quinta-feira, maio 01, 2008

Você sabe tocar berimbau?

A polêmica da vez fica por conta das declarações do professor Antônio Natalino Dantas, coordenador do curso de medicina da UFBA – Universidade Federal da Bahia, que justificou o baixo desempenho dos alunos de medicina no ENADE ( Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) ao “baixo QI”. E ainda deixou a entender que o baiano, de forma geral, possui de fato um baixo quociente de inteligência: “baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais [cordas], não conseguiria".

O professor, que é baiano, também posiciona-se contra as cotas para afro-descendentes nas universidades.

Afirmações como estas não me surpreendem. Em diversos meios acadêmicos ainda perdura a vaidade de “mestres e doutores” ( a conhecida "vaidade acadêmica"), cada qual com sua pavonada julgando-se superior apenas por ostentar títulos e diplomas.

O referido professor meteu os pés pelas mãos. Em relação ao Q.I, trata-se de um teste que já não possui tanta relevância diante daquilo que chama-se inteligências múltiplas, ou seja, o “grau” de inteligência de um individuo não é “medido” apenas quantitativamente, como acontece no velho quociente de inteligência, mas também como o sujeito se relaciona com suas emoções, como desenvolve suas outras capacidades – inclusive a capacidade de percussão, dentre outros fatores.

O problema todo, mais uma vez, reside na educação e de como esta é tratada no Brasil.

A tendência hoje nas escolas públicas no ensino noturno é acabar o ensino regular e a adoção da EJA (Educação de Jovens e Adultos) ou variantes, mas quase com o mesmo esquema do velho supletivo.

Ao invés do aluno passar 04 anos estudando no ensino regular, em apenas 02 anos ele resolve "o problema". Mais 03 anos no ensino médio? Nem pensar.

Além do pouquíssimo tempo de dedicação aos estudos, ainda há a situação de penúria em muitas escolas, onde falta até giz e não raramente os professores precisam “tirar do próprio bolso” o material que as secretarias de educação deveriam oferecer. Um recurso indispensável como um simples livro didático é considerado luxo em muitas unidades de ensino.

O resultado disso? Uma massa enorme de analfabetos funcionais que sequer sabem preencher uma ficha com dados cadastrais.

Logo se percebe que não é com uma política de cotas que vai resolver o problema da inclusão quanto ao acesso a uma faculdade pública, pois é preciso que primeiro aconteça a inclusão quanto ao acesso a uma BOA educação pública e gratuita. O que precisa, de fato, é de uma política educacional séria no país.


Em contrapartida, na rede particular, o desinteresse por parte de muitos alunos também existe, mas neste caso o "desejo de aprender" é sustentado pelos pais que “pegam no pé” da garotada, pois pagam uma verdadeira nota nas mensalidades de colégios particulares acreditando em uma boa educação, sobretudo pelo o que é propagado por colégios “marqueteiros e de grife”.

E para que? Para o estudante passar no vestibular. Esse é o objetivo, via de regra. Então o estudante, muitas vezes, é "adestrado" para aquela finalidade.

Felizmente muitas dessas escolas já perceberam (ainda bem!) que o esquema "decoreba de fórmulas e escolas literárias" não serve mais.

E quando estudante moldado pela decoreba se depara com uma prova mais diversificada, acaba fracassando. O ENADE substituiu o antigo provão e, segundo o MEC, tem como objetivo avaliar os cursos universitários. As notas dos estudantes não são divulgadas e nem constam no histórico escolar. Para entidades estudantis como a UNE ( União Nacional dos Estudantes), o ENADE é apenas um “ranqueamento” das instituições, e não faz uma avaliação real do ensino superior, pois “O resultado do Enade não significa, necessariamente, que a universidade tenha uma boa qualidade de ensino, pois o aluno pode ter estudado somente para fazer a prova”

A Universidade Federal da Bahia, em seu curso de Medicina, um dos mais tradicionais do país ( na verdade o mais antigo), recebeu nota 2 em uma escala que vai de 1 a 5. Ex-estudantes de medicina da faculdade enviaram nota justificando o porquê da péssima nota no exame:

( os ex-estudantes) afirmam que a prova do Enade, realizada no domingo, 11 de novembro à tarde, ocorreu no período das avaliações de residência médica do estado de São Paulo, mais especificamente da prova da USP de Ribeirão Preto, realizada no dia 12 de novembro. "Muitos alunos, por priorizarem a prova de residência, não completaram todas as questões do Enade, ficando apenas o tempo mínimo exigido pela banca (1 hora), pois tinham que correr para o aeroporto para pegar um vôo para São Paulo e de lá um ônibus para Ribeirão", afirmam. Os ex-formandos dizem ter solicitado a liberação para não realização da prova ou então respondê-la no estado de São Paulo. Mas o pedido foi negado pelo Ministério da Educação.

Além de contestarem a data da prova, os ex-formandos afirmam que a maioria de seus colegas que realizaram a prova estão fazendo residência médica nas melhoras escolas do país, como a Escola Paulista de Medicina e a USP; e que o exame não pode traduzir a formação dos alunos, já que as questões são complexas e estudantes do primeiro semestre da UFBA também respondem a prova. "O Enade é completamente falho. Como estudantes do 1º semestre do curso podem responder questões subjetivas de prática médica, inclusive abordando diagnóstico e tratamento de determinadas doenças?", indagam.
Do site “Bahia Notícias”, de Samuel Celestino


Ou seja, não houve boicote declarado. As afirmações imbecis do “doutor-professor” Dantas também desviaram um pouco o foco de um desempenho tão ruim de um curso considerado “carro-chefe” da universidade, mesmo com as falhas na avaliação do ENADE apontadas pelas entidades estudantis.

Porém isso não justifica as infelizes e preconceituosas declarações do “doutor-professor” Antônio Natalino Dantas. Generalizações e determinismos lembram bastante as teorias eugenistas do começo do século XX e que eram muito bem acolhidas por pessoas como um certo Adolf.

UM DEBATE BOM

Em Salvador iria acontecer a surreal “Marcha da Maconha”, mas foi impedida pela justiça:

- Chegou ao nosso conhecimento a existência no site da descrição 'fume maconha', o que leva a crer num indício forte da prática de crime previsto na lei antidrogas, que é induzir ou auxiliar alguém ao uso indevido de drogas - afirmou Paulo Gomes Júnior, promotor de justiça. ( fonte AQUI)

Esta é a Lei 11.343/06:

“induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de droga acarreta pena de detenção de um a três anos, além de multa”.

Agora vem o debate bom. Não faço uso da erva e sequer sou simpático à droga, mas se “induzir e instigar” ao consumo da droga é prática de crime, o que as propagandas de cerveja continuam fazendo na TV aberta todos os dias em todos os horários?

Ou será que devemos nos deter ao simplismo das “drogas lícitas e ilícitas”?

Eis aí um assunto que dá pano pra manga!

E O RONALDO FENÔMENO, HEIN?
Pra distrair:


( Ministro Veiga é a alcunha deste que vos "escreve"...uhauhahua!)

6 comentários:

  1. uma dia chega a hora de eu discordar, e esta hora chegou, bom pra começar nao sei se na Bahia a educação publica é igual a do RS, mas se for, eu posso te dizer que todas as escolas, recebem sim livros didáticos, pq eu como pessoa do meu escolar, fui visitar as escolas e conheço varios professores e sei que os livros eles recebem sim, porem alguns nao deixam os alunos usarem os livros, ou computadores, ou etc... o q ja nao eh da alçada do gorverno federal mas da cabeça dos diretores de escola.
    passando depois as escolas de grife, q tem propaganda na TV, eu posso lhe dizer, estudei em uma dessas, e nunca teve nenhum caso grave de drogas ou outras coisas e o ensino sempre foi diversificado e tudo mais o q me possibilitou passar no vestibular de um univerisidade publica. e por fim eu estudo em uma universidade particular, e la todo mundo se esforça estuda e mto mais do q isso para passar, ser bom, etc... nao tem mto do esteorotipo filhinho de papai... enfim nao nego q em algum lugar do Brasil issos exista, mas nao podemos generalizar...
    beijaooo, otimo post apesar de eu discordar em partes

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  2. Imagine, Camila,pode discordar à vontade, o espaço é livre!

    Então, a educação aqui na Bahia certamente é bastante diferente da gaúcha. Posso te assegurar que em muitas escolas daqui os alunos não tem livros e sobretudo no período noturno. Sou professor também da rede pública e constato isso todos os dias ( eu, inclusive, estou nessa de "professores que tiram 'do bolso'" fotocópias, etc).

    E na rede particular daqui, pela minha experiência também, via muito "colégio de grife" com propagandas muito bonitas na TV e, ao verificar como se dava o ensino, in loco, vi que não era nada daquilo propagado - tradicionalismo e decoreba até não poder mais.

    Mas eu deixei uma mensagem bem otimista: "Felizmente muitas dessas escolas já perceberam (ainda bem!) que o esquema "decoreba de fórmulas e escolas literárias" não serve mais."

    O caminho é esse.

    Bjs e obrigado pelo comentário. Critique e discorde sempre que achar pertinente!

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  3. Sou de Salvador e fiquei revoltada com essa afirmação do tal "doutor", reitor da UFBA. Achei que ele fez esse tipo de comentário sem nenhum tipo de argumento válido e sem nenhum tipo de base. Sinceramente,o que se passava pela cabeça dele?O pior de tudo mesmo é que ele ainda é baiano. Eu não sei não, ai ai...

    Quanto ao ensino público é fato sim que é precário e quanto as escolas particulares posso dizer que de forma indireta alguns colegas de classe gostam de toda essa desigualdade social que tá aí, porque estudo numa dessas escolas de filhinho de papai, eles (professores, mais todo corpo do colégio) colocam o vestibular como o ápice da sua vida, que é aquilo é simplesmente tudo para uma boa entrada no mercado de trabalho. Porque já ouvi várias vezes fulano falando que as cotas só fizeram atrapalhar para que ele entrasse numa faculdade pública. Pois é, pois é. No final, é melhor para o pessoal da elite, o pessoal da burguesia falida, porque com toda desigualdade que tá aí, eles podem passar no vestibular, podem ser ricos etc e tal. Porque se não fosse nada disso, na mente deles, a concorrência seria pior e eles não poderiam desfilar de jaleco -nojento- pelas ruas de Salvador e colocando os mesmos jalecos como forro no banco do Corolla novo.

    No final, creio que isso nunca irá acabar, entende? Porque simplesmente tem uma parcela da população que de forma indireta se sente satisfeito com isso. Descobri que é algo natural do ser humano se sentir melhor quando existe alguém pior do quê você.

    Gostei daqui, visitarei mais vezes.

    =*

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  4. Sou paranaense, mas estou totalmente de acordo com vc quanto as cotas.

    "não é com uma política de cotas que vai resolver o problema da inclusão quanto ao acesso a uma faculdade pública, pois é preciso que primeiro aconteça a inclusão quanto ao acesso a uma BOA educação pública e gratuita. O que precisa, de fato, é de uma política educacional séria no país."

    Já especulei bastante sobre isso na internet, mas poucos ouvem, a maioria acha que só as cotas está bom e não vêem o problema como ele é realmente.

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  5. A tal "marcha da maconha" deve passar por Natal por esses dias, no mítico Beco a Lama - reduto da boêmia da cidade desde sempre, localizado a pouco mais de 300 metros da Prefeitura.

    Até agora, não há impedimentos a vista.

    valeu a visita no Canalhismo Fantástico. Voltarei mais vezes!

    abraço

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  6. Eita! Esse coordenador não tem nem q nem i... E eu nem sei o que é isso, deve ser porque não toco nem birimbau!
    Recrimine a cerveja e veremos o país afundar de vez. Legalize a maconha e veremos o emburrecimento geral. Sei não e dar minha opinião pode me causar processo criminal. Não gosto de droga, não acho interessante quem usa droga, mas não gosto do tráfico nem da falta de liberdade de escolha.
    Ronaldinho? O cara é carioca, de Bento, mas não sabe diferenciar uma mulher de um homem. Imagina três de uma vez!!!!!
    Adoro e ainda apaixonada por vc.
    Beijinho.

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