sábado, fevereiro 07, 2009

Devaneios na lotérica ( Yes! I can...be a rich man!)

Entreouvindo na fila da lotérica (ora, também faço uma fezinha, porque sou brasileiro e não desisto nunca – e dou uns trocados a mais pro governo. Talvez pra um deputado desviar e construir um castelo medieval em Minas Gerais. Sei o que deve estar pensando. Um otário, eu. Deixa pra lá):

- Minina, ainda bem que segunda-feira já começa as aula.
- Minha filha, eu já num güento mais esses minino em casa! Toda a hora quer isso, quer aquilo, num tenho sussego! Graças a Deus que vão tudo pra escola!
- Oxe, num é o quê! Mas vem cá: tu viu o bafafá lá na casa de Vânia? Minina...

Não quis bisbilhotar o caso da Vânia e pensei no que a ‘cumadi’ falou sobre a volta às aulas. Eu acho interessante este período. Muitos pais levantam as mãos para os céus – afinal eles terão ‘um pouco de sossego’, o governo faz sua propaganda básica de que está investindo em educação e tome lá uma cacetada de números e dados que ninguém se interessa ( e nem entende direito), a imprensa faz suas reportagens de sempre sobre a “volta às aulas”: pesquise antes de comprar o material escolar, o que vai na lancheira da criançada, como fazer para acordar a galerinha logo pela manhã cedinho, crianças dizendo que vão sentir saudades das férias, o que fazer no primeiro dia de escola, etc e etc.

Ou seja, tudo completo, tudo certinho. Belo trabalho de informação.

Ah é, tem só dois detalhezinhos à toa, quase insignificantes: os professores e a condição das escolas. Besteira, detalhes, não precisamos perder tempo com essas coisas...

É mais do mesmo. Na Segunda-feira as aulas começam em parte das escolas em Salvador. E começam com os mesmos problemas de sempre: a grande maioria das escolas com infra-estrutura precária, materiais e condições de trabalho escassas, professores recebendo as turmas e já antecipando “o tamanho da encrenca” em salas abarrotadas com 45 alunos e todos eles com histórias diversas de vida, com sonhos, com dramas, problemas, esperanças e desilusões. Ser professor principalmente em escola pública na periferia das grandes cidades é algo heróico – e professores não querem honrarias e gratificações, querem dignidade para trabalhar, pelo menos.

Durante o ano letivo nas escolas é “projeto” pra tudo quanto é lado: cidadania, direitos humanos, educação ambiental, educação no trânsito, consciência negra, sexualidade, higiene e mais um bocado de temas e sub-temas. E na sala dos professores é um tal de conversa, planeja, faz reunião, briga, impõe, cede, justifica, flexibiliza, escolhe, não escolhe, vota, não vota...

Nada contra projetos interdisciplinares; o problema é que muitos destes projetos pretendem ensinar aos alunos – e estou falando de ensino fundamental I, o velho primário da 1ª a 4ª série - que eles devem lavar as mãos antes das refeições, que para atravessar a rua é preciso olhar para os dois lados, que o sinal vermelho significa PARE, que não devemos jogar lixo na rua, que devemos tratar os outros com respeito...

Ops...! Sentiu algo familiar? Deixa eu perguntar de novo: sentiu algo familiar?

É certo que o perfil de família vem mudando no Brasil. “Mães solteiras” tem aos montes. Mas é preciso entender que filhos trazem responsabilidades – e quem deve assumi-las é a mãe ou o pai. Melhor se ambos, na verdade é o ideal. Não é a professora que deveria ensinar a criança a lavar as mãos antes de comer ou como atravessar uma rua. Mas perdura a lógica do "não tem quem ensine, então vai lá, profe!". Como é mesmo aquele jargão do Bombril?

Não, não sou radical e nem insensível à problemática social que atinge muitas famílias e mães solteiras sobretudo na periferia. Tal descaso com a educação dos filhos acontece também na fodona classe média – e aí é pior ainda, porque o casal precisa trabalhar feito burro de carga o ano inteiro para trocar de carro no final do ano ou viajar para Nova Iorque ou Miami ( e matar o vizinho de inveja, essa é a melhor parte!) . E quanto ao filho ou filha? Deixa lá na escola – particular e cara - que os professores se viram. Vínculos afetivos, referências familiares? Bota Shrek ou A Era do Gelo lá no DVD, Maria! E depois sirva o jantar, mas uma saladinha light, bem magra, porque estou agora na Dieta da Lua Cheia!

Lamento pelas cumadres na fila da lotérica que referem-se à escola apenas como “depósito” de crianças. Infelizmente muitos pais também pensam assim. Professores assumem responsabilidades e papéis que não são pertinentes à sua função e...

- Próximo da fila!
- Opa, bom dia. Faz esses dois jogos, por favor.
- Num quer entrar no bolão, não?
- Não. Agora, vai! Sonhei com esses números!
- Boa sorte...
- Com toda essa "vibração positiva" em suas palavras, ainda bem que sonhei com os números!

14 comentários:

  1. Realmente, a precariedade da educação brasileira envergonha à toda população com mínimo de instrução...

    Parabéns pelo blog!

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  2. Todos que são eleitos, seja o presidente, governador, prefeito, falam que vão investir em educação, que a educação é o ensino é caminho para o progresso de uma grande nação. Porém o que se vê não é bem isso.
    Muitos pais matriculam os filhoa para comere merenda e para ter um pouco de paz dentro de casa. e muitos pais acham que é na escola que o filho será educado.
    É triste mas é a realidade.

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  3. Nossa, cheguei no seu blog pra conhecer e já me identifiquei totalmente!! Sabe que sou professora de uma Universidade no interior do MA e vou te contar...o ensino público já é defasado nas grandes capitais, mas vc não tem noção da gravidade do ensino público numa Estadual do MA, é crítico, preocupante , e envergonha! Os alunos falam "os animal", "nós vai" e alguns se comportam como animaizinhos selvagens, faltam arranhar a sua cara se vc pede pra não colarem na prova!
    Falar em educação é grave ali dentro. A grande maioria são pais e mães, têm 3,4 filhos pra criar...fico me perguntando, se eles tem pouca instrução, o que vão passar pros filhos? não falo de educação(puro conhecimento),vou até além, falo de valores, de preceitos , de amor ao proximo.E isso, vc não conquista na sala de aula simplesmente, se fosse assim a classe média e rica desse país estaria a salvo, e isso a gente sabe que está longe de ser uma verdade. Parabéns pelo blog!

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  4. A charge que você publicou está perfeita, traduz com perfeição a realidade do ensino público no Brasil!

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  5. É realmente muito triste ver que é essa a visão que muitas mães tem da escola: "manda os meninos pra lá, só assim a gente tem paz", é isso que ouço comumente, já que hoje edm dia começam a mandar as crianças pra escola cada vez mais cedo, com 2 anos no maximo já estão na creche, como estou me licenciando em Letras e já dou aulas isso é bastante preocupante. É certo que os professores são uma grabde referncia para a formação cidadã, mas a base da eduvação está em casa, e isso aS crianças aprendem com o convívio e os exemplos que tem, masas quwrem jogartoda a responsabiblidade da formação na escola, poxa, alguem deveria avisar a essas pessoas que els tambem tem que fazer a parte deles...
    Mas ai já é uma questão de consciencia, ou melhor, de falta dela!

    Beijos, passalá em "casa" se quiser!

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  6. Nossa! Perfeito este texto! Também sou educadora e leciono na prefeitura de Guarulhos (PEB I), e todos os fatores mencionados descrevem bem a realidade tal como ela é. A escola há muito vem perdendo suas reais funções e o espaço para o assistencialismo é demasiadamente grande, de forma que a responsabilidade que deveria ser da família acaba sendo quase que totelmente transferida para nós, e o ensino, onde fica?
    Nas reuniões e formações das quais participo fala-se muito sobre o horário de refeição como um espaço educativo, ok, ok, mas em 15 minutos que voam, cá entre nós, com tantas crianças para se servir num self-service que não tem a mínima diversidade de alimentos e a criança não tem nada pra escolher, e no qual o professor também é nutricionista e inspetor de alunos tudo ao mesmo tempo, e quando o último termina de se servir (com o profº orientando e apartando brigas na fila), quase todos os outros já terminaram de comer e as brigas recomeçam, porque eles reporduzem toda a violência que presenciam em casa, na rua, na TV...alguém me diz como é possível para um professor que tem que ser "multifuncional" tornar este momento "educativo"? Sem contar que o tempo na escola é escasso, com dois intervalos, francamente! Seria melhor UM intervalo só com alimentação de qualidade do que dois com alimentação precária, só pra tomar tempo!
    Tudo é lindo nas propagandas, aliás, é SÓ propaganda! E quanto aos projetos para ensinar o que deveria ser ensinado pela família, concordo! É muito projeto e os índices de crianças terminando a 4ª série sem o mínimo domínio da leitura e da escrita aumentando...
    Enfim, seu post dá margem a muitas e muitas reflexões a respeito do rumo que a educação vem tomando!

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  7. LOTERIA: Diz um amigo, que a probabilidade de ser atropelado por um carro na rua, é muito maior, do que ganhar na Loteria Esportiva. É bem verdade que quem não joga, aí é que não ganha mesmo. Jogo é jogo, coisa sem lógica, que tem como base a sorte. Mesmo assim não me conformo, quando tem sorteio, que ninguém acerta, e o prêmio acumula mais de uma vez, terminando saindo para uma só ganhador, que sozinho as vezes ganha de 20 a 30 milhoões, quando no mínimo, poderia ser um prêmio dividido para umas 30 pessoas. Já pensou um milhão para cada, seria mais justo, eu acho, pois se praticaria um pouco de distribuição de renda. ESCOLA: Os governos adoram números, dados estatísticos, quantidade de alunos matículados, mas a qualidade do ensino que é bom... O que me impressiona além de tudo que você relatou, são os currículos desatualizados para nossa época, pois ferramentas como a internet -mesmo ainda existindo erros de informação - não se pode negar a inesgotável fonte de conhecimentos disponíveis, muito mais fáceis do que uma biblioteca. Não quero dizer com isso que seja dispensável, mas pelas facilidades que a internet proporciona. Torçamos para que as coisas melhorem, promessas é que não faltam. Um abraço, Armando [recomentarios.blogspot.com)

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  8. Falou uma coisa certa sobre educação cara. As pessoas só querem saber de se livrar dos filhos. Preferem que eles fiquem em um abiente precário e ter sossego, do que se interessar mais pela vida escolar do filho. Acho isso muito errado! O povo deveria cobrar mais do governo... Fazer pressão! A voz do povo é a voz de Deus, já dizia o poeta... Por que os EUA é do jeito que é? Porque lá o buraco é mais embaixo e não tem quase politicos corruptos. O Brasil ainda tem muito o que fazer para melhorar a educação, infelizmente.

    www.centralldamusica.blogspot.com

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  9. Projetos e mais projetos, as vezes brilhantes, todos os estagiários tem que fazer na vida. As professoras tem que fazer pq eh parte do planejamento semestral ... enfim, somos além de professores, babás, empregados mesmo! que merda!
    :D
    SER MESTRE É PADECER NO PARAÍSO!
    Amém

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  10. Infelizmente essa é a realidade. Chega a doer os ouvidos de ouvir, mas é mais comum do que nós imaginamos, escutar mães desprezando filhos, como se estivessem mudando de par de sapato. O pior é ter uma visão totalmente ignorante sobre o colégio. Para muitas, é um lugar onde os filhos vão para elas terem paz.
    E é nessa "paz" que surge mais um filho, e outro, e mais outro.

    Obrigado pelo comentário lá no meu texto. Estaremos por aqui!
    Abraço

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  11. Em Sampa, na rede pública estadual de ensino as aulas começam apenas no dia 16/02, mais uma semaninha para se preparar para a batalha de todo ano, as reclamações de todos os anos, os pais e responsáveis "irresponsáveis" de todos os anos, os problemas estruturais de todos os anos, o Governo do PSDB de todo ano (hehehehe), todo ano a mesma coisa, o que muda é que nada muda, pode ser que as notícias ruins mudem, pode ser...........já é um avanço....

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  12. gostei muito do blog e vou seguir
    quando puder visite e siga o meu tb!
    http://yaseryusuf.blogspot.com/

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  14. Eu não gostava de merenda da escola. Gostava de bolo.

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