Com um calor de rachar em um carrinho popular sem ar-condicionado, ao menos os Beach Boys eram companhia agradável neste trânsito maluco da São Salvador de Todos os Santos. Apesar de rolar “Fun fun fun” no cd, eu não tinha motivos para me alegrar: acabara de doar para o governo a bagatela de 400 mangos no pagamento do famigerado IPVA ( quer saber pra que serve o IPVA ao menos teoricamente? Clique AQUI).Guiava meu teco-teco pelas ruas e pensava nos custos para se manter um carrinho. É muito dinheiro. Só de impostos e licenciamento, é uma pequena fortuna. Gasolina, então, nem se fala. Dizem que um cara inventou um carro movido à água e desapareceu. Os chefões do cartel do combustível deram fim nele. Adoro essas teorias conspiratórias de boteco!
Eu cantarolava “Help me Rhonda” (meu carro é Fiat da P...) trafegando por uma rua tranquila quando me deparo com uma verdadeira pérola: um Chevette, de cor bege, caindo aos pedaços, todo detonado. Devia ser ano 77 ou 79 . Mas andava, sabe lá Henry Ford como! Há quanto tempo não via um Chevette! O que me chamou a atenção mesmo foi o letreiro pintado à mão na lataria do carro, na parte traseira (onde deveria existir um pára-choque):
Até agora esta foi a melhor frase que li em adesivos ou letreiros em carros neste ano. Deve ser até antiga, mas é a primeira vez que eu vi. Gosto de prestar atenção nesses adesivos e letreiros que o povo cola nos seus automóveis. A maior parte não tem graça: “Jesus é meu guia”, “dirigido por mim, guiado por Deus”, “Coração apaixonado”, “Quer emagrecer? Pergunte-me como” e mais um monte de outras frases nada originais, isso sem contar nas bandeirinhas de países europeus (geralmente Espanha e Portugal) para o dono mostrar que tem "descendência européia, seus pobres tupiniquins" ( um dia escrevo sobre isso). Que saudade dos pára-choques de caminhão!O que eu achei mais sensacional em “Tá velho mas tá pago” ( ele não paga IPVA – carros com mais de 20 anos de uso estão isentos) foi o debochado recadinho a uns novos-ricos que circulam pela cidade com seus possantes carros 0km e não tem nem onde cair duro. Não sei se o dono do Chevette lê jornal, mas eu leio e estava lá: Inadimplência em compra de carros é a maior da história.
Para Miriam Big Pig até os furos nas calçolas são culpa da apocalíptica e devastadora crise. Mas e se o fulano compromete metade do salário num financiamento de uns 72 meses para comprar um carro zero? Claro, as taxas de juros, mas e a taxa de simancol do fulano pra não se meter em dívidas e mais dívidas? É que estou pensando no vizinho do terceiro andar e você deve conhecer algum assim: o cara todo mês atrasa o condomínio, mas o carro na garagem é zero, novinho. E tem ar condicionado, vidros elétricos, umas rodas invocadas e,é claro, tem som potente pro mané mostrar para todo mundo seu excelente gosto musical. O síndico já tá de olho no sujeito.
Já faz certo tempo que li uma frase interessante, não me lembro onde: "carro não serve para fazer você chegar a algum lugar; carro serve para mostrar onde você chegou". Tem lógica. Vejo umas pick-ups enormes por aqui ( em Salvador, a cidade onde as ruas são estreitas e lá do tempo do rei) e sempre faço a mesma pergunta: “pra que diabos esse cara quer um carro deste tamanho?”. É, pode ser isso aí mesmo que você pensou.
Passei o velho Chevette, dei um toque de buzina, e o motorista retribuiu. Não vi a cara do sujeito e nem me interessava. O carro, detonado e já nas últimas, tornara-se simpático, até. Talvez o dono queira um carro mais novo; talvez ele queira mesmo reformar o Chevette, todinho. Vai saber. Enquanto isso os Beach Boys tocavam “Wouldn’t it be nice”, que inspirou o jingle para uma propaganda de conhecida pick up – por "apenas" o custo de uma casa, com juros “camaradas” e planos de até 100 meses para pagar!
Sei não...daqui a algum tempo, acho que serei eu a estampar no meu carrinho um “tá velho mas tá pago”.









