Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

Cinismo politiqueiro

Devo confessar aos meus poucos e corajosos leitores um grave defeito que eu tenho: quando eu escrevo acabo me empolgando. Seja na indignação, seja no humor, seja com crônicas simples do cotidiano, seja na análise crítica procurando aplicar um tom de bastante leveza – até porque não tenho intenção de ser um sociólogo ou um cultivador da vaidade acadêmica. Só tenho a agradecer quem tem paciência em ler estes longos textos que eu digito – e muito mal digitados, na verdade.

Eu tento conter as palavras, mas tem coisas que não dá para sintetizar em poucas linhas (ou em 120 caracteres). É porque tenho a sensação de que vivo em outro mundo ou, vai saber, em outra frequência.

Não dá pra aliviar. Vejo que foi um grande destaque nos telejornais as declarações do guardião da justiça de nosso país, o estupendo ministro do STF (Supremo Tribunal da Falcatru...digo, Federal) Gilmar Mendes, defensor dos fracos e oprimidos colarinhos brancos. O nosso grande juiz questiona o financiamento público de movimentos que cometem atos ilícitos.

Claro que ele se refere ao Movimento dos Sem Terra, o MST, que promoveu invasões durante o período de carnaval e uma destas invasões terminou em tragédia em Pernambuco.

Mas não é do MST que eu quero falar, até porque não tenho procuração para defender os sem-terra e não confio na relação entre imprensa e o movimento – tanto que o Jornal Nacional aproveitou para dedicar um bom tempo a falar da amizade do presidente Lula com o MST e José Rainha.

Minha crítica e indignação são dirigidas ao cinismo da imprensa brasileira e da cara de pau do extraordinário Gilmar Mendes. E também ao sagaz presidente do Congresso, Michel Temer e, claro, ao homem que tem amor à vida pública, o incrível José Sarney. Todos eles foram na linha do Gilmar Mendes e a imprensa só faltou chegar a um orgasmo, como o editorial lido no Jornal da Band pelo jornalista Joelmir Betting ( que estava acordado, desta vez) em nome do grupo Bandeirantes.

Se todos esses nobres personagens que tanto enobrecem o Brasil estão de acordo que a utilização de dinheiro público para financiar movimentos deve ser analisado, onde todos estes arautos da ética e da justiça estavam quando houve a CPI das ONG’s? Por que estes grandes homens não se manifestaram quando um bando de governadores canalhas tentou impedir o miserável piso de R$ 950 para os professores?

“Oh, isso não é de nossa alçada”, responderiam, rapidamente, estes homens ocupados em restabelecer a moral e a ética no Brasil. A CPI das ONGs, que descobriria muitos podres de organizações não-governamentais picaretas que recebem dinheiro público, é constantemente esvaziada, adiada, boicotada, agoniza entre papéis, burocracias e grandes acordos (seriam negociatas?) partidários. Ao invés de aumentarem a fiscalização para saber o que essas ONGs fazem com o dinheiro público, tem projeto para diminuir esta fiscalização. Talvez tal projeto seja da "alçada" dos defensores da transparência no gasto do dinheiro público.

E nestas horas onde estão os grandes moralistas Gilmar Mendes, Zé Sarney, Michel Temer, imprensa brasileira? Aliás, por que a imprensa, sempre preocupada com a informação relevante para a população, não vai fuçar esse monte de ONG picareta que tem por aí, inclusive as estrangeiras lá na Amazônia? ONGs que promovem um assistencialismo sem-vergonha, exibem a pobreza e as deficiências de uma comunidade em vitrines para “intelectuais” discutirem e o resultado é um monte de criança tocando tambor e fazendo malabarismos em semáforos pedindo esmolas para os motoristas; por que não procuram saber das relações pra lá de suspeitas com algumas "fundações" de grandes empresas? Trata-se de um excelente modo para se conseguir incentivos, isenção de impostos e uns trocados por fora! Por que não questionar o motivo daquela ONG cujo projeto social é “tirar crianças da rua através da arte” receber R$ 100 mil por ano enquanto a escola daquela comunidade recebe apenas R$ 12 mil no ano pra se virar com merenda, material escolar e didático?

Não se trata de moralismo barato. Há ONGs que realizam trabalhos sérios, relevantes para diversas comunidades, tanto como Fundações e OSCIPS ( Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público) e estas devem ser valorizadas. E seria ótimo se nossos respeitabilíssimos congressistas e ministros deixassem demagogias e politicagens de lado para realmente se preocupar com a transparência e a lisura das organizações que recebem dinheiro público para suas atividades. E a imprensa, fuçar por aí e informar, e não ficar restrita aos releases de assessorias de políticos, empresários e instituições.

Pena que escrevi demais novamente. Falta-me o talento de um...deixe-me ver, um Veríssimo, para sintetizar um assunto em poucas linhas. Mas é que certos assuntos fazem com que as palavras "saiam do controle". Acho que assim é que bom. Pra gente do naipe de Gilmar Mendes, Sarney, Temer e tantos outros, não dá pra trocar palavrinhas...só palavrões!

Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

Feliz 2009!

Feliz ano-novo, pessoal! Um 2009 de muitas conquistas, paz e saúde para todos nós!

Com o fim do carnaval, o ano começa agora no Brasil. Quer dizer, agora não, né...deixa pra segunda-feira, dia 02...bora emendar logo essa quinta e sexta-feira, afinal de contas o fim de semana está aí mesmo.

Bom, agora que acabou o carnaval, o povo sairá de sua alienação e apatia e voltará ao “mundo real”, ao trabalho, rumo ao desenvolvimento e ao fortalecimento da cidadania, certo? Se as extinções do carnaval e do futebol transformassem o Brasil numa Finlândia (o fetiche dos colunistas da VEJA, que há tempos foi uma revista interessante), seria fácil demais, não é mesmo? O importante é que tudo correu em paz!
MUDANÇA DO GARCIAMesmo o carnaval privatizado e descaracterizado tem seus momentos interessantes, até com crítica social, por incrível que pareça. Em Salvador existe um divertidíssimo e tradicional bloco: é o “Mudança do Garcia”, que há 60 anos ironiza os governantes, bate forte em assuntos como corrupção e a situação precária da saúde, da educação, da segurança, etc. Temas sérios tratados com muita irreverência, típica dos carnavais tradicionais. Sobra pra todo mundo, desde Bush, Lula, Obama, políticos locais (o prefeito de Salvador, que admitiu desviar dinheiro da merenda e dos remédios para o carnaval, não escapou), “cornos anônimos”, o acordo ortográfico ( boa idéia, digo, ideia) e até Ivete Sangalo com seu hit torturante “Dalila”.
Aliás, se vocês conhecerem alguma recém-nascida que recebe o nome “Dalila”, agradeça à Ivete Sangalo, Carlinhos Brown,às cantoras e cantores de axé e pagode, além das emissoras de rádio, TV, vídeos na internet, rádios on-line, foliões...as técnicas de Jim Jones e do Reverendo Moon perdem feio para o jabazão Dalila!

Nestes dias de folia em que as pautas foram completamente tomadas para notícias do tipo “Ivete diz que é a ‘toda boa’ do carnaval” ou “Claudia Leitte garante que não fez plástica” pesquei dois fatos bem interessantes:

Beyoncé deixa escapar parte do seio em apresentação no Oscar

Ou é muito desespero para se arranjar alguma pauta ou o sujeito que detectou essa “parte do seio” da moça é um taradão detalhista ao extremo ( conforme a academia de letras "Galvão Bueno"). E o jornalista e a empresa que publicaram essa relevante nota são corajosos...ou apostavam que ninguém ia ligar, afinal é carnaval e o que mais se viu por aí foi peito e bunda.

Mas a pérola maior está aqui:
Vocês podem não acreditar, mas no momento em que eu escrevia essas mal-digitadas, recebo uma ligação:
- Alô?
- Alô. De onde fala?
- Você quer falar com quem?
- É que eu queria colocar meu nome na oração.
- Ô, irmão, não é daqui não.
- Desculpe, foi engano.
- Que Deus e somente Deus te abençoe. Boa noite.
- Amém, boa noite.

É um sinal divino! O chamado do Senhor para participar do “Projeto Neemias da Reconstrução”, uma campanha da igreja Renascer para reconstruir o templo que desabou em SP. Tem até vídeo com os valores dos carnês ( depois de um discurso tocante do apóstolo, descubro que o carnê diamante é para doações acima de mil reais).

Eu aprovo esse tipo de iniciativa. E digo mais: o governo deveria ajudar neste nobre propósito com verbas do BNDES e com a diplomacia para libertar os líderes da igreja presos nos EUA, afinal o apóstolo Estevam Hernandes é um homem simples, humilde, que levou ao pé da letra aquelas palavras de Jesus, o Cristo:

“Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me”.

Tanto o apóstolo quanto a Bispa Sônia estão presos por uma manobra perversa de Satanás, afinal os dólares na Bíblia seriam distribuídos entre os pobres, da mesma forma que o haras e as fazendas do “apóstolo” seriam distribuídos ao MST para ajudar na reforma agrária, e os casacos de pele da “bispa” doados para campanhas do agasalho e as mansões e apartamentos seriam gentilmente doados para os sem-teto. Regozijai-vos, pois os humildes serão exaltados!

IMPEACHMENT JÁ!
Lula “passou uma cantada” na Suzana Vieira! Foi em um cerimonial na capital Federal onde o presidente se derramou em elogios à “atriz” – segundo versão da estonteante atriz fã de michês.
Tucanos, DEMos, Trolha de S.Paulo, VEJA e Nosferatu Serra se mobilizarão para criar uma CPI pedindo o impeachment do presidente Lula! Alegarão mau gosto do presidente, pois até o Itamar Frango pegou coisa melhor no carnaval ( aliás, cadê aquela “modelo”, hein?), sem contar que o FHC catou foi uma jornalista da Globo (e depois de nove meses viu o resultado) e o Collor simplesmente pegou a Claudia Raia! Fora, Lula!

DEU CERTO?
Como acredito mais em donas de casa e camelôs do que em dados estatísticos, economistas e secretários, parece que a Lei Seca mostrou algum resultado ao menos em Salvador. Os ambulantes vendedores de cerveja reclamam que venderam menos este ano. Quem diria, hein? Chuva e Lei Seca são apontados como prováveis causas. Miriam Big Pig aposta na crise, tenho certeza.
E, COM VOCÊS, TODA A GRAÇA, SIMPATIA E LISURA DE...
...Ivete Dalila Sangalo, é claro:

"O que é que vocês estão bebendo, seus filhos da p...? Revelação de quê? Sou revelação para o meu namorado entre quatro paredes. Faço ele gemer sem sentir dor. Sou uma mulher da porra ou não sou? Se querem me dar algo, que seja dinheiro ou cesta básica. Vocês deveriam entregar esse troféu de revelação para Mariana Assis, da banda Mina”.

Tá certo que o tal jornalista não teve simancol nenhum ( entregar prêmio revelação pra Xinguete Sangalo é coisa de bebum mesmo), mas a atitude da Piriguete Sangalo não condiz com a mulher fina que é. E nada interesseira, também: ela citou a banda "Mina" por puro altruísmo e vontade de ajudar novos artistas - nada a ver que a referida banda faz parte do "cast" de sua produtora; é coisa de quem está disposta a ajudar mesmo. Mas o destempero, vai ver, foi coisa de Dalila.

MAS QUEM É DALILA?
Eis uma boa pista:

Domingo, Fevereiro 22, 2009

Como Claudinha Clone Leitte explica o carnaval

Pensem rápido, minhas queridas/meus queridos 3 ou 4 leitoras(as) que de vez em quando aparecem por aqui: você ( ou sua esposa) acaba de ser mãe e bem às vésperas do carnaval. Qual a melhor coisa a ser feita?

a) Vou dar toda a atenção do mundo ao meu filho. Carnaval e festa tem todos os anos.
b) Contrato uma babá para cuidar do(a) menino(a) e vou pra folia, afinal sou jovem e tenho mais é que curtir a vida.
c) Faço um discurso de que meu filho não é mercadoria, mas não deixo de usá-lo para autopromoção o tempo todo.

Claro que estou me referindo à Claudia Clone Leitte, a cantora que dia desses deu a luz e com 1 mês à base de dietas e muita malhação lá está a moçoila em cima de um trio elétrico novamente, sarada e com 11 kg a menos fazendo a festa para delírio da galera. Galera que adora a Claudinha e a considera “guerreira” por fazer esse enorme e comovente sacrifício em nome da folia de Momo – e para aproveitar o bom momento na mídia, é claro, com a ajuda do pequeno Davi (pois é, o tempo inteiro falando nesse bebê que todo mundo já sabe o nome). Parabéns, Claudinha, és um exemplo para essa nova geração!

Corte rápido para a quebradeira na periferia. Uma empregada doméstica fez economia, juntou uns caraminguás aqui e ali e conseguiu seu grande objetivo: pagar uma babá para cuidar do filho, na casa dos seus 3 anos de idade; desta forma a Maria, a referida empregada, pode ir para a avenida curtir o carnaval numa boa.

Como a dona Maria aí é negona, pobre e não tem corpão sarado, todo mundo acha isso um absurdo. E começam os estereótipos clássicos, do tipo “esse povo é alienado”, “só podia ser mesmo essa gentinha”, "vai atrás de home e não cuida do fio" e outros termos em que é melhor deixar pra lá.

Resumindo: a Claudinha Leitte (com dois “t”, viu, pessoal?) é guerreira; a Maria da Silva é irresponsável. Meio que despretensiosamente, isso explica como funciona o Brasil e o carnaval em Salvador – carnaval que vem sendo descaracterizado ( e privatizado) ano a ano e perdendo seu apelo popular. A questão do vínculo entre mãe e filho é extremamente importante para a formação da criança, seja lá que idade for (ainda mais na primeira infância); mas a artista bonitinha, loirinha e egressa da classe média não é condenada ou sequer criticada por privilegiar a festa, a farra e os contratos ao invés do filho recém-nascido. Pelo contrário, é elogiada e paparicada o tempo todo por sua “energia” e “amor pelo carnaval”. Já a Maria da Silva, negona da periferia, é condenada e rotulada imediatamente com os piores nomes – irresponsável e alienada, só para ficar nos mais suaves.

Passou até no Jornal Nacional uma matéria sobre o beijo no carnaval em Salvador. Só “gente bonita”, sarados e saradas, brancos e saudáveis, devidamente uniformizados com abadás caros beijando pra valer quem aparece pela frente – e isso é visto como “um barato”sob os olhares ternos e afetuosos da Sandra Nhemnhemberg; Quando é o povão beijando pra valer quem aparece pela frente, minha nossa, esse país está perdido, que absurdo, esse povo não tem nada na cabeça, é um bando de alienado manipulado pela Globo e lá vai mais dinheiro para o bolsa-família, etc e etc.

Mas deixa pra lá. Quem liga pra essas coisas, não é mesmo? E daí se Claudinha Clone Leitte é referencial para várias pessoas, se a Ivete Sangalo vende cerveja o tempo todo na TV incentivando o consumo de álcool no país da "lei seca"? O negócio é curtir e beijar muuuito – desde que você não seja da quebrada, sacou?

BELO CARNAVAL!
Bacana mesmo foi a apresentação do Belo no carnaval. O sujeito tem simplesmente 8 fã-clubes em Salvador! Uau! Isso que eu chamo de "amor em condicional"...digo, é, você entendeu. Acho que só perde em devoção para o Senhor do Bonfim, Ivete Sangalo, ACM e Daniela Mercury. A mulherada ( dos fã-clubes, claro) gritava “lindo” o tempo todo para o grande artista, o grande astro.
- Ai, eu adoro as músicas dele! E ele tem esse jeitinho que é tudo!
- Bom, não sei das músicas dele, mas de jeitinho ele entende... foi até vender tênis pra engordar o orçamento! Grande cara!

THIS IS THE END?
E quem disse que a morte é o fim? Com a partida do Sérgio Naya desta para a pior ( ou melhor, vai saber), as famílias que perderam tudo no desabamento do Palace II já tem esperança de que as indenizações finalmente sejam pagas. Yeah, beautiful friend!

VAI BUSCAR DALILA!
“Tive uma caganeira nesta semana, perdi 2kg. Mas aqui existe uma 'periguete', eu sou toda boa, sou gostosa. Vou precisar dar uma paradinha para ir ao banheiro. Não sei se é xixi ou cocô, mas acho que é xixi, porque a bexiga está fazendo pressão.”

Esta é a sutil, doce e delicada Ivete Sangalo expondo seus problemas fisiológicos para todo mundo que está interessadíssimo no que ela faz na vida privada. Mas dizem as más e boas línguas que a “Dalila” da música não tem nada a ver com a personagem bíblica ou com alguma princesa africana...fuuuuunc! fuuuunnnnc! Ah, esse nariz entupido...fuuuuunnnnc! fuuuunnnnc!

Na quarta-feira de cinzas eu volto...cinza, viu, Ivete, não é quarta-feira branca.

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

A sinceridade tomando conta do país!

Mas o que está acontecendo neste país? Vejam que o negócio agora é ser sincero! Quem diria... isso é uma revolução! E tal revolução vem justamente de onde menos se esperava: de políticos e empresários!

Primeiro foi o prefeito de Salvador, João Henrique, que admitiu desviar dinheiro da merenda escolar e dos remédios que são distribuídos nos postos de saúde para investir no carnaval;

Depois foi a vez de o senador pernambucano Jarbas Vasconcelos dizer que os partidos políticos - inclusive o seu PMDB - são corruptos e que político quer mesmo é saber de corrupção;

E agora foi o presidente da FIESP, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, o Paulo Skaf, que pediu cadeia para os banqueiros agiotas!

Eu fico tocado com tanta sinceridade. De verdade. É caso até para se emocionar com o nobre serviço que estes homens vem prestando ao país. Ora, o nosso decente prefeito João apenas expôs o que muitos prefeitos fazem (principalmente do interior): tiram verbas da educação e da saúde para promover o pão e circo; O nosso vetusto senador Jarbas apenas comprovou, de forma oficial, o que todo o brasileiro “desconfiava” (não podemos duvidar da lisura de nossos políticos, não é?); e o Paulinho da FIESP? Pediu cadeia para os banqueiros. Todos, é claro. Porque no Brasil banqueiro é agiota mesmo e fim de papo.
O que eu queria ver mesmo era que essa sinceridade toda chegasse também à nossa super informada e qualificada imprensa. Principalmente àquela que se intitula “jornalismo de celebridades”, acho. Do tipo “Caras” e similares.

Na sala de espera de um consultório médico, folheei um exemplar da sempre inteligente revista “Caras”. É legal ver algumas fotos do high society: todos sorridentes e irradiando felicidade, principalmente as mulheres com quilos de maquiagem e colares discretíssimos ressaltando toda sua beleza natural, a beleza da autêntica mulher brasileira que compra na Daslu, baby!

Viro a página me deparo com uma página inteira e um casal radiante na democrática Ilha de Caras e uma chamada mais ou menos assim:

JORGINHO DE VON ROSKITA RELAXA NA ILHA DE CARAS
Empresário se rende aos encantos da ilha em companhia da namorada Martinha Mayrink

Eu fico pensando é no termo “empresário”. Empresário de que? O que mais se vê nas colunas do High Society é “empresário”. Sei lá do que, mas certamente passa uma idéia "respeitável". Adoraria saber o ramo em que atuam. Seria esclarecedor ler chamadas assim:

JORGINHO DE VON ROSKITA RELAXA EM TREMEMBÉ
Sonegador e formador de quadrilha em momento de reflexão no presídio de Tremembé

A ALEGRIA DE LETÍCIA DE ALBUQUERQUE SMITH
Socialite se diverte cumprindo pena por maus tratos à empregada com trabalho comunitário no Morro do Alemão.

Lembram do Ricardo Mansur? Não? Era – ou é, sei lá - “empresário”, figurinha carimbada na Caras e “High Society”. Um dos grandes pilantras deste país e que levou lojas como a Mesbla e o Mappin à falência em um processo de fraude gigantesca e que prejudicou muitos trabalhadores das lojas citadas, além dos clientes; Conhece Cleber Marques, o Rei do Café? Sei, você nunca ouviu falar. Mas da Ilha de Caras você já ouviu falar. Pois é. Era o dono da ilha. Esse grande empresário também era outra figurinha fácil no high society. Foi preso por sonegação de impostos, formação de quadrilha e corrupção ativa. Grandes “empresários”, homens que investem no desenvolvimento de nosso país e geram emprego para nosso povo!

Saudemos João, Jarbas e Paulo, os grandes restauradores da verdade e da moral neste país! Tudo bem que soltaram estas bombas às vésperas do carnaval e aí todo mundo esquece dos atos nobres destes homens; mas espero que sejam recompensados pela divina corte celestial! É de homens assim, que pregam a verdade, que este país precisa!

CARNAVAL
Falando em homens de bem e bens, continuo com um exemplo de cidadão que o país precisa: o grande Belo, pagodeiro, compositor e empresário (opa!) bem-sucedido no ramo de calçados. E ele estará no carnaval de Salvador!

Já adquiri meu abadá do Bloco Milenar, que trará para a avenida o grande Belo e os manos Rodriguinho e Chrigor. Tudo por uma verdadeira pechincha: 02 dias por 180 mangos! Sinceramente, é muito barato para sair no bloco que reúne grandes feras de nossa música. Acho até que deveriam cobrar mais, dada a relevância destes artistas.
Veja se não é bastante apropriado para o carnaval:

Já te avisei
Eu sou um cara
Bem comprometido
Eu te falei
Só vai rolar
Se for muito escondido...


Até 2009, pessoal! Aproveitem bastante o carnaval, à sua maneira. Juízo!

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

Olha o carnaval aí gente!!!

É festa! É festa! É festa! E vai rolar a festa...vai rolar...

E 2008 vai chegando ao fim. Carnaval já está aí, batendo às portas, um ano-novo que se aproxima cheio de esperanças e instala-se aquele clima de alegria, euforia, sol, verão, beijo na boca, axé music e samba-enredo até cansar, gringo com seu turismo diversificado, etc e etc e etc.

Mas quero deixar claro que não tenho nada contra o carnaval e nem acho que isso é “alienação” ou coisa do tipo. Não sou rancoroso ao ponto de achar que o carnaval “é um plano sórdido tramado pelos governos juntamente com a CIA para deixar a população burra, camarada!”. Na verdade o carnaval até ajuda na economia de muitas cidades e de muitas famílias. E as marchinas de carnaval à moda antiga que ainda resistem em algumas cidades do interior são bacanas e gostosas para se brincar. O que deixa a população alienada é , dentre outros fatores, a péssima educação pública oferecida neste país por nossos ilustríssimos governantes filhos da...mãe gentil!

Quer um exemplo muito claro disso? Leia esta manchete:

João Henrique disse mesmo que desviou verbas da merenda e da saúde para o carnaval

Agora está todo mundo “descendo o cacete” no prefeito de Salvador (João Henrique), mas eu o parabenizo.Ora, ele apenas admitiu o que muitos governantes fazem e fingem que não fazem. Ou você acha que aquela cidadezinha do interior, que mal tem como se sustentar, na época de São João leva simplesmente Zezé di Camargo e Luciano para um showzinho de meia hora (uma fortuna o cachê) vai tirar recursos de onde? Do bolso do prefeito é que não é. Do salário dos nobríssimos vereadores também não. Tampouco vai cortar as verbas dos gabinetes.

É isso aí que você pensou. Da educação. Da merenda. Da saúde. E até da cultura, mas como a verba para a cultura é mixaria, o jeito é “completar” com outros recursos. Parabéns, senhor prefeito de Salvador, sua honestidade foi tocante! Ah, e parabéns para 60% dos eleitores soteropolitanos.

E a segurança! Não poderia esquecer da segurança pública. Dá só uma olhada nesta manchete:

Policias vão fazer segurança de turistas no Carnaval

Em Salvador o carnaval funciona assim: boa parte dos soteropolitanos se manda da cidade rumo à ilha de Itaparica ( o lar do grande João Ubaldo Ribeiro - a ilha tão bonita e tão abandonada, uma pena), às praias do litoral norte ou ao sertão. Outra parte vai para o carnaval, naquele circuito "vip" da Barra-Ondina e Campo Grande. Juntando estes foliões e os turistas, dá uns 2 milhões de pessoas, em uns 12 kms deste circuito. E digamos que 95% do efetivo policial é deslocado para o carnaval ( fazem parte do "circuito carnavalesco" o centro histórico e alguns bairros periféricos). E o restante da cidade, vazia, vazia, ao Deus dará.

Já adivinhou o que acontece, né?

Agora deixe-me contar uma brevíssima historinha:

- Polícia Militar, boa noite.
- Olha, por favor, mande uma viatura urgente pra cá, pelo amor de Deus, tem um homem ameaçando que vai matar meu pai.
- Onde é o local?
- É aqui no ______! Mande logo, o homem está aqui, parado em frente de casa!
- No momento não temos unidades disponíveis, mas a senhora pode prestar queixa em uma deleg...
- Eu estou falando que um homem está aqui em frente de casa querendo matar meu pai!!! Entendeu???? Preciso da polícia aqui!!! Pelo amor de Deus!
- Senhora, isso no momento não é possível.

Agora, leia esta nota:

De 13 a 24 de fevereiro, a Polícia Militar da Bahia realizará a Operação Abadá 2009. O objetivo é garantir a tranquilidade nos pontos de venda e distribuição de abadás e camisas de blocos e camarotes para o Carnaval. Será empregado um efetivo diário de 199 policiais, que reforçarão o policiamento das 7h às 23h, nos principais pontos de distribuição de abadás da cidade.

Bem, acho que isso explica tudo sobre prioridades, não é mesmo?A culpa evidente não é dos PM's, é de quem comanda. E quem comanda? Vou dar uma dica: começa com "gover", passa por "na" e termina com "dor". Adivinhão! Mas a historinha aí é verídica e aconteceu em uma noite de carnaval, na periferia. Para quem ficou preocupado com o pai da moça, informo que tudo terminou bem: os próprios parentes do agressor conseguiram contê-lo e levaram o nervosinho embora.

Essa é a real do carnaval em Salvador. Quem assiste pela TV encanta-se. É gente bonita, beijo na boca, alegria, festa o tempo inteiro, ao lado da praia, cerveja geladinha ( e dona Ivete Sangalo vendendo sua cervejinha na TV o tempo todo. Estimulando o consumo de bebida alcoólica em um país onde a lei seca, dizem, está em vigor. É por isso que eu canto aquela musiquinha “este é um país que vai pra frente”), euforia, as pernas saradas das cantoras em cima do trio elétrico, aquele sentimento de “uau, queria estar lá”... mas “lá embaixo", no meio dos "descamisados", é como se diz: o buraco é...mais embaixo.

SAMBA DO CRIOULO DOIDO
Ele é considerado um intelectual, um grande mestre na sociologia e na política. Mas nada disso o deixa vaidoso, pois ele tem “um pé na cozinha”. É o nosso grande orgulho nacional, o douto Ferrando Henrique, o Cardoso. Não, não quero nem saber o que ele acha da maconha. Eu só achei interessante esta nota:

Meninos e meninas, senhoras e senhores, amigos e amigas: quando estes sujeitos aparecem na TV com um sorriso celestial e com uma musiquinha bonitinha tocando ao fundo, não se enganem: eles querem mesmo é que todo mundo se ferre (né, Ferrando?), que a crise apareça e desempregue todo mundo ( Miriam Big Pig insiste e insiste e insiste! Ô mulher insistente, tá louco!), que o Brasil se dane. O que importa é “voltar ao pudê” e desfrutar de todas as delícias que os cargos e verbas tem a oferecer. Todos, sem exceção.

O diabo é que há quem considere FHC um intelectual, um sujeito "diferenciado". Eu, não. Um sujeito que faz parte de um plano pregando o “quanto pior melhor” e quer ver a desgraça dos outros (leia-se empregados, assalariados, aposentados - ele ama os aposentados), é qualquer coisa, menos intelectual. Como diria o saudoso Fausto Wolff, o sujeito precisa mesmo é de um psiquiatra.

Este encontro de tucanos deve ter sido brindado com água da SABESP, a mais pura e cristalina do mundo, segundo a propaganda incessante e impertinente na TV. Começo a me preocupar em saber que diabos eles colocam nessa água...cuidado neste carnaval com a água que você toma, hein!

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

7 milhões de anos para evoluir...

7 milhões de anos em evolução para dar nisso aí:

Neste dia 12 de Fevereiro de 2009 comemora-se o bicentenário do nascimento do Charles Darwin. Você o conhece ou já ouviu falar: foi o naturalista inglês que apresentou uma teoria da origem e evolução das espécies bem diferente daquela de "...e Deus viu que tudo era bom e descansou no sétimo dia" - e tal teoria, apresentada em 1859, causa confusão até hoje entre os adeptos do criacionismo x darwinismo.

Mas é que lá pela metade do século XIX estava na moda contestar o Todo-Poderoso. Teve até um genial e doido filósofo que ousou afirmar "Deus está morto". Se isso hoje já causa uma polêmica, imagine lá em 1800 e pedrinha!

Voltando à conversa sobre "evolução". Além deste fato do bicentenário de Darwin, ontem assisti a uma vídeo motivacional que falava justamente como "a evolução humana é fantástica"! Sabe esses vídeos de auto-ajuda fofinhos, cheio de imagens e cenas maravilhosas,trilha sonora empolgante e narração repleta de "calor humano" ao falar de nossos progressos na medicina, nas comunicações, etc? Isso! Esse aí mesmo que você pensou!

Sempre que vejo ou leio obras com esse teor de auto-ajuda me pergunto se evoluímos realmente...

Mas perguntei ao seu Aurélio ( o porteiro aqui do prédio, gente fina!) qual a diferença entre evolução e progresso. Eis a resposta:

-Progresso é substantivo masculino e evolução é substantivo feminino, ora! Mas ambos representam a mesma idéia: desenvolvimento. Vai dizer que não sabia disso...francamente!

Bom, se o seu Aurélio falou, tá falado, embora "evolução" na biologia deva ter outra conotação, imagino. E nisso eu me lembro do professor Giovanni Sartori e seus escritos:

Em si, progredir significa apenas "ir para frente" implicando a idéia de um acréscimo. Entretanto, nem sempre é possível afirmar que tal acréscimo é necessariamente positivo. Com efeito, até a respeito de um tumor se pode dizer que está progredindo; mas, neste caso, o que aumenta é um mal, uma doença. Portanto, em muitos contextos a noção de progresso é neutra.
Este é o ponto. Não há dúvida que progredimos ou evoluímos um bocado nos últimos 7 milhões de anos. O ser humano desenvolveu a fala e a escrita, as moradias, os transportes, a cultura, a ciência, as tecnologias, o rock n' roll... tudo muito bonito, tudo muito fantástico, tudo muito impressionante - e é, de fato, seja lá em que você acredite ( em Adão e Eva ou Darwin ou na cientologia do Tom Cruzes). Mas será que não destacamos demais o progresso ou evolução da técnica e das máquinas em detrimento à evolução humana - e digo humana considerando que somos seres inteligentes, emotivos, artísticos,etc?

É inadimíssivel que tenhamos, em pleno século XXI, neonazistas espalhados por aí ( inclusive no Brasil, que conseguiu um feito: só aqui pra ter neonazista "moreninho"), pessoas que literalmente jogam os filhos recém-nascidos no lixo, trotes universitários imbecis e violentos e "esfrega a xana no asfalto". já citei aqui um livrinho que mostra "a real" do nosso lindo planetinha, chamado "Planeta Favela", de Mike Davis. É ler e repensar a trajetória humana nestes 7 milhões de anos em evolução.

O sonho do homem no período da Revolução Industrial, que era ter máquinas trabalhando enquanto ele, homem, dedicava-se às atividades relacionadas ao lazer e à cultura, foi por água abaixo, pelo visto. Até que ponto nos deixamos "escravizar" pelas máquinas e até que ponto nos "desumanizamos"? Exemplo: celular hoje é necessário, mas qual o grau de importância damos a este aparelho ( e olhe que vivemos milhares de anos sem ele)? A internet é genial, pois dentre outras vantagens há a possibilidade de publicarmos nossas idéias ( como faz este Zé Mané com este blog); mas a grande rede também pode facilitar o acesso à pedofilia, exploração sexual, grupos violentos, dentre outras bizarrices. Progride-se de um lado (a técnica), regride-se de outro ( as relações humanas).

Algumas cidades brasileiras (menos Buenos Aires) irão homenagear Charles Darwin. Curioso, pois Darwin passou um período no Brasil e não foi de muitas amizades, não...na verdade, nosso Charlie gostou mais das rãs e borboletas do que das pessoas e cidades brasileiras - Rio, Salvador e Recife. E detonou o carnaval ( sim, meus caros, carnaval não é invenção da Globo,não). Claro que o interesse de Darwin era mesmo a natureza, mas não precisava desancar: "A cidade é repugnante em toda parte, com suas ruas estreitas, mal pavimentadas e imundas", escreveu sobre Recife. Não precisava, Charlie...

E por falar em evolução, dizem que os seguidores da cientologia são mais inteligentes que os "simples mortais". Realmente, pelo exemplo de nuestro hermano Tom Cruise, percebe-se isso.

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

Fábula de hoje: O castelinho

28 - 40 - 42 - 54 - 55 – 57. Assim não dá. Vai ter sorte assim sei lá onde! Acertar esta sequência aí não é pra qualquer um, tem que ter muita sorte. Nem sei porque insisto em loteria, já que nem rifa de liquidificador usado eu ganhei. Mas ao menos acertei o 28, o que já é alguma coisa pra quem não acertava um número sequer. Se eu fosse o João Alves, acertaria fácil, fácil na loteria. E nem precisava ser 200 vezes.

Por falar em João Alves, loteria, dinheiro, sorte, tenho aqui uma fábula muito bonita que eu gostaria de compartilhar com vocês. Chamem as crianças, coloque-as na frente do computador ou, melhor ainda, imprima esta fábula e leve a garotada para um parque ou jardim. Leia em voz alta.

O CASTELO*
Era uma vez, em um distante reino chamado Zilbra, um casal muito pobre que teve oito filhos. Um desses filhos era o pequeno Dimarzinho, que se destacava dos demais irmãos graças à sua coragem e inteligência.

Um dia a família de Dimarzinho fez uma longa viagem cruzando boa parte do reino até chegar ao mar. Dimarzinho ficou encantado com a imensidão do mar, mas gostou mesmo foi de brincar na areia, onde construiu vários castelinhos.

- Um dia terei meu próprio castelo, bem grande!, disse o Dimarzinho.

Já crescido e agora conhecido como Dimar, conseguiu ingressar nas forças de segurança da província General Mines e chegou rapidamente ao posto de capitão. O capitão Dimar era louvado por defender as nobres donzelas da província dos mais terríveis vilões e monstros, não poupando esforços e homens da guarda para correr em auxílio das nobres quando estavam em perigo. Foi assim que conheceu e casou-se com a encantadora e humilde Jujuzinha.

Dimar resolveu respirar novos ares e mudou-se para a província de Saint Paul, a mais rica do reino, a terra das oportunidades. E graças à sua inteligência, ao seu cuidado em escolher somente as boas companhias selecionando amigos corretos e confiáveis e demonstrando habilidade em cálculos e leis, tornou-se milionário!

Mas isso era pouco para Dimar. Sempre ao lado de figuras honestas e de caráter acima de qualquer suspeita, tornou-se membro do Legislativo de St.Paul, cargo de alta importância. Sua habilidade e principalmente a retidão em lidar com as finanças dos serviçais e aposentados da província tornaram-no querido em seu círculo de amizades.

Mesmo milionário e muito bem conceituado na sociedade, Dimar andava infeliz. Faltava alguma coisa em sua vida. Precisava de algo grande, que o tornasse reconhecido em todo o reino. Então a encantadora e humilde Jujuzinha sugeriu:

- Benhê, faz um castelo pra mim, faz...

Dimar lembrou-se de sua infância, naquele dia na praia, onde jurara que iria construir um castelo, bem grande. Era um sinal do destino! A hora chegou: teria um castelo, bem grande, imponente, onde iria abrigar sua encantadora e humilde esposa e filhos.

E construiu. Com muita luta e suor, estava erguido o maior e mais luxuoso castelo do reino. Não havia outro castelo que rivalizasse ao castelo de Dimar e Jujuzinha. Seus amigos queriam dar-lhe a coroa da província e até do reino. Mantendo sua inabalável humildade, recusou. Mas em uma prova de generosidade e de amor, deu o castelo de presente ao seu filho, o príncipe Leozinho, que já segue os caminhos do pai e é também membro do Legislativo na província de General Mines.

E assim viviam felizes Dimar e toda sua família em um lindo castelo com jardim e 32 suítes! Esta fábula poderia chegar ao fim com o bordão “e viveram felizes para sempre” se não fosse a visita da bruxa malvada, que lançou um terrível feitiço e transformou o nobre Dimar em Edmar Batista Moreira, o DEMônio.


* Não é o do Kafka, mas teve agrimensor para ajudar na construção. E ninguém entra.

Bem, é isso aí, pessoal. Gostaram da fábula de hoje? Acho que é muito didática para as crianças e jovens de nosso país, afinal “o segredo” é fazer tudo... em segredo, ora! Essa historinha não termina aqui. Qual será o destino do pobre Dimarzinho, transformado em DEMo pela bruxa má? Acompanhe nas páginas...policiais.

Sábado, Fevereiro 07, 2009

Devaneios na lotérica ( Yes! I can...be a rich man!)

Entreouvindo na fila da lotérica (ora, também faço uma fezinha, porque sou brasileiro e não desisto nunca – e dou uns trocados a mais pro governo. Talvez pra um deputado desviar e construir um castelo medieval em Minas Gerais. Sei o que deve estar pensando. Um otário, eu. Deixa pra lá):

- Minina, ainda bem que segunda-feira já começa as aula.
- Minha filha, eu já num güento mais esses minino em casa! Toda a hora quer isso, quer aquilo, num tenho sussego! Graças a Deus que vão tudo pra escola!
- Oxe, num é o quê! Mas vem cá: tu viu o bafafá lá na casa de Vânia? Minina...

Não quis bisbilhotar o caso da Vânia e pensei no que a ‘cumadi’ falou sobre a volta às aulas. Eu acho interessante este período. Muitos pais levantam as mãos para os céus – afinal eles terão ‘um pouco de sossego’, o governo faz sua propaganda básica de que está investindo em educação e tome lá uma cacetada de números e dados que ninguém se interessa ( e nem entende direito), a imprensa faz suas reportagens de sempre sobre a “volta às aulas”: pesquise antes de comprar o material escolar, o que vai na lancheira da criançada, como fazer para acordar a galerinha logo pela manhã cedinho, crianças dizendo que vão sentir saudades das férias, o que fazer no primeiro dia de escola, etc e etc.

Ou seja, tudo completo, tudo certinho. Belo trabalho de informação.

Ah é, tem só dois detalhezinhos à toa, quase insignificantes: os professores e a condição das escolas. Besteira, detalhes, não precisamos perder tempo com essas coisas...

É mais do mesmo. Na Segunda-feira as aulas começam em parte das escolas em Salvador. E começam com os mesmos problemas de sempre: a grande maioria das escolas com infra-estrutura precária, materiais e condições de trabalho escassas, professores recebendo as turmas e já antecipando “o tamanho da encrenca” em salas abarrotadas com 45 alunos e todos eles com histórias diversas de vida, com sonhos, com dramas, problemas, esperanças e desilusões. Ser professor principalmente em escola pública na periferia das grandes cidades é algo heróico – e professores não querem honrarias e gratificações, querem dignidade para trabalhar, pelo menos.

Durante o ano letivo nas escolas é “projeto” pra tudo quanto é lado: cidadania, direitos humanos, educação ambiental, educação no trânsito, consciência negra, sexualidade, higiene e mais um bocado de temas e sub-temas. E na sala dos professores é um tal de conversa, planeja, faz reunião, briga, impõe, cede, justifica, flexibiliza, escolhe, não escolhe, vota, não vota...

Nada contra projetos interdisciplinares; o problema é que muitos destes projetos pretendem ensinar aos alunos – e estou falando de ensino fundamental I, o velho primário da 1ª a 4ª série - que eles devem lavar as mãos antes das refeições, que para atravessar a rua é preciso olhar para os dois lados, que o sinal vermelho significa PARE, que não devemos jogar lixo na rua, que devemos tratar os outros com respeito...

Ops...! Sentiu algo familiar? Deixa eu perguntar de novo: sentiu algo familiar?

É certo que o perfil de família vem mudando no Brasil. “Mães solteiras” tem aos montes. Mas é preciso entender que filhos trazem responsabilidades – e quem deve assumi-las é a mãe ou o pai. Melhor se ambos, na verdade é o ideal. Não é a professora que deveria ensinar a criança a lavar as mãos antes de comer ou como atravessar uma rua. Mas perdura a lógica do "não tem quem ensine, então vai lá, profe!". Como é mesmo aquele jargão do Bombril?

Não, não sou radical e nem insensível à problemática social que atinge muitas famílias e mães solteiras sobretudo na periferia. Tal descaso com a educação dos filhos acontece também na fodona classe média – e aí é pior ainda, porque o casal precisa trabalhar feito burro de carga o ano inteiro para trocar de carro no final do ano ou viajar para Nova Iorque ou Miami ( e matar o vizinho de inveja, essa é a melhor parte!) . E quanto ao filho ou filha? Deixa lá na escola – particular e cara - que os professores se viram. Vínculos afetivos, referências familiares? Bota Shrek ou A Era do Gelo lá no DVD, Maria! E depois sirva o jantar, mas uma saladinha light, bem magra, porque estou agora na Dieta da Lua Cheia!

Lamento pelas cumadres na fila da lotérica que referem-se à escola apenas como “depósito” de crianças. Infelizmente muitos pais também pensam assim. Professores assumem responsabilidades e papéis que não são pertinentes à sua função e...

- Próximo da fila!
- Opa, bom dia. Faz esses dois jogos, por favor.
- Num quer entrar no bolão, não?
- Não. Agora, vai! Sonhei com esses números!
- Boa sorte...
- Com toda essa "vibração positiva" em suas palavras, ainda bem que sonhei com os números!

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

"Não teve presidente melhor pro pobre do que esse Lula!"

A semana foi repleta de surpresas: a banda Calypso foi indicada ao prêmio Nobel da Paz; descobre-se que um deputado possui um castelo avaliado em US$ 25 milhões no interior de MG ( é isso aí: um castelo medieval lá no interiorzão de Minas! Quer saber pra onde vai seu imposto? Veja outra foto AQUI); e os índices de popularidade e aprovação do presidente Lula batem recordes! Mas espere aí...essa notícia do Lula é surpresa?
Este texto talvez cause alguma polêmica e pode ser que eu perca meus 3 ou 4 leitores, mas vamos lá...

Ao que parece os arautos da matraca (não conhece? Leia Machadão!) tomaram um susto ao constatar que, mesmo com a apocalíptica e terrível crise, o presidente conta com a confiança de mais de 80% dos brasileiros. Lembrei-me daquela passagem bíblica, que fala em “choro e ranger dos dentes”, mas nas redações da “imprensa grande”. Miriam Big Pig, minha nossa, acho até que tomou calmantes!

Mas o que explica essa popularidade tão grande do presidente Lula mesmo com os cavaleiros do apocalipse tentando espalhar o pânico com a crise?

Os sociólogos, filósofos, especialistas, analistas, comentaristas, jornalistas e mais um bocado de “istas” se debruçam em cima de teses e mais teses, explicam e complicam, giram, giram, giram e não saem do lugar. Tentam superdimensionar os efeitos da crise - é claro que ela existe e está aí, mas não do modo como a Cassandra Big Pig pinta. Preconceitos vem à tona ("o povo é burro, é analfabeto”) e...nenhuma explicação convincente. Droga! E agora?
Sugestão aos “istas”: esqueçam que o Brasil resume-se à Av. Paulista, ao Jardim Botânico e à Esplanada dos Ministérios. Dêem uma olhada no sertão nordestino, por exemplo. E lá encontrarão uma boa resposta, que é justamente o título deste texto:

“Não teve presidente melhor pro pobre do que esse Lula!”

O autor desta frase não é um petista – longe, bem longe disso (aliás, nem este que escreve estas mal digitadas); sequer gostava ou confiava no Lula, “aquele baderneiro”. O autor desta frase é meu tio Zé, 60 anos vividos na roça e da roça, no sertão baiano, bem pertinho à Chapada Diamantina.

E tampouco é um ignorante. É bem-informado graças ao hábito de ouvir as notícias no radinho de pilha ( agora não precisa mais, pois a energia elétrica chegou à roça), costume adquirido com seu pai, meu avô.

Durante as festas de fim de ano, um pouco antes do natal e até o ano-novo, fui viajar pelo sertão passando por algumas cidadezinhas e povoados das quais eu não visitava há uns 4 ou 5 anos. Percebo que há algo diferente nestes lugares.

Em um povoado destes que ficam perdidos no meio do mapa e onde tenho um monte de parentes (quase todo mundo é primo. Até quem não é parente, fica sendo), sento em um banco à sombra de um pé de caju na pracinha central do lugar e começo a observar aquele meio todo.

Antes só havia boteco, um mercadinho e um depóstio de material de construção com poucos negócios; agora, estes estabelecimentos dividem lugar com outros dois mercadinhos, uma loja de móveis, uma loja de eletrodomésticos, uma loja de produtos para fazenda, uma farmácia e três lan-house. Ah, e uns botecos continuam por ali, claro, funcionando como consultório psiquiátrico.

- Rapaz, como o comércio aqui cresceu, hein?, comento com um dos meus 542 primos.
- É...é que hoje tá fácil pegar um empréstimo no banco e tem dinheiro na praça.

E ele tem razão. Segundo meu tio, se meu avô quisesse um empréstimo do banco para arar a terra ou comprar implementos agrícolas, era uma verdadeira luta burocrática. Sem falar na ajuda de algum “doto” da cidade para “bater um papo com o gerente”. Hoje a coisa está mais fácil. E o povo tem um dinheirinho a mais. Como o salário mínimo teve um progressivo aumento (longe do ideal, mas é melhor do que nada), o valor da aposentadoria também aumentou e ainda tem a bolsa-família.

As casinhas estão com telhados novos. Tem até geladeira e TV. Muitos negócios são feitos ainda na base da palavra, da confiança. E os compromissos são honrados, pois sabe-se que a chamada “classe baixa” ( quem criou esse termo?) é a que mais procura honrar seus compromissos em dia.

Este é o cenário em uma pequena parte do sertão baiano (conferi quase a mesma coisa em outras localidades – e conheci outros 382 primos). Obviamente, há lugares e lugares e ainda falta muita coisa. Os jovens continuam a sair em busca de oportunidades de trabalho; as drogas começam a fazer parte da rotina da região e não podemos esquecer da seca. Mas as pessoas agora têm oportunidades. De progredir. De estudar. Isso responde a pergunta “e quando a bolsa-família acabar?” O governo deu oportunidade. Cabe à pessoa aproveitar. Muitos jovens saíram do povoado e estão cursando faculdades em Jacobina, Feira de Santana, Barreiras, Irecê. Embora eu tenha lá minhas restriçoes ao PROUNI, reconheço que é um incentivo para muitas pessoas. Mas continuo contra as cotas. Bem, deixo isso para outra vez.

É por isso que os arautos da matraca não entendem a popularidade do Lula. Porque a “grande imprensa brasileira” não está nem aí para o que acontece neste Brasil, à exceção de São Paulo, Rio e Brasília. Os “istas” interessam-se pelo o que acontece em Nova Iorque, isso sim. E pelas tendências de moda, informática, séries enlatadas e blockbusters canastrões no cinema. É um "jornalismo" para uma determinada faixa de público, e não para o público em geral.

Nova Iorque, crise financeira mundial, especulações em bolsas de valores, banqueiros desesperados, Davos, Dow-Jones, Nasdaq, oscar póstumo para Heath Ledger ( como diabos se diz esse nome?)...o sertanejo quer é saber se vai chover ou não, se a arroba do boi vai aumentar, se o feijão que plantou vai nascer, se o gado vai ficar naquele pasto ou se planta capim por ali, se o arroz com feijão e a carne estarão na mesa, se Fulaninha vai casar com Fulaninho do posto...

É é por isso que você toma um susto ao ver que aquela banda com uma cantora de gritinhos irritantes faz um trabalho social importante no Pará. É porque é lá "na amazônia". Não é na Paulista e nem no Jardim Botânico. E não é nada relacionado à crise. Ou alguma "diva". Como diz uma dos meus 756 primos ( é, perdi a conta), "se essa Madonna solta uma bufa, todo mundo acha genial e toca até na rádio".

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

Complexos

Meninos e meninas, eu vi mais uma vez: a propaganda da SABESP na TV. E na Bahia. Continuo “sem entender” o porquê da propaganda da companhia de água e saneamento básico do estado de São Paulo, Sudeste, ser exibida em Salvador, Bahia, Nordeste. A propaganda da SABESP chega a Salvador, mas a água não chega à periferia de Sampa. Sede, banho e água é nada, imagem é tudo.

Bom, deixa pra lá (por enquanto). Acompanhe essas duas historinhas:

Javier e Mercedes são espanhóis e aproveitam as férias para viajar por lugares exóticos e baratos. Escolheram o Brasil e embarcaram num cruzeiro de luxo. Ao chegarem no país, encontram as melhores recepções possíveis: no Rio de Janeiro, são recebidos por escolas de samba, mulatas semi nuas, sorrisos e gentilezas; em Salvador, as baianas dançam e distribuem fitinhas do senhor do Bonfim aos turistas, além de Acarajé e Abará. E sorrisos, muitos sorrisos. Pablo e Mercedes ficam encantados com o Brasil!

Marcos e Adriana são brasileiros e resolveram passar a lua de mel na Espanha. Fizeram um casamento mais simples para realizar o sonho da viagem à Europa. Embarcam num vôo direto para Madrid - classe econômica. Chegando ao aeroporto da capital espanhola, são barrados pelos policiais, que verificam os passaportes e documentos. São conduzidos, juntamente com outros brasileiros, a uma salinha de 9m2 onde passam o dia inteiro sentados no chão e com apenas um jarro d’água. Um funcionário da imigração interroga Marcos e Adriana. Os dois respondem que é viagem de turismo, de lua de mel. O funcionário não fica convencido e manda os dois de volta à salinha, e acabam dormindo no chão duro e frio. No dia seguinte o casal, juntamente com o grupo de brasileiros, é deportado.

As duas historinhas são baseadas em fatos reais. Acontecem todos os dias, basta mudar o nome das personagens. Mas demonstram o tratamento dado aos turistas lá e cá. O slogan “trate bem o turista” é levado a sério até demais aqui no Brasil. Em Salvador há policiais à paisana que até escoltam grupos de turistas, embora a Delegacia de Proteção ao Turista desminta tal nota.
Já em alguns países da Europa a coisa é diferente. Sob a justificativa de conter as imigrações ilegais, tráfico de drogas e prostituição, Espanha, Portugal e Inglaterra exageram na dose. Vira e mexe vemos notícias de turistas e estudantes brasileiros – com a documentação em ordem – passando por apuros nos aeroportos de Lisboa e Madrid.

Há quem diga que brasileiros devemos mudar nosso “jeito de ser”. Que nossa imagem no exterior é de um povo “indolente, festeiro e corrupto”. Em partes há exageros – certos tipos de danças, músicas e um monte de dançarinas semi-nuas recepcionando turistas do estrangeiro deixam uma imagem pra lá de sugestiva ( o paraíso do turismo sexual, por exemplo).

Mas na verdade temos é que acabar com o que Nélson Rodrigues chamava de “complexo de vira-lata”. Quem nunca ouviu aquele cunhado chato falar “Isso é importado, coisa fina, melhor qualidade”? Ou seu tio crica dizendo “Lá é diferente, não tem pobreza e nem corrupção”. Cunhadinho chato e titio crica, experimentem a Itália, especificamente o sul do país. E lembrem do Berlusconi quando referirem-se à corrupção.
Lá e cá tem seus problemas. Maiores ou menores, dependendo do setor. Brasileiro não precisa sentir-se reduzido diante de um estrangeiro ou virar um capacho a troco de uns trocados. Se você viajar pro exterior, com tudo certinho e mesmo assim alguma autoridade engrossar, é só telefonar para a embaixada ou consulado do Brasil. É um direito.

E nada de tirar a roupa no aeroporto! Cara de pau e mentiroso tem em todo lugar, tá vendo?

Falando em Brasil de acordo com a nova pesquisa CNTE-SENSUS o presidente Lula alcançou uma marca histórica: 84% de popularidade e 72% de avaliação positiva.

Pânico generalizado nas redações da “imprensa grande”, no gabinete do Nosferatu Serra e no camarim da Miriam Big Pig. Calma, gente! Recomendo que todos tomem um copo d’água – da SABESP, obviamente.

Só que eles não desistem: no mesmo dia em que a aprovação de Lula é histórica, olha o que a FOLHA ONLINE apronta:
Tá ficando feio pra “imprensa grande”, viu...

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