novas faxinas. Conquistar, dentro do que se aparenta como “novidade” na rede não é tão difícil quanto manter as relações.

Cito uma expressão do sociólogo polonês Zigmunt Bauman: “Em outras palavras: mantenham abertas todas as opções. Não jurem fidelidade ´até que a morte os separe´ a nada ou a ninguém. O mundo está cheio de de possibilidades maravilhosas, atraentes, promissoras: seria loucura perdê-las por estar de pés e mãos atados em compromissos irrevogáveis”.

Não raramente as pessoas mais jovens surpreendem-se com os casamentos e relacionamentos duradouros e até mesmo com amizades que prevalecem ao longo de muitos anos. Obviamente que redes sociais como twitter, orkut e facebook não são responsáveis por todas as separações e rupturas que acontecem em tais relacionamentos; no entanto, elas parecem reforçar e até estimular, de certa forma, a fugacidade. Como é fácil colecionar “amigos”e descartá-los a um só clique do mouse!

Se quiser colocar neste rol o banalizado “eu te amo”, fique à vontade. E se você conseguiu chegar até o final da leitura deste texto sem dispersar pelas inúmeras possibilidades que a internet oferece, parabéns: agora, sim, pode descartá-lo tranquilamente.

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sábado, novembro 27, 2010

Considerações sobre o Rio de Janeiro, tráfico e corrupção

Difícil não se impressionar e se horrorizar com a guerra civil que vem acontecendo no Rio de Janeiro há alguns anos e que esta semana chegou ao ápice nos conflitos entre policiais e traficantes.

Também custa acreditar que em Salvador crimes bárbaros como adolescentes decapitadas e “balas perdidas” que acertam crianças dentro de casa estejam ocorrendo. O que aconteceu com a cidade maravilhosa e a terra da alegria, da felicidade e do axé, e que serão cidades-sede para a Copa do Mundo em 2014?

Este é o problema: quase nada aconteceu em termos de políticas públicas e inclusão. As drogas estão ligadas à humanidade desde o inicio dos tempos e até a Bíblia traz relatos de patriarcas “mandando ver” no vinho. Nativos da América Central e do Norte já utilizavam peyote (espécie de cacto) para suas visões e eram imitados pelos seus irmãos sul-americanos com diversas ervas alucinógenas; na Ásia, a flor da papoula deu origem ao ópio e por aí segue a história e muitos livros, discos e filmes que você leu, ouviu e assistiu foram inspirados por “viagens”.

Portanto, a repressão pura e simples em relação às drogas vai adiantar pouco, pois se trata de uma reação a um problema criado pela ausência do poder público em várias comunidades. Não estou dizendo que o princípio da legalidade ( polícia, projetos, normas) tenha que ser desprezado, nada disso; apenas que o presente modelo não passa de mais um paliativo que serve bem a coberturas midiáticas que ajudarão eleger políticos e fomentar a indústria de armas e segurança privada.

Educação, eis a solução! Devagar: a educação de qualidade é rigorosamente necessária e condição sine qua non para que um país possa ser classificado como desenvolvido; contudo, apesar da necessidade de se investimento e maior atenção ao setor, a educação não fará milagres se o modelo de responsabilidade continuar o mesmo, ou seja, apenas a cargo escola.

A partir daí surgem fetiches como “escola em tempo integral” esperando que a mesma resolva todos os problemas da sociedade, e a sociedade é composta por atores que precisam entrar no jogo e assumir suas responsabilidades. Fácil se eximir das mesmas sob o argumento simplista de “pago meus impostos” e fim de papo. Apenas um exemplo: o dono daquele bar sabe que é proibido vender bebidas alcoólicas a menores, mas o faz sem o menor constrangimento. E desnecessário reforçar aqui o papel dos pais em todo o processo de formação da criança e adolescente.

E investir na escola sem investir em políticas públicas adequadas e que ofereçam perspectivas para crescimento pessoal e profissional para milhares de jovens estudantes também não será a salvação. Os modelos de ascensão social no Brasil raramente estão ligados ao estudo e isso precisa mudar. Em muitos casos os jovens entram no mundo do crime atraídos justamente pelas “benesses” que o narcotráfico e o crime organizado podem proporcionar: poder e sexo.

A gênese de toda essa violência que acontece no Rio, Salvador e no Brasil de modo geral é também relacionada ao tráfico de drogas - além de tantas outras causas como a desigualdade histórica deste país - que mantém uma fronteira muito tênue com a corrupção. Não vi Tropa de Elite II ( na verdade, nem o I ) mas não é preciso especificamente um filme - que no caso deste sucesso do cinema nacional tem méritos - para perceber o Estado corrupto que se apresenta diante de nossos olhos todos os dias e às vezes – ou na maioria – sem reação diante de notícias de armamento pesado do exército nas mãos de traficantes do morro ou da favela. Obviamente tais armas não chegam via sedex.

Corrupção, claro. E as notícias sobre este assunto são tantas que passam e caem no esquecimento. Mas é bom lembrar de uma bem recente: na Bahia a Polícia Federal prendeu 7 prefeitos acusados de desviar verbas da merenda escolar e de medicamentos. E são tantas irregularidades em mais 20 municípios que o prejuízo pode chegar a R$ 60 milhões. Vejam que as verbas existem e são liberadas para atender certa necessidade, mas parafraseando Drummond, "tinha um interceptador no meio do caminho". Vários interceptadores, melhor dizendo.

Dentro do princípio da legalidade, a aplicação severa das leis contra o tráfico de drogas e corrupção deve continuar acontecendo nos morros e nas comunidades onde o tráfico domina, mas também em diversos condomínios de luxo, fazendas, mansões, coberturas, gabinetes políticos. Urgem políticas públicas adequadas, investimentos sérios e bem distribuídos em setores importantes como educação, saúde, esporte/lazer e cultura.

E tudo isso deveria acontecer independente de uma Copa do Mundo e de Jogos Olímpicos.

Na paz, siga-me no twitter: www.twitter.com/jaimeguimaraess

domingo, novembro 21, 2010

Lima Barreto (1917) explica o Brasil ( 2010)

(outra charge tosca do autor do blog. Mas o texto está bem melhor!)

Nestes tempos em que velhos e perigosos preconceitos ressurgem, tempos em que débeis mentais manifestam saudades da ditadura e filhinhos mimados da classe média encontram satisfação em agressões gratuitas ( ou não tão “gratuitas” assim), é bom resgatar um escritor desprezado no seu tempo por ser pobre, mulato e não estar nem aí para os rigores da linguagem “culta” e com a estética literária – e por conta disso suas tentativas de ingresso na Academia Brasileira de Letras foram frustradas.

Estou falando do carioca Afonso Henriques de Lima Barreto, ou simplesmente Lima Barreto, criador de clássicos de nossa literatura como “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, “O Homem que sabia Javanês e outros contos” e a sensacional sátira “Os Bruzundangas”, onde ele descreve com ironia cortante e sarcasmo feroz a sociedade brasileira daquele tempo e que, veremos, pouca coisa mudou desde 1917.

E é aqui que eu saio de cena, dando espaço para o grande Lima Barreto em uma passagem memorável de “Os Bruzundangas”. Colocarei alguns trechos do capítulo XX, que leva o título “A província”. Deleitem-se e arrepiem-se com a atualidade de Lima Barreto e respirem aliviados por, finalmente, este blog postar um texto de qualidade.

A PROVÍNCIA

Das províncias da Bruzundanga, aquela que é tida por modelar, por exemplar, é a província de Kaphet. Não há viajante que lá aporte, a quem logo não digam: vá ver Kaphet, aquilo sim! Aquilo é a jóia da Bruzundanga! (...)

Sempre achei curioso que a presunção pudesse levar a tanto, mas, em lá chegando, observei que podia levar mais longe. O traço característico da população da província do Kaphet, da República da Bruzundanga, é a vaidade. Eles são os mais ricos do país; eles são os mais belos; eles são os mais inteligentes; eles são os mais bravos; eles têm as melhores instituições, etc. etc. (...)

Domina nos grandes jornais e revistas elegantes da província a opinião de que a arte, sobretudo a de escrever, só se deve ocupar com a gente rica e chique, que os humildes, os médicos, os desgraçados, os feios, os infelizes não merecem atenção do artista, e tratar deles degrada a arte. (...)

O mal da província não está só nessas pequenas vaidades inofensivas; o seu pior mal provém de um exagerado culto ao dinheiro. Quem não tem dinheiro nada vale, nada pode fazer, nada pode aspirar com independência. Não há metabolia de classes. A inteligência pobre que se quer fazer tem que se curvar aos ricos e cifrar a sua atividade mental em produções incolores, sem significação, sem sinceridade, para não ofender os seus protetores. A brutalidade do dinheiro asfixia e embrutece as inteligências.

Não há lá independência de espírito, liberdade de pensamento.

A polícia, sob este ou aquele disfarce, abafa a menor tentativa de crítica aos dominantes. Espanca, encarcera, deporta sem lei hábil, atemorizando todos e impedindo que surjam espíritos autônomos. É o arbítrio; é a velha Rússia. E isso a polícia faz para que a província continue a ser uma espécie de República de Veneza, com a sua nobreza de traficantes a dominá-la, mas sem sentimento das altas coisas de espírito.

Ninguém pode contrariar as cinco ou seis famílias que governam a província, em cujo proveito, de quando em quando, se fazem umas curiosas valorizações dos seus produtos. Ai daqueles que o fizer! (...)

Havia muito ainda a dizer a respeito; mas bastam estes traços para os brasileiros julgarem o que é uma província modelo na República dos Estados Unidos da Bruzundanga.

LIMA BARRETO, Afonso Henriques de, 1881-1922. Os Bruzundangas.Porto Alegre: L&PM editora, 1998.

Concluído em 1917, “Os Bruzundangas” só foi publicado após a morte do escritor, em 1923. Como se vê, Bruzundanga em 1917 explica o Brasil em 2010.

Nem para Bruzundanga, nem para Maracangalha: www.twitter.com/jaimeguimaraess

segunda-feira, novembro 15, 2010

Vampiro: você conhece - ou vai conhecer - algum!


Nada de charge desta vez: apenas uma tosca ilustração vampiresca do autor deste sanguinário brog!

E não é que os vampiros estão novamente na moda? Eles estão por toda a parte: em livros, filmes, internet e até na política, pois recentemente o candidato à presidência da República pela oposição era bem parecido a um vampiro – dizem as boas e más línguas que é uma das piores espécies: o "Privatizus Mentirus Rotundus", mas essa é outra história.

O que falar destes estranhos seres que dormem em um caixão durante o dia e saem à noite por aí para atacar as pobres vítimas desavisadas que sempre ficam sozinhas em algum lugar do qual não encontrarão a saída e com a trilha sonora de suspense ao fundo? Absolutamente tudo já foi dito sobre estes bichos que inspiraram o Batman a sair por aí espancando os criminosos: alimentam-se de sangue ( igualzinho aos nossos políticos, empresários e membros "daselites"), não suportam alho, crucifixos e nem a luz solar. Como eles fazem para escovar os dentes e secar a roupa no varal eu não sei, mas são detalhes que qualquer fã de Crepúsculo ou Lua Nova, Cheia, Minguante poderá responder – espero, pois isso é absolutamente relevante para quem se interessa pelo tema.

Mas a lenda do Conde Drácula ou o vampiro de Bram Stroker é fichinha perto dos vampiros que nos cercam todos os dias. Os vampiros mitológicos sugam o sangue de suas vítimas para alimentarem-se; os vampiros da modernidade preferem sugar a auto-estima, o (bom) humor, a energia das pessoas.

Provavelmente você conhece algum em seu ambiente de trabalho, no seu bairro, em seu círculo social. Pode incluir em sua lista aquela vizinha fofoqueira que adora um "barraco". Tais vampiros estão sempre à espreita, torcendo e, se possível, até forçando pelo fracasso e pelos erros de suas vítimas potenciais. Muitos destes vampiros até encarnam alguma elegância digna de um Bella Lugosi para atrair aqueles que acreditam em suas palavras e atitudes aparentemente gentis.

E aí não tem alho, crucifixo ou estaca no peito que dê resultado. De repente a produção da pessoa no trabalho despenca, a auto-estima vai parar na Transilvânia e acontece o pior: ela se torna um vampiro também, imitando as mesmas atitudes “vampirescas” e tentando sugar a energia dos demais. Isso te pareceu familiar em algum momento? A chamava “mordida de vampiro” hoje pode resultar em assédio moral, síndrome de burnout, competitividade, depressão, estresse, avaliações de desempenho e produtividade, síndrome do Pânico, ansiedade, insônia, burocracia, indiferença e desprezo.

E o que fazer para se livrar destes seres absolutamente desagradáveis? Como provavelmente você não vai sair de casa com uma estaca de madeira e nem com um monte de alho nos bolsos, talvez a melhor coisa seja contratar o Van Helsing como segurança. Mas o velho caçador de vampiros deve cobrar muito caro e você só tem umas ações do banco Panamericano que não valem nem uma tele-sena. E agora?

É simples: vampiros não suportam luz. Sem ser piegas, apenas verdadeiro: cada indivíduo, até mesmo aquele que sofre as consequências das “mordidas”, possui uma luz própria, um brilho do qual o destaca em alguma atividade. Não importa se em menor ou maior intensidade ao vizinho chato ou colega de trabalho mala; o importante é recuperar este brilho, mantê-lo e saber que, para ser apagado, é preciso muito mais do que um Nosferatu invejoso que usa aparelho colorido e se faz valer de sua posição social ou cargo dentro da empresa para exercer uma patética “otoridade”. Ninguém, a não ser você mesmo, pode apagar este brilho!

Agora, se nada disso der certo, use o crucifixo para “tacar” na cabeça do vampiro chato...

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segunda-feira, novembro 08, 2010

Como os Black Eyed Peas mostraram que eu ando desatualizado!


Vida de professor atualmente não é fácil. Além de ter que se virar com a ajuda de custo que é chamada de “salário” e na maioria dos casos com uma infra-estrutura de trabalho inadequada, o docente tem que estar sempre atualizado com o que acontece ao seu redor. Nem sempre é possível, pois como Bauman se refere ao nosso tempo, vivemos uma “overdose de informações” ao passo que o profissional em educação vive uma “overdose de atribuições”.

E percebi por estes dias o quanto estou desatualizado. Ao final de mais uma aula e começo de longa jornada, uma aluna quis tirar uma dúvida sobre um nome em inglês. Não era nenhum termo relacionado à aula que tinha acabado de lecionar, mas o nome de um artista do qual ela pediu para que eu pronunciasse, pois ouvia em emissoras de rádio e TV vários locutores e apresentadores com pronúncias diferentes quanto a este nome - ou apelido ou sigla ou código de outro planeta: Apl. de. ap.

E agora? Como sair desta? Se a aluna, que é fã do grupo de hip hop Black Eyed Peas estava com dúvidas quanto à pronúncia deste...hã... nome, o que diria eu? Lógico que eu já ouvi falar sobre o tal grupo, principalmente da curvilínea (embora perca feio para nossas mulatas) vocalista Fergie, um espetáculo visual. Mas nunca prestei atenção nas músicas - felizmente, pois descobri um sample com "Misirlou", do genial guitarrista Dick Dale - e tampouco nos nomes dos componentes, com exceção da vocalista – que já dividiu o palco com o guitarrista Slash, ex-Guns n' Roses.

Com toda essa relação de informações, lembrei-me dos meus tempos de estudante e de como coloquei meu professor de inglês (vejam que coincidência!) em maus lençóis também com o nome - ou apelido ou sei lá o que - de um artista. Era bem no começo dos anos 90, o grunge ainda não havia sido devidamente descoberto e explorado pelas gravadoras e pela MTV - e eu ainda tinha cabeleira farta. A banda de rock do momento era o Guns n' Roses e esta desembarcou no Brasil em 1991 para os shows no Rock in Rio II.

O vocalista do grupo, um porra-louca excêntrico e brigão, atendia pelo nome – ou apelido ou código ou sei lá o que – de Axl Rose. O sobrenome “Rose” é fácil, facílimo para pronunciar e entender, mas e o primeiro nome do sujeito? Uns locutores de rádio diziam bem aberto “Áquicel”, outros vinham com “Équicel” e havia até quem dissesse “Éssel Rouse”. Pedro Bial e Mauricío Kubrusly, repórteres da Globo que cobriam os shows, não ajudavam muito: o hoje guru dos Brothers dizia “Áquicel” e o barbudinho, no Fantástico, dizia “Équicel”.

Quando mostrei ao meu professor o nome – ou código ou sigla ou sei lá o que – do vocalista do Guns, ele também não soube responder. Não creio que desconhecesse a banda, pois até as emissoras de pagode tocavam a balada “Patience” o tempo todo e o vocalista era tema de reportagens no Fantástico. Não me lembro se também no Jornal Nacional, pois certamente Cid Moreira pronunciaria o nome de Mr. Rose direitinho.

Enfim, meu professor se embaralhou com o “Axl” e tempos depois eu me embaralhei com o nome – ou sigla ou...ah, você já sabe! - Apl.De.Ap. “Apl” de Apple? “Ap” de “Ape”? Pronuncio letra por letra incluindo os pontos? Recorri ao youtube ( viu, geraçãozinha mais nova? No meu tempo um tal “videocassete” era o máximo quando não “engolia a fita”) e vi algumas pronúncias. Não chegam a um consenso e fiquei imaginando os nomes que virão em um futuro próximo com tanta criatividade!

Provavelmente seja por isso que eu ainda hoje esteja desatualizado – que vergonha, professor! - e continue ouvindo coisas como Rolling Stones, Beatles, The Doors, Queen, Pink Floyd e outros da “velha guarda”: ao menos não há dúvidas quanto aos nomes de John Lennon, Mick Jagger, Jim Morrison, Freddie Mercury, Roger Waters... tudo bem, pode ter uma dúvida ou outra com o tal Paul “Macartinei”, mas diante de Axl e Apl.De.Ap, dá até pra cantar numa boa “you know, you know my name”...

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domingo, outubro 24, 2010

Entrevista com o terrorista da bolinha de papel

O dossiê acima mostra que o grupo terrorista das bolinhas de papel é muito bem organizado. Clique na imagem e VEJA como a democracia e a liberdade podem estar em perigo em nosso país.

Diante de tanta polêmica envolvendo o caso da bolinha de papel acertando o cocoruto do Zé Vampir Serra e o papelão do Jornal Nacional (leia-se Ali Kamel, diretor de jornalismo da Grobo) ao chamar um criminalista decadente para provar sabe-se lá o que, resolvi praticar o que anda em falta nas redações jornalísticas atualmente: jornalismo investigativo!

E foi graças aos gramp...digo, fontes, eu encontrei o terrível terrorista codinome “Juquinha”, de 9 anos de idade, especialista em armas mortíferas como bolinhas e aviõezinhos de papel. Aproveitando um breve intervalo no videogame, fiz uma entrevista com este ignóbil terrorista.

Foi você quem arremessou a bolinha de papel atingindo o candidato à presidência José Serra?
Claro que não, tio! Eu não faria uma coisa tão amadora, sou profissional.

Explique melhor, o que é ser um profissional em bolinha de papel?
É assim: o arremesso até que foi bem maneiro e atingiu o alvo. Mas a trajetória percorrida pela bolinha ficou mal feita, o cara que atirou não calculou corretamente a parábola e por isso acertou na lateral do cabeção do Serra, não no centro. O mané deveria ter calculado f(x) = ax2 + bx + c e considerar que g=10 m/s2 para um arremesso perfeito!

Puxa, mas precisa de tudo isso?
Claro, né, tio? Se quer fazer uma coisa, então tem que fazer bem feita! Aquele arremesso fez só uma coceirinha na careca do coroa!

Você é conhecido por seu talento em produzir bolinhas e aviõezinhos de papel para que sejam utilizados como armas. Quando começou?
Começou na segunda série, com uma professora chata que eu tinha. Percebi que fazer uma bolinha de qualquer jeito não adiantava, então resolvi desenvolver técnicas mais legais.

O que é preciso para uma bolinha de papel ser eficiente como arma?
Primeiro não é com qualquer papel. Esses papel (sic) de folheto que dão nas ruas não presta. Papel higiênico só serve se for molhado. O melhor papel ainda é o de caderno, mas se for de livro didático de São Paulo é muito melhor, é perfeito!

Por que o papel dos livros didáticos de São Paulo é o melhor para bolinhas de papel?
Pesam mais porque são livros que trazem palavrões, tem linguagem pesada.

Existe algum alvo que você atingiu e não foi bem sucedido, ou seja, a vítima não saiu terrivelmente ferida como o candidato José Serra?
Sim: professores. Eles aguentam tudo, é impressionante. As bolinhas de papel e aviõezinhos nem fazem mais efeito neles. Um grupo rival ao nosso passou a tacar(sic) cadeiras e carteiras nos professor(sic), mas teve outro grupo que foi mais feliz: mandou a polícia pra cima dos professor! Fiquei com inveja! Ô, tio, agora chega, quero jogar o New Super Mario, falô?

Saí daquele apartamento de classe média cheio de dúvidas existenciais: estaríamos criando um monstro? Até que ponto aceitaremos tais agressões que colocam em risco nossa democracia? Um pequeno monstro como o Juquinha pode se transformar em um flagelo da humanidade, já pensou se Bin Laden o recrutasse para a Al Qaeda? E se hytyghbyubjh

Nota do editor do Grooeland: nosso repórter digitava essa matéria em um notebook durante o intervalo em uma escola quando foi atingido na cabeça por um apontador vazio e perdeu os sentidos. Levado para a emergência mais próxima do bairro periférico onde estava, conseguiu marcar uma tomografia para Maio de 2011. Esperamos que sobreviva até lá e continue prestando bons serviços para o blog e o jornalismo.

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segunda-feira, outubro 18, 2010

A baixaria do segundo turno das eleições no Brasil

(charge feita às pressas: não me excomunguem ou digam que estou "possuído")

Houve um tempo que minha caixa de entrada do e-mail era inundada por slides de power point com lindas mensagens otimistas com um fundo musical do Kenny G, fotos de mulé pelada fazendo coisas que nem vendo se acredita e diversas piadas politicamente incorretas. Hoje, no entanto, tenho até medo de acessar o e-mail e deparar com a baixaria do segundo turno das eleições em nosso Brasil de amor eterno e paz no futuro.

Faço até um apelo aos meus amigos e spammers que voltem a enviar piadas, mulheres nuas em poses ginecológicas, mensagens de Chico Xavier, o que for, mas chega desses e-mails com “Dilma satanista”, “Mônica Serra fez aborto”, “Dilma assassina”, “Serra Nazista” e outros tantos com o mesmo teor. Esse tipo de “verdade” não vai determinar meu voto em A, B ou N de “nulo”. O que iria determinar a minha escolha, isso sim, seriam as propostas sérias e plenamente realizáveis para o país. E são estas que fazem falta neste pleito eleitoral.

Em um de seus raros momentos felizes, a colunista Eliane Cantânhede, da Folha de S.Paulo, referiu-se a estas eleições como uma espécie de Fla x Flu. E olha que isso foi escrito ainda no primeiro turno, porque agora, no segundo turno, a coisa toda chegou aos altares, aos templos, aos padres e pastores que pelo visto tem saudades da idade média. Sim, a eleição para presidente do Brasil pode ser decidida graças à religião. E você aí achando que só o Irã e aqueles países do Oriente Médio são intolerantes e fanáticos que pautam suas ações em um livro sagrado.

Já havia um direcionamento. Na propaganda política era muito comum ouvir candidatos a deputado estadual e federal utilizarem o “eu sou cristão” para angariar votos. O segundo turno começou com a questão do aborto sob o viés religioso e a partir daí entraram na parada padres, pastores e fiéis de várias denominações com panfletagem, espaço na TV, missas, cultos e etc. Até mesmo setores da direita radical e ligados à religião (mais propriamente à Igreja Católica) reapareceram de forma até surpreendente para quem prefere ficar nos "bastidores".

Muitos padres deveriam se preocupar mais com o que acontece nas sacristias, nos seminários e conventos católicos, enquanto vários pastores deveriam explicar melhor de que forma conseguem juntar tantos tesouros na terra. Dois assuntos bons para discutirem: fim do celibato e fim da imunidade de qualquer imposto sobre a renda e patrimônio das igrejas – o que inclui aí os dízimos e ofertas.

A história está aí para mostrar: igreja se metendo em negócios do Estado nunca deu muito certo. Dizem até que o Estado é laico, mas peguei uma nota de dé real ( a que restou para passar o mês) e lá pode-se ler "Deus seja louvado". Eu trocaria para "Que Deus nos ajude".

O PAPEL DA IMPRENSA

Dia desses o (considerado) novo guru, filósofo e analista político da internet, Marcelo Tas, publicou em seu twitter: “candidato a presidente que reclama da mídia é como jogador da seleção que reclama da bola, né não?”

Considero Marcelo Tas um excelente comunicador, muito inteligente e criativo, mas foi bastante infeliz nesta afirmação – e vejam que se trata de uma pessoa que vira e mexe está em alguma palestra falando do papel das novas tecnologias da informação e comunicação também no jornalismo.

Só mesmo muito ingênuo (ou achar que os outros são ingênuos) para não acreditar que a imprensa – e mídia neste novo cenário tecnológico – não influencia de alguma forma os resultados de uma eleição. A própria veiculação das famosas “pesquisas eleitorais” nas TV, jornais e revistas é um bom exemplo: como o brasileiro, em boa parte, vale-se muito pela emoção em tudo o que faz, o pleito eleitoral é tratado como uma partida de futebol. “Não voto no candidato X porque ele vai perder, tá mal nas pesquisas. Vou perder meu voto”. Certamente você já ouviu algo parecido.

Poderia citar aqui tantos outros exemplos de como a imprensa e esta nova mídia interferiram no resultado de uma eleição e nos rumos políticos do Brasil, mas não vem ao caso neste momento. A questão que fica é a seguinte: imprensa e jornalistas podem tomar partido e usar seus poderosos veículos de difusão da informação em prol de um grupo político ou candidato(a)?

Neste caso me lembro das conversas que tive com o amigo e jornalista Renan Barreto. Essas publicações e canais que fazem parte da “grande imprensa” são empresas também. E como toda empresa, tem seus interesses. Uma editora que publica revista semana também fornece livros paradidáticos para escolas públicas, apenas para exemplificar. Logo, estes jornalistas e colunistas são empregados da empresa, que traça uma linha de conduta e deve ser seguida. É falta de ética e vai contra os princípios de suposta imparcialidade que deveria existir na imprensa? Tudo isso e muito mais, só que é como a molecada diz: “o sistema é bruto e injusto, mano”.

E quem deveria resgatar e questionar todo esse sistema? Eu, você, todos os usuários da internet, que rompeu com velhos modelos, padrões e paradigmas de informação. Quem esperava que o twitter, apenas para citar esta ferramenta, desempenhasse o mesmo papel visto nas eleições dos EUA pode ter caído do cavalo, ou da baleia. Sim, aqui no Brasil o uso é bem maior - o brasileiro é fanático por redes sociais - mas para qual finalidade? Pelo o que se vê, quem acessa o microblog já tem suas posições políticas bem definidas. Sim, houve a “Onda Verde”, mas não conseguiu levar sua candidata ao segundo turno e nem superar o impressionante número de abstenções (mais de 24 milhões de eleitores) no primeiro turno. Lá, nos EUA, é bom lembrar, o voto não é obrigatório e o papel decisivo do twitter foi justamente mobilizar sobretudo jovens ao comparecimento às urnas. Deu certo. E aqui, no feriadão que cai justamente no dia da eleição, dará certo? Qual o papel do twitter e da internet nestas eleições brasileiras? Lembrando que a internet é a ferramenta, quem a utiliza é um ser humano. A não ser que o seu papagaio...

Continuamos como Star Wars: RT em quem é “do bem”, unfollow em quem é “do mal”. Confesso que não é fácil, diante do turbilhão de informações, não se deixar levar por momentos de empolgação no twitter quanto às preferências por candidato A ou B – e eu mesmo me deixei levar por alguns destes momentos, faço aqui o mea culpa.

O fato positivo, se é que podemos chamá-lo assim, é que finalmente muitos colunistas e jornalistas “mostraram a cara” para valer. Esses não enganam mais, independente de seguirem a "ordens da empresa" ou não - mas a julgar o empenho em defender A ou B, nem precisavam da ordem.

MEU POSICIONAMENTO E UM OU DOIS PITACOS

Há dois anos escrevi isso sobre José Serra: “Serra pode ser uma liderança regional mas falta muito para se tornar relevante a nível nacional”. E continuo achando a mesma coisa, apesar do segundo turno. Não gosto do modo que ele governa (vide SP) e tampouco das ideias que defende e do modelo de governo que ele propõe (vide PSDB/DEM).

Também tenho sérias, seriíssimas restrições ao PT. E isso piorou ao sentir na pele o péssimo desempenho do governador Jacques Wagner aqui na Bahia em relação à área da educação. E Dilma Rousseff está muito, muito distante de ser a candidata dos meus sonhos.

Mas Serra, definitivamente, não tem meu voto. Além de suas propostas que eu julgo demagógicas ( 400 km de metrô por todo o Brasil e dois professores em sala de aula, dentre outras), duas afirmações do candidato me chamaram a atenção: 1) quer construir um governo acima dos partidos – e Aécio Neves teve que “apagar o foco de incêndio” e 2) paz no campo sem o MST.

Se estamos em um país - ao menos no papel - democrático e que elege seus representantes através do voto direto, um presidente deve respeitar isso, como deve respeitar também a existência do MST. Que tenhamos nossas divergências com os métodos utilizados pelo movimento dos sem-terra, mas deixar nas entrelinhas que basta exterminar o MST para se chegar à paz no campo é tão ingênuo quanto mentiroso. Ou será que o candidato esqueceu dos inúmeros casos de conflitos envolvendo grilagem de terra, pistolagem, trabalho escravo, extermínio de índios e reservas ambientais pelos campos do Brasil e do papel da bancada ruralista ao defender certos interesses que vão contra a reforma agrária?

Isso não significa, entretanto, que meu voto já é da candidata Dilma. Ainda tenho a opção – legítima – do nulo/branco. Ainda estou decidindo e não gostaria que meu voto fosse algo do tipo “de todos os males, o menor”.

A verdade é que, parafraseando o presidente Lula ( nele eu votaria, por mais contraditório e estranho que possa parecer, mas é assunto para outra ocasião), “nunca na história deste país” tivemos uma eleição presidencial com candidatos tão inexpressivos e com tanta sujeira e baixo nível como esta.

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quarta-feira, outubro 13, 2010

Mineiros Chilenos e o resgate: uma breve e tola reflexão

E depois, o que farão com a mina San José, no Chile?
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A menos que você também estivesse debaixo da terra em um deserto não saberia do já famoso resgate de 33 homens soterrados em uma mina que desabou no Chile. Foram 69 dias de angústia, medo e sem mulher, cerveja e futebol ( como eles conseguiram?) até que uma cápsula percorresse um túnel cavado até alcançar os mineiros, em uma profundidade de 700 metros.

E teve de tudo no resgate, até mesmo políticos louquinhos por uns holofotes – e que tal o sorriso colgate do presidente do Chile, Sebástian Piñera, ao anunciar que cumpriu a promessa de trazer os mineiros à superfície “sãos e salvos”? Ainda bem que no Chile não tem IBOPE e DATAFOLHA: “ As chances dos mineiros saírem vivos é de 50%, com margem de erro de 5% pra mais ou pra menos”. Dizem por aí que os presidentes do Atlético-MG, Goiás e Atlético Goianiense já entraram em contato com o colega chileno. O Flamengo saiu na frente e quer contratar...a cápsula!

A imprensa esteve cobrindo tudo, absolutamente tudo o que acontecia em Copiapó. Só faltou mesmo aparecer por lá a Dilma e o Serra. Mas em seu ágil trabalho de coleta de informações, os jornalistas conseguiram histórias curiosas. Alguns mineiros ouviam Elvis Presley e Bob Marley para aliviar a tensão. Ao menos não escolheram Rolling Stones, não podiam correr o risco de ouvir “Under my Tumb”.

E que tal a esposa que descobriu que o marido mineiro tem uma amante? E descobriu lá mesmo, em Copiapó, durante o resgate. A esposa “oficial” já afirmou: ou ela, ou eu. Não se surpreendam se daqui a alguns dias esse mineiro voltar pro buraco e não querer sair mais de lá.

Falando sério agora, realmente foi de impressionar a capacidade de adaptação e sobrevivência destes homens em um ambiente tão inóspito por mais de 2 meses. Mesmo com o fato de serem pessoas já acostumadas a trabalhar neste ramo perigoso que é a mineração a grandes profundidades, isso demonstra o quanto o corpo humano ainda é capaz de surpreender.

O que me deixou impressionado também, afora a complexa operação de resgate e a resistência destes homens, foi algo banal: a necessidade dos mineiros usarem óculos escuros quando apontassem na superfície. Nada mais óbvio, afinal depois de 69 dias com luz artificial e fraca, as pupilas estavam muito dilatadas e sem proteção poderiam sofrer danos terríveis às retinas.

Ao tomar conhecimento deste dado, filósofo de meia-tigela que sou, lembrei-me do mito da caverna de Platão. Homens que não saíam da caverna e só enxergavam as sombras, as imagens projetadas na parede: quando um destes homens saiu e descobriu que havia mais no mundo e na vida do que sombras, foi ignorado e acabou sendo morto pelos demais ocupantes na caverna, que preferiram ficar nas sombras.

Interessante que a luz cega, por alguns momentos. Sair das trevas depois de tanto tempo e encontrar a luz causa um impacto, seja ele físico ou psicológico. E por conta deste impacto, uma mudança na concepção de como enxergamos ( sim, um trocadilho) a vida, muitas pessoas preferem permanecer na caverna. Ou no fundo de uma mina. Alguns querem ser resgatados para ver a luz do sol; outros tantos se acomodam com uma situação nas profundezas e não querem saber de resgate, luzes, impactos ou mudanças. Adaptar-se à luz e tudo aquilo que ela pode oferecer em contraposição a sua ausência parece uma escolha simples, mas tente relacionar esta “luz” com o cotidiano e verá muitos que a desejam, mas a maioria prefere continuar verdadeiramente como está: soterrada, apesar de certo padrão de discurso em tom "otimista" - convidados a embarcarem na cápsula, recuam.

Não foi uma grande filosofia, na verdade essa pataquada toda nem pode ser chamada como tal. Peço desculpas aos verdadeiros pais da matéria, mas se até apresentador de Big Brother já foi chamado de “filósofo”, eu posso arriscar umas bobagens de vez em quando. Não precisam me atirar na mina San José por causa disso, não represento nenhum risco!

Ae, mina, me segue ae, num é fundo do poço naum: www.twitter.com/jaimeguimaraess

segunda-feira, outubro 04, 2010

Pior do que tá, fica. E não me surpreende.

(charge de minha autoria, pra variar. Pior do que tá, ela não fica, clique para visualizá-la melhor)

Não me surpreende a eleição de Tiririca com mais de 1 milhão de votos para Deputado Federal. O palhaço está ligado ao entretenimento e é justamente isso o que boa parte de nossa sociedade deseja. Por isso costumo dizer que vivemos na chamada “Sociedade do Entretenimento”.

Sociólogos, cientistas sociais e acadêmicos que aqui pousarem certamente não concordam com tal premissa. Preferem o termo “Sociedade da Informação”, o que não é equivocado visto a facilidade e quantidade de informações que circula por aí. Mas a questão é o que fazer com tudo isso. Além do mais, o povo não consegue lidar com esse bombardeio de dados, jingles, pesquisas, rostos sorridentes, santinhos, propaganda incessante e no meio disso tudo distinguir o que é jornalismo sério e material de campanha.

Isso explica em parte certas bizarrices como Weslian Roriz indo para o segundo turno no DF. Ou um Maluf obtendo quase meio milhão de votos em SP e apenas aguardando recurso da justiça para assumir seu cargo. “Ficha Limpa” para que? É verdade que não seria necessário haver uma lei neste molde se acaso boa parte dos eleitores soubesse o que é cidadania – e enquanto isso não acontece, a lei é interessante para o processo de amadurecimento político do brasileiro. Mas pelo o que se viu nestas eleições tanto o entendimento do que seja cidadania quanto o amadurecimento político ainda estão bem distantes - apesar de alguns políticos da velha guarda não conquistarem êxito nas urnas, como Marco Maciel, Jarbas Vasconcelos e Tasso Jereissati.

Tiririca é entretenimento, da mesma forma que Romário e Bebeto, eleitos no Rio de Janeiro e Netinho de Paula, que por muito pouco não foi eleito senador em São Paulo. Outras figuras ligadas à TV, como o apresentador Wagner Montes, o ex-BBB Jean Wyllis e o filho do apresentador Ratinho também foram eleitos. Na Bahia, mesmo sem ser eleito, o ex-boxeador Popó obteve mais de 50 mil votos para o cargo de deputado federal. Isso sem falar de candidatos ligados à alguma corrente religiosa e que possuem intimidade com a TV, como Garotinho, no RJ, e a farsa demagógica ( e nada pedagógica) de Gabriel Chalita, ambos muito bem votados e eleitos.

A televisão no Brasil tem um poder tão grande de penetração nos lares que acaba adquirindo um status inigualável: um fato só adquire importância se o mesmo é exibido pela TV. A mesma coisa acontece com as pessoas. Não é à toa que há milhares de inscritos todas as vezes que a Rede Globo abre chamada para o Big Brother. O “aparecer na televisão” é quase como o “existir”. Daí o desespero das “sub celebridades” sumidas e falidas que buscam por mais alguns minutos de “fama”.

Evidente que apenas a exposição na TV não garante a eleição. Fosse assim o Kiko e o Leandro do KLB seriam eleitos e tantos outros “famosos”. A história toda é ver o circo em que se transformou a política brasileira e quantos destes “famosos” se lançaram como candidatos conquistando muitos votos: Batoré com 22 mil votos, Marcelinho Carioca com mais de 60 mil votos e Simony com quase 7 mil eleitores votando na ex-Balão Mágico. Todos em SP, considerado o estado mais rico e desenvolvido do Brasil.

É exatamente daí que aparece um Tiririca. Quando assistir e votar no paredão do BBB ou da tal “Fazenda”, lembre-se que você pode alimentar o sonho de alguns dos participantes destes programas quando contribui com os altos índices de audiência. Sei que você tem discernimento para separar o entretenimento da política séria, mas muitos não conseguem estabelecer essa distância. Aí falta orientação educacional, políticas de esporte e lazer e incentivo à cultura, só para começar.

E tantos brasileiros falam em mudança... mas mudança exige um grande esforço, não apenas no sentido de trocar objetos de lugar ou cargos: é preciso mudar certos comportamentos, abandonar alguns hábitos e rever vários conceitos. Inclusive o fato da “Festa da Democracia” ser tratado apenas como se fosse uma festa onde muita gente faz competição de “som mais alto” na rua, enche a cara de cerveja e emporcalha a cidade com “santinhos” espalhados pelas vias. Será que boa parte dos brasileiros realmente deseja mudança?

Ou prefere algo como “do jeito que está, fica”?

PESQUISAS

Mais uma vez o papel dos institutos de pesquisa em uma eleição foi patético. E novamente na Bahia erraram feio: o candidato ao senado César Borges liderava em todas as pesquisas de intenção de voto com algo em torno a 30%; no entanto, um dos poucos remanescentes da tropa de choque de ACM obteve apenas 13% dos votos válidos, muito distante dos primeiros colocados.

Não entendo nada sobre estatísticas e metodologia de pesquisa. Mas está claro que os institutos precisam rever seus métodos. A credibilidade está comprometida e o trabalho para recuperá-la não será fácil. É o que pensam 98% dos visitantes deste blog segundo o DATATROLHA. Brancos, nulos e indecisos somam 1% e Plínio de Arruda tem 1%.

PARA DESCONTRAIR...

Levy Gato Félix ficou atrás até do Eymael, o Democrata Cristão. Proponho para o próximo pleito a união dos dois candidatos e até imagino a cena: um aerotrem tocando o jingle do Ei-Ei-Eymael/ o democrata cristão / Para transporte eficiente / vote Eymael e Fidelix...

Aqui na Bahia não adiantou a militância dos moleques que andam por aí com a camiseta estampada do Che Guevara – e não são poucos: o candidato Che Guevara (PRP), obteve apenas 335 votos para deputado federal; Bira do Jegue (PSDB) chegou à impressionante marca de 483 votos e vai ter que continuar com o jegue, nada de carro oficial; Carlos do Restaurante (PSOL) teve 151 votos e a certeza de que precisa melhorar a comida em seu restaurante se quiser mais votos; Jean Nanico (PTB) conseguiu 5 mil votos, o que não é pouca coisa pra um nanico.

Pior desempenho mesmo foi do candidato Carlinhos dos Remédios (PDT), com 0 voto. Dizem que ficou tão ansioso na noite anterior às eleições que resolveu tomar um remedinho, exagerou na dose e foi parar no hospital. Não fosse por isso teria 1 voto.

E a constatação de que Pelé estava correto: brasileiro não sabe votar. Como podemos admitir a “Mulher Pêra” com 0 voto? Isso, sim, um absurdo, uma afronta a uma BOA candidata, vejam só, que país é esse, que coisa...

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domingo, setembro 26, 2010

E vai rolar a festa da "democracia"!

No próximo domingo, dia 03 de Outubro, teremos aquilo que o William Bonner e demais paladinos do showrnalismo tupiniquim adoram dizer: "a festa da democracia"! O pleito eleitoral que definirá o futuro do Brasil nos próximos 4 anos! ( toca a vinheta celestial “ohhhh”)

Uma festa da qual eu, você e o povão em geral não é convidado e sim forçado a comparecer, sob pena de multa e diversas outras retaliações que só um regime democrático como o nosso pode conceber. E neste ano de 2010 compareça à seção eleitoral com toda a paciência do mundo, pois teremos que “escolher” presidente, senador, governador e deputado estadual e federal. É isso mesmo que você imaginou: filas, filas e mais filas. Mas não desanime, olhe para aquele mesário e pense que poderia ser pior o seu domingão.

Neste sábado eu resolvi tomar uma boa dose de coragem e assisti ao horário político – que de gratuito não tem nada – na TV. A intenção era dar boas risadas com os candidatos bizarros que botam a cara (de pau) na televisão para pedir votos e descolar uma boquinha na política. Claro, para que serve um horário político na TV senão observar este lado ridículo de que hoje a política virou uma espécie de trampolim para a ascensão social de qualquer Zé Mané candidato? As propostas, quando são exibidas, são pífias e demagógicas – e não estou falando dos palhaços, transformistas, cantores e atores rebaixados ao mundo das sub-celebridades, estou falando daqueles políticos considerados “sérios”.

Cito como exemplo a disputa para governador no estado da Bahia de Todos os ex-Magalhães. Como trabalho na área de educação, presto mais atenção às “propostas” para este setor e quando tomo conhecimento do que “nossos” candidatos pensam sobre o assunto só fortalece a minha tese que discorda do grande filósofo Tiririca: pior do que está, ficará, pequeno gafanhoto!

Vejamos: o atual governador, candidato à reeleição, defende continuar com o modelo que fez o país avançar, blábláblá. Para os professores o recado é claro: vai continuar tudo do jeito que está e o que já era ruim conseguiram piorar; outro candidato, o segundo colocado nas pesquisas, promete o “ensino médio em tempo integral”. A escola em tempo integral é o fetiche de vários candidatos e não aparece um jornalista com os culhões para perguntar: “Que escola, candidato? Essas escolas com problemas de infra-estrutura, salas lotadas, com profissionais desvalorizados, uma escola que ninguém aguenta mais?”.

Mas a “melhor proposta” de todos vem do terceiro colocado nas pesquisas de intenção de voto para governador da Bahia: uma poupança estudantil anual no valor de mil reais a ser concedida aos melhores alunos do ensino médio. Ao saber dessa “proposta”, meu tio Zé deu um pulo e exclamou: “Quero voltar a ser aluno! Chega dessa miséria de aposentadoria!”.

Se vocês repararem no discurso de vários candidatos aí do seu estado, sejam eles de “esquerda”, “direita” ou seguidores do Enéas, sempre há propostas vinculadas a incentivos financeiros pro povão. Não considero que o bolsa família seja um mau programa - e eu o defendo por se tratar de um país com profunda desigualdade histórica e programas de transferência de renda são necessários; no entanto quando mais propostas atreladas ao aspecto financeiro chegam à área educacional, o pensamento que não sai da minha cabeça é o seguinte: “salve-se quem puder, quero é grana, a escola e o aprendizado que se danem”.
É verdade que tanto alunos como professores não aguentam mais o modelo atual de escola – com honrosas exceções – e justamente por isso o olhar destinado à educação deveria ser bem mais amplo, em um projeto consistente a médio e longo prazo resgatando a função da escola. O incentivo ao estudo através de bolsas tem a sua importância ( lembre-se do ensino superior e pesquisas) e é claro que dinheiro é importante e necessário, sobretudo para a valorização do profissional de magistério, mas é apenas um fator dentre tantos que para se atingir uma educação de qualidade. E todas as propostas apresentadas pelos candidatos para o setor são demagógicas, genéricas ou sobretudo assistencialistas.

É por isso que não dá para se animar com esses programas políticos na TV. Só vale mesmo pelo lado cômico. E não dá para se animar também com essas eleições. Não me surpreenderia nem um pouco com a vitória do Tiririca, do Romário, do Kiko do KLB, Popó, Mulher Pêra, Léo Kret do Brasil, Netinho de Paula, Moacyr Franco ( medo!) e outros candidatos bizarros para seus cargos. Não estamos mais falando de política, estamos falando de entretenimento – e disso eles entendem.

Então ficamos assim: esses candidatos oferecem o circo e os candidatos “sérios” oferecem o pão. E nos veremos na semana que vem numa festa de arromba... e nem queira saber o que arrombarão caso não confirme a vossa ilustre presença!

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segunda-feira, setembro 20, 2010

Neymar, o monstro!

Esta charge foi publicada na revista Carta Fundamental na Escola, de Agosto de 2010. Agradeço ao Armando Maynard pela informação – a revista entrou em contato comigo e autorizei o uso da ilustração. Grato!

“Os robôs, programados por engenheiros, são sólidos na defesa e velozes no ataque. Jamais se cansam nem protestam, nem perdem tempo com a bola: cumprem sem chiar as ordens do técnico e nem por um instante cometem a loucura de acreditar que os jogadores brincam. E nunca dão risada”.
Eduardo Galeano, "Bocas do Tempo"

Neymar invade a área. Dá um chapéu no zagueiro e é derrubado. Pênalti. A torcida do Santos vibra. O garoto vibra também e pega a bola. Quer completar o serviço.

Do banco, vem a ordem do técnico: é para outro jogador bater a penalidade. Neymar não entende. Quer fazer o gol, é atacante, fez uma bela jogada que deu origem ao pênalti. Acata a decisão do treinador. Frustrado, xinga o treinador. Xinga o zagueiro capitão do time que chamou-lhe a atenção depois de um gol perdido e firulas desnecessárias. Xinga Deus e o mundo.

O que aconteceu, afinal? O diagnóstico foi feito pelo técnico adversário, depois da partida em que saiu derrotado: “Estamos criando um monstro”.

Um monstro. E o termo pegou: Neymar, o Monstro.

O Santos puniu o jovem atleta pela atitude indisciplinada. Corretamente, afinal há regras que devem ser cumpridas e uma hierarquia a ser respeitada. O treinador o puniu deixando-o de fora da partida seguinte. O jogador, constrangido, pede desculpas em público, no vestiário, na reunião com os jogadores, no treino coletivo, no twitter, desculpe, desculpe, desculpe!

Mas não é o suficiente. É um monstro.

É exposto ao massacre. A opinião pública sentenciou: “terá carreira curta”, “é um mau caráter”, “é o novo Bruno”. Todos indignados com a atitude do garoto que completou 18 anos, recém milionário, assediado e imaturo, uma combinação explosiva sem a orientação adequada – e absolutamente necessária, tanto quanto a reprimenda, pois ninguém aqui está defendendo “passar a mão na cabeça” do garoto. Mas não importa, não há meio termo: trata-se de um monstro!

Romário faz propaganda ajudando a vender cerveja. Ronaldo, Luís Fabiano e tantos outros fizeram propaganda ajudando a vender cerveja. O alcoolismo é a 3ª doença que mais mata no mundo. Ídolos nacionais que incentivam o uso da bebida alcoólica. 34 mil pessoas morrem no trânsito brasileiro todos os anos e boa parte destes acidentes é causada pelo uso de bebidas alcoólicas.

Ninguém fica indignado com dados monstruosos.

Jornalistas esportivos rotulam Neymar de outros termos além de “monstro”: “perna de pau mental”, moleque “retardado e desrespeitoso”, “imbecil milionário” e tantos outros. Falam em “respeitar o adversário” estes mesmos jornalistas que não cansam de repetir que o futebol, no tempo de Pelé e Garrincha, era melhor.

Pelé fazia dois gols, pegava a bola no fundo das redes, entregava pro zagueiro atônito e dizia: “Toma, entrega pra tua mãe. Diz que foi o rei quem mandou”. E ainda usava a "malandragem" em um ou outro lance.

Garrincha chamava o seu marcador para dançar na lateral do campo. E gingava com a bola pra um lado, pra outro, o marcador não acompanhava e lá passava o Mané. Não satisfeito, voltava o lance para dar outro drible humilhante no pobre coitado. A torcida dava risada. Mané se divertia. O nome do marcador? Era apenas mais um “João”, segundo Garrincha.

Hoje, Pelé e Garrincha desrespeitariam os adversários. Monstros.

Neymar, o monstro, o terror da juventude, o perigo da moral e dos bons costumes, o violador de menininhas virgens, de agora em diante deverá pedir desculpas pelos dribles. Desculpas pelos chapéus, pelas jogadas, pelo talento, pelas dancinhas ao comemorar um gol. Impropérios, nem pensar, sob a pena de lavar a boca com água e sabão.

Neymar deve se tornar um exemplo de retidão - inclusive para estes mesmos torcedores paladinos da moral que usam de nomes tão feios para xingar os árbitros, esses filhos da **** do c**** bando de c**** e ladrões! Talvez, quem sabe, seja canonizado em breve.

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segunda-feira, setembro 13, 2010

Sobre a felicidade

(a infeliz charge acima, pra variar, é de minha autoria)

Gurus da auto-ajuda, tremei! Finalmente conseguiram descobrir o que é preciso para que as pessoas sejam felizes: uma renda mensal maior que R$ 6.800, essa mixaria, mas o ideal é mesmo R$ 11 mil. Assim nos conta uma pesquisa feita nos EUA – claro, onde mais? – sobre fatores mais influentes para se alcançar a meta mais desejada pelo ser humano, a felicidade.

E o que vem ser “felicidade”, afinal? Etimologicamente, o latim nos legou a palavra “Felix”, que além de ser nome de personagem de desenho animado, significa “fértil”, “frutuoso”. No entanto os gregos, sempre eles, nos deixaram algo que se aproxima daquilo que pensamos sobre felicidade hoje: a eudaimonia. A palavra daimon significa “poder divino”, pois os gregos acreditavam que o conceito da felicidade estaria relacionado ao fato de ser agraciado por um bom poder divino – ou a chamada benção, que possui praticamente o mesmo sentido.

Os títulos que mais encontramos nas livrarias são de obras que prometem desvendar os segredos e ensinar truques para se alcançar a felicidade. Muitos livros de auto-ajuda falam exatamente do aspecto “divino” para diversas denominações: cristãos, espíritas, adeptos do new age, religiões orientais, ateus; por outro lado há o aspecto material, com a felicidade atrelada aos padrões de consumo atuais, a promoções no emprego, riquezas e “fórmulas para relacionamentos perfeitos”.

Voltando à referida pesquisa, podemos notar como esses aspectos – divino e material – se revezam entre os fatores apontados para ser feliz. Na relação destes fatores o primeiro lugar na condição para a felicidade indica “ser religioso”; logo depois, em segundo lugar, ter uma boa renda mensal – no caso, mais de R$ 6.800. A lista continua intercalando o que podemos chamar de bênçãos como filhos, maturidade e casamento - sim, o casamento! Ora, quem não busca uma boa união? Estão aí as marias-chuteiras que não me deixam mentir - com as conquistas materiais como planos de saúde e curso superior.

No entanto, não seja obeso, fumante, divorciado e não seja solitário ou tenha que sustentar alguém. Esses fatores indicariam aquilo que ninguém deseja: a infelicidade. Dores de cabeça também fazem parte desta lista que podemos realmente chamar de infeliz. Se quiser acrescentar os itens “sogra”, “chefe” ou “seu time”, fique à vontade.

Tarefa mais difícil é definir a felicidade. A pesquisa feita pelos estadunidenses tentou seguir um padrão de atividades mais comuns que tornam felizes as pessoas de um determinado local. Outra pesquisa realizada em 2008 aponta que os brasileiros são os mais otimistas quanto à felicidade dentre vários povos no mundo. Também neste caso o aumento da renda da população nos últimos anos – e o poder de consumo, consequentemente – estaria atrelado ao fator que leva à felicidade.

Será que o dinheiro realmente traz felicidade? Eis outra pergunta complicada para se responder. Em uma sociedade voltada para o consumo parece impossível desvencilhar o fator material do fator divino. Sêneca, filósofo latino, afirmou que “feliz é aquele que, satisfeito com sua condição, desfruta dela”; Jesus Cristo, em seu sermão da montanha, exortou as pessoas a não juntarem tesouros na Terra, e sim no Céu; Sidarta Gautama, o Buda, prega o desapego aos desejos: “vivamos felizes, nós que nada possuímos!”. Alguém estaria disposto a tanto desprendimento e até certo conformismo?

Clichês sobre a felicidade existem aos montes por aí, então me valho deste: a felicidade depende de cada um, com suas preferências e desejos realizados. Provavelmente seja este o melhor caminho, pequeno gafanhoto. O Tio Patinhas e Eike Batista encontram a felicidade ganhando (muito) dinheiro; o Rubens Barrichelo é feliz quando termina uma corrida; o seu Zé, dono do boteco, digo, mercadinho da esquina, fica feliz da vida quando pago meus fiados.

Quanto a mim, não tenho lá muitos motivos para ser feliz. Mas confesso que a leitura de um excelente livro com a trilha sonora divina do Pink Floyd – ou Beatles ou os porra loucas dos Stones até 1974 - me faz entrar em contato com o daimon e controlar os demos que costumam me atormentar. Talvez seja um bom começo.

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terça-feira, setembro 07, 2010

A verdadeira história da Independência do Brasil-sil-sil

Não sou nenhum Pedro Américo, mas eis meu quadro da Independência do Brasil! Clique na imagem para melhor visualização

A história oficial você já conhece: Pedrinho de Alcântara Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, o príncipe regente do Brasil, encontra com uma tropa portuguesa que papai D. João havia mandado atrás do filhinho bagunceiro. E ali, às margens do Rio Ipiranga, em um arroubo quixotesco, Pedrinho de Alcântara desembainhou sua espada, ergueu-a e gritou para os portugueses: “Independência ou Morte!” Tudo isso aconteceu em 7 de Setembro de 1822 e assim Pedrinho virou D. Pedro I, o imperador do Brasil.

Essa é a história que você encontra em qualquer livro didático. E tal versão da independência do Brasil vem sempre acompanhada desta linda tela do pintor Pedro Américo:
É uma obra magnífica, sem dúvida. Pena que não corresponde ao que realmente aconteceu. O quadro foi concluído em 1888 – iniciado em 1885 - , muito tempo depois do famoso “ouviram dos Piranga”. Então o que está ali retratado é fruto de (algumas) pesquisas e (muita) imaginação do talentoso pintor.

Mas será que foi só imaginação mesmo? Reparem que no quadro, no lado esquerdo inferior da tela, existe um sujeito guiando um carro de boi que olha para a cena com muita curiosidade. Nunca se perguntaram quem seria este sujeito?

Pois eu descobri: trata-se de Joaquim Preto de Jesus*, escravo de um fazendeiro cujo nome perdeu-se na história. Preto de Jesus foi a inspiração para que Pedro Américo pintasse seu quadro com tanta riqueza de detalhes. Os dois se encontraram em São Paulo, na região do Ipiranga, exatamente na casinha retratada ao lado direito da obra, onde conversaram sobre os fatos daquele 7 de Setembro:

- O senhor poderia me dizer que idade contava na época em que D.Pedro I proclamou nossa independência?
- Sim, sinhô: eu tinha 16 ano.
- E hoje?
- Hoje tenho 79 ano, mas alembro de tudo, tudinho, eu tava lá, vi tudinho com esses zoio que a terra há di comê e me alembro sim sinhô!
- Então conte-me tudo o que viu, preciso saber mais sobre aquele dia para pintar um quadro.
- Sim sinhô. Eu voltava de Santos porque ali era a trilha pra nóis que ia buscar mercadoria que desembarcavam no porto, num é? Era um caminho ruim, num sabe, então nóis usava mula, era mais melhó. Na verdade até o povo do príncipe usava mula!
- D. Pedro I utilizava mulas como montaria?
- Ah, sim sinhô, era melhó, num sabe?
- Não vai ficar bem no quadro um imperador utilizando mulas. Pintarei belos cavalos. Mas continue, senhor.
- Sim, eu vinha puxando os boi com as mercadoria e encomenda tudo pra meu sinhozinho quando vi aquele punhadinho de mula no meio da estrada.
- Mas como? Não era uma grande comitiva acompanhando o imperador?
- Sei dizer que se tinha uns 14, era muito.
- E não estavam próximos ao riacho?
- Não muito, faltava bem ainda umas duas légua. Vi o príncipe e ele tava muito irritado, indo pros mato o tempo todo.
- Irritado com o que?
- Hihihi...o sinhô me disculpe falá essas coisa, mas parece que ele teve uma briga lá com dona Marquesa, num sabe?
- Como assim? O imperador foi a Santos para tratar de assuntos políticos!
- Hihihi...é como dizem, num é? Mas me disseram que ele chegou lá na casa de sinhá Marquesa e comeu uma gororoba que ela mesma tinha feito e que num caiu bem. Ele disse que ela num sabia conzinhá e dona Marquesa expulsou o príncipe de casa. Parece que foi briga feia porque Dão Pedro tava com um galo no meio da testa, disseram que a Marquesa tacou uma panela nele! Aí nos caminho de volta o príncipe sentia dor de barriga e tava parano toda hora pra se aliviá!
- Hum, mas dizem que ele se encontrou com tropas portuguesas...
- Olha, sinhô, eu só posso falá do que vi. Na verdade era três mensageiro procurano pelo príncipe, diziam que tinha um recado do rei.
- E que recado era esse?
- Ah, isso eu num sei dizê. Só sei que o Dão Pedro leu a carta, botô a mão na barriga e disse “Senhores, me perdoem, mas vou resolver um assunto atrás daquela moita, trata-se de uma emergência de vida ou morte!”
- Como? Não teve grito, princípio de luta? Foi assim mesmo?
- Foi, foi sim sinhô. Os único grito que eu ouvia era do príncipe se aliviano atrás das moita. Mas ele era muito educado, tirou o chapéu pra recebê os mensageiro e tudo, Dão Pedro era muito humilde, era sim, era, me alembro de tudo.
- Muito agradecido, senhor Preto de Jesus! Teu depoimento vai ajudar-me a pintar o quadro sobre a independência do Brasil! O que posso fazer por você?
- Si o sinhô pudesse, eu queria que o sinhô pintasse meu retrato, é, eu gostaria sim, nunca tive dinheiro pra mandá pintá um, é.
- Farei melhor, meu amigo: irei retratá-lo no próprio quadro da independência! Entrarás para a história do Brasil! Tu e esta casinha! Sim, é uma boa ideia, essa casinha vai compor bem o cenário para o quadro, ora, se vai!

*nota: “Joaquim Preto de Jesus”, obviamente, é uma personagem de ficção, da mesma forma que o diálogo com o pintor Pedro Américo, embora com base em fatos históricos. Se está fazendo pesquisa escolar, leia AQUI e AQUI.

Leia meus brados retumbantes no twitter www.twitter.com/jaimeguimaraess

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