sábado, abril 19, 2008

What, me worry?

Dois fatos que muito provavelmente tenham passado despercebido pela maioria das pessoas, já que a overdose midiática em torno do caso Isabella fez com que o Brasil “parasse” em alguns aspectos.

O primeiro fato foi a paralisação dos professores da rede municipal de Salvador por 5 dias, em uma tentativa de pressionar a prefeitura a conceder um aumento maior do que os 5% divididos em 2 vezes sem juros e sem correção monetária. Os professores não conseguiram um percentual maior, mas ao menos conseguiram que essa fortuna de 5% fosse paga integralmente já a partir de Maio. Uma vitória! Tem professor que nem sabe o que fazer com todo esse dinheiro!

O segundo fato foi o assassinato do estudante Ruan Sérgio, de 16 anos, por um adolescente de 13 anos de idade, quando saía da escola. Ruan foi morto com 2 tiros disparados de uma arma de fogo em poder do jovem de 13 anos. Os dois estudavam em escolas particulares.

O que uma coisa tem a ver com a outra?

Bastante. Segundo a sempre correta imprensa, 150 mil alunos da rede municipal de ensino foram prejudicados com a paralisação dos professores. Interessante a constatação da imprensa. Os alunos são prejudicados apenas quando há greve ou paralisação – e é claro que uma greve é prejudicial, sem dúvida. O problema é que muito raramente encontram-se reportagens do tipo “150 mil alunos da rede municipal de ensino são prejudicados pelas péssimas condições estruturais das escolas, falta de recursos e carga horária excessiva dos professores”.

Muitos pais sabem das condições estruturais e da falta de recursos de grande parte das escolas públicas ( apesar de certos “especialistas e mestres” em educação desprezarem tais condições preferindo culpabilizar o docente – afinal, mais de 90% das escolas brasileiras tem “água e luz”) e colocam os filhos em escolas particulares, onde acreditam que o ensino e a disciplina são melhores, deixando-os imunes à violência.

Este é mais um daqueles mitos propagados em cima do marketing de muitas escolas “de grife”. Geralmente vemos casos relacionados a drogas e violências como “exclusivos” de escola pública, de periferia, esquecida até por Deus. Como se escolas particulares fossem ilhas isoladas de todos os problemas, até mesmo os relacionados com drogas.

Em várias dessas escolas consideradas “de grife”, que fazem propaganda incessante em TV, revistas e jornais sobre “ensino de qualidade”, as orientadoras pedagógicas e diretores precisam fazer, e não apenas de vez em quando, a operação “abafa o caso”, com alunos que são pegos com drogas escondidos nas mochilas ou criam problemas na escola porque são usuários. Episódios de violência também são comuns. Imagem é tudo, e a imagem negativa deve ficar lá com a periferia, com a escola do governo.

Para muitos pais é bem mais cômodo largar (infelizmente, em muitos casos, é isso o que acaba acontecendo) o filho numa dessas escolas e deixar toda a responsabilidade para professores e coordenadores do que acompanhar o desenvolvimento dos filhos e passar mais tempo com eles. Claro, afinal é preciso trabalhar para trocar de carro ( zero, evidente) todos os anos só pra matar o vizinho de inveja, pagar a TV a cabo e viajar de preferência para Miami ou Nova Iorque, afinal isso é ser feliz.

Este adolescente que matou o Ruan simplesmente fez uma cópia da chave do armário onde estava guardada uma arma (que pertencera ao pai do garoto, morto há 10 anos), escondeu essa arma embaixo da cama e ainda tirou fotos para colocar em seu álbum no orkut. E matou o outro adolescente por conta de motivo fútil ( segundo testemunhas, uma discussão sobre futebol).

Será que esse jovem não tinha noção do que estava fazendo? Matar a sangue frio um rapaz apenas 3 anos mais velho do que ele não se configura apenas em um mais crime que engrossarão as estatísticas dos boletins da sempre eficiente e comprometida secretaria de segurança pública, e sim na triste constatação de o quanto a vida é banalizada. Mata-se por qualquer motivo porque é muito fácil conseguir uma arma. Mata-se sem remorsos porque isso já é comum. Tudo é facilitado. Não há limites. Lembra até propaganda de TV: tudo fácil, sem limites e sem enrolação!

As pessoas andam muito melindradas. Quem tenta orientar quanto aos limites é logo agredido, verbal ou fisicamente. Não se toleram restrições, fracassos, deveres. Nas escolas – públicas e particulares - vemos tudo isso sob a justificativa de “não desestimular o aluno e aumentar sua auto-estima”. Junte este quadro à super proteção de pais com discursos do tipo “estou pagando o salário de vocês pra que meu filho seja educado e não para que ele fique para recuperação! Vai estragar nossos planos de viagem!” e as famigeradas “aprovações automáticas” que teremos, enfim, cidadãos despreparados para lidar com frustrações, fracassos e alguns insucessos ao longo de sua vida. Sobram o consumismo e o conceito de "ser alguém na vida" ligado aos bens materiais que conseguiu, de forma lícita ou ílicita - não se faz mais essa distinção, o que importa é sustentar essa imagem.

Que tem a ver com o poder. O poder de humilhar, ostentar, de causar medo ( nunca se perguntou porque tantos magricelas passeando com seus pitt bulls por aí?), de superar o outro, de tirar uma vida quando bem quiser.

Educação constitui-se de três pilares fundamentais: família, escola e estado. A partir do momento em que família e estado eximem-se de suas responsabilidades, deixando a cargo apenas da escola a função de educar a criança e adolescente, não adianta pais procurarem escolas particulares sejam elas de grife ou não e nem a imprensa querer simplificar uma paralisação de professores com um viés populista ao estilo “o povo, como sempre, paga o pato”. Há questões bem mais sérias envolvidas e todas exigem responsabilidades. Responsabilidades por parte de pais, professores, governantes, sociedade. A escola fracassa. Claro. Está sozinha no processo.

Bom se essas coisas fossem mais simples. Acontece que não são. Não dá para resolver tudo com um cartãozinho de crédito.

Apesar de quererem fazer-nos crer que sim.

CONSEGUIRAM...

O caso da menina Isabella Nardoni já foi tema de dois posts aqui no Grooeland ( veja os dois últimos posts). Muitos blogs ( também de jornalistas) e sites só agora estão falando do que virou um “circo” ou um Big Brother. Bem, antes tarde do que nunca para perceberem, não?
Evidente que isso não é exclusividade de brasileiros. Basta lembrar dos terríveis tablóides ingleses, especializados em publicar notícias interessantíssimas que irão mudar o mundo, como se o príncipe comeu ou não a empregada no palácio. Na verdade, nem precisa ir tão longe, assim: que tal o Notícias Populares, Aqui Agora e o "povo na TV"?

Porém todo esse festival, essa histeria, pessoas que saem de cidades do interior só pra manter vigilância na frente da casa dos acusados ou da delegacia de polícia ( com celulares tirando fotos para depois mostrar aos vizinhos “olha aqui ó! ó o cara que matou a menina! Olha, olha eu tava lá” ) só pode ser resumida em uma palavra: ridículo.

Mas a imprensa deve estar feliz da vida. Estes links não deixam dúvidas que os objetivos foram alcançados:

Isso não é só apenas ridículo. É nojento. Que os imbecis façam bom proveito de suas câmeras digitais e celulares idiotas e registrem tudo para montar um álbum e dizer que “ao menos fizeram alguma coisa”. As escolas estão aí, com muito trabalho a ser feito; os asilos de idosos, os lares de crianças com câncer, os orfanatos.

Mas já há um avanço: até agora, não apareceu ninguém com um cartaz “FILMA EU GALVÃO”. Isso é que é um povo civilizado!

8 comentários:

  1. Gostaria de agradecer aos comentários muito gentis sobre este humilde e despretensioso blog. Muito obrigado! Valeu!

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  2. Ahhhh, mas o garoto que atirou era bolsista, filho do porteiro, da dona da cantina... A-POS-TO!

    Eita BRazilzão bom da peste!

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  3. como sempre excelente post.
    1° sabia que eu vou ser prof. e como prof. sei q vou ganhar pouco, ou muito, depende de onde eu de aula, mas isso nao vem ao caso, e sim que é proibido por lei rodar alguem, tipo a pessoa tem q passar, pq vc tem q valorizar os pontos bons do estudante, nao importa se ele nao tem pontos bons. e daew surgem pessoas como este cara que matou o outro, e claro q eu nao tava sabendo, pq nao assisto jornais, e qndo assisto é pra saber do caso isabella.
    2° Sim eu qro saber do caso, e quero ver que fim vai dar, tb acho errado so falarem disso, acho errado falarem certas coisas e acusarem pessoas sem provas o suficiente, se alguem tem culpa dos populares estarem indo atras dos Nardoni eh a midia que so fala disso, e instiga as pessoas a fazerem justiça. sendo que todos os dias morrem crianças, que nao sofreram so na hora da morte mas a vida inteira.
    beijao otimo post.

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  4. Muito bom o post... Quando vejo essas "meias notícias" pela TV eu me mijo de tanto rir...

    Só digo pro dono do blog que se é pra blogar tem que investir em algum serviço de monetização... Tem muito conteúdo educativo aqui.

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  5. Também tive que citar Caso Isabela no canis, mas isso foi da interlocutora. Eu não pensava só na Isabela, mas das Isabelas que não são jogadas de altas coberturas. mas que diariamente sofrem as mais variadas agressões e ainda são punidas com a vida.
    Discussão sobre futebol é a pior para ativar a raiva de um ser humano, mesmo sendo um garoto de 13 anos. Temos dicas já... pai ausente, Estado, sempre ausente, como não, e a escola, particular, o refúgio da ideologia capitalista-cristã, enquadrados em salas de aula com a hierarquia supostamente definida e opressora. Acontece isso! Quanto ao problema Educação Pública... as leis e os pedagogos adoram me eliminar antes mesmo de saberem que meu mestrado pode lhe ser útil.. ou vai ver que este é o problema! UHAHAHA Abraços!!

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  6. Gente, nisso tudo cadê o padre que sumiu com os balões!?
    Huhauh... =x Ops, coitado.

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  7. Primeiro, muito obrigado a todos pela visita e pelos comentários!

    Karin, tem até uma piada dita de "humor negro" sobre o padre, mas não ouso contar aqui...uhauhauhauha!!!

    Bella, nem sei...como te disse, causou algum estardalhaço por aqui, mas agora tá completamente esquecido...

    Camila, pois é...prepare-se para uma vida profissional com poucas recompensas; mas quando estas poucas recompensas aparecem, são gratificantes. Uma hora dessas coloco aqui uma dessas experiências!

    Marcel, uma hora descubro como se faz isso...hehehehe. Mas vou botando esses textos aqui quando me sobra um texto ( e porque gosto, também).

    Nobre Quintella, seu problema é que você é por DEMAIS QUALIFICADO, por isso não serve! uhauhauha! Mas é sério: tem "univerçidadi" por aí dispensado doutor e até alguns mestres!

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  8. pRA ONDE SE OLHA OU SE OUVI ESTÃO FALANDU SOBRE ISABELLA MESMO, AGORA QUE ELES FORAM PRESOS VAI SER PIOR AINDA "!

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