sábado, abril 05, 2008

SENSACIONALISMO E HIPOCRISIA - A IMPRENSA NO CASO ISABELLA NARDONI E A QUESTÃO DO "EXISTIR"

Acabou a dengue no Brasil! A agonia de quem depende do serviço público de saúde na cidade do Rio de Janeiro e as mortes, sobretudo de crianças por conta de uma picada de mosquito, já não têm mais espaço na grande imprensa. Atualmente o grande “filão” do jornalismo - notadamente o telejornalismo - é montar acampamento defronte ao prédio onde a menina Isabella Nardoni, de 5 anos, que poderia ter sido arremessada do 6º andar ou mesmo deixada quase morta no jardim do prédio onde morava junto com o pai e a madrasta e transformar essa trágica história em verdadeiro circo.

Antes de continuar a leitura, é bom deixar claro: não se trata de um insensível escrevendo aqui. Claro que a morte da garotinha é um caso triste, trágico e que ganhou dimensão de interesse nacional e até internacional. Também não vou entrar na armadilha de opinar sobre quem matou ou como a Isabella morreu. Este texto procura abordar o sensacionalismo a hipocrisia por parte da imprensa e mesmo da opinião pública.


Trabalho em escolas situadas nas periferias de Salvador. Sim, Salvador também tem periferia, ao contrário do que propaga o marketing da “cidade da alegria, da festa e de praia o ano inteiro”. E nestas periferias acontecem verdadeiras tragédias que passam batido ou, quando muito, recebem pequeninas notas nos jornais.


Em 2007 um aluno perdeu parte da família para as drogas: dois irmãos (um que era usuário de drogas e um menino com 8 anos) e a mãe foram assassinados friamente no barraco onde moravam. A mãe chegou a implorar que poupassem a vida dos filhos mas não foi atendida e ainda teve a própria vida tirada pelos “cobradores”.

Há muitas outras histórias, desde a aluna que perdeu o bebê de poucos meses de nascimento por falta de assistência médica decente até o aluno adolescente que, sem antecedentes criminais e sem nada que o comprometesse, levou um balaço na barriga (disparado por supostos PM’s) e sobreviveu por milagre. Ou da menina que era violentada pelo próprio pai e não freqüentava a escola porque o homem não deixava ou mesmo da senhora que, viúva aos 60 anos, volta a realizar seu sonho: estudar, pois o marido não permitia que a mulher fosse para a escola e a agredia quando falava no assunto.

Quem lê estas mal digitadas linhas ( além dos meus 4 ou 5 leitores corajosos) pode argumentar que tais situações são decorrentes da “situação em que o Brasil se encontra”; há até quem diga que se a pessoa “morre por causa das drogas é porque procurou por isso”.

O tratamento dado pela imprensa e pela opinião pública a tais fatos citados acima, quando existe, é algo frio e distante. Estas notas simplesmente passam batidas, não merecem atenção, não causam “indignação nacional”, são tratadas como coisas comuns de periferia, de gente pobre e miserável. São apenas números que engrossam as estatísticas da violência cada vez mais assustadora e crescente em Salvador.


Tampouco acontece o nascimento de famigeradas “ONG’s” que fazem passeatas ridículas pedindo “paz” com todo mundo vestindo branco achando que tal ato irá ajudar alguma coisa contra a violência. Estes mesmos que estão ali pedindo “paz” vestidos de branco serão os primeiros a xingar de todos os nomes possíveis um motorista que deu uma “fechada” no seu veículo em trânsito. Infelizmente a CPI das ONG's arrasta-se a passo de tartaruga. O que tem de ONG picareta por aí levando (muito) dinheiro não tá no gibi. Taí um assunto que a imprensa deveria investigar com maior interesse.

E vamos deixar de rodeios: mortes como a da menina Isabella e do João Hélio, arrastado por bandidos no RJ, viram “destaque” e “comoção nacional” porque são vítimas brancas, de classe média e crianças bonitas. São episódios que chocam, sem dúvida, mas isso não é conversa de ressentido marxista ou de xiita esquerdista - o Brasil conserva suas formas de preconceitos sob o mito da igualdade racial. Basta verificar qual a preferência de crianças para a adoção no país: a maioria dos pais adotivos quer criança branca ou branca até moreninha.

A “revista” VEJA, guardiã da classe média que “sustenta esse país com seus impostos” já estampa em sua capa (toda preta, como se em “luto”) uma “investigação filosófica, psicológica, religiosa e histórica sobre a perversidade humana”.

Matar crianças é uma perversidade, sem dúvida, mas e quando uma mulher mata o marido, corta-o em pedaços, frita-os em óleo e depois são colocados em sacos plásticos não se configura em uma perversidade que merece também uma ampla discussão filosófica, psicológica, histórica e até religiosa?

Quando um menor de idade mata um bonito casal de namorados surgem imediatamente debates sobre a redução da maioridade penal para 16 anos, passeatas hipócritas “pela paz” e todo um sentimento de indignação. Só que tal sentimento e mobilização não acontece quando um grupo de jovens de classe média queima índio em praça pública, agride a socos e pontapés empregadas domésticas em pontos de ônibus e mata um policial para roubar um celular.

Aí acontece justamente o contrário: há alguma exposição dos fatos, mas logo notícias sobre a lenga-lenga da votação de uma emenda qualquer em Brasília viram destaque e o foco é o governo Lula, o futebol o noticiário internacional... ou o vencedor do Big Brother, a nova onda dos adolescentes, etc. O negócio é desviar o foco dos habeas corpus e dos advogados que entram em cena para livrar os filhos que “tiveram tudo na vida” da cadeia. Uma rápida visita a várias dessas escolinhas particulares sobretudo de “grife” é o suficiente para perceber que muitas crianças não “tem de tudo na vida”. Brinquedos e joguinhos eletrônicos não são o mais importante na formação de uma criança, mas isso é outra história.

E veja que interessante o tratamento da imprensa às manifestações: quando uma dessas ONG’s picaretas fecha o trânsito das avenidas nas grandes cidades para realizar suas “passeatas pela paz”, isso vira uma mobilização bonita e é algo positivo, pois trata-se de manifestação pela paz, pela ordem, pela justiça. Senhoras com seus óculos escuros gigantescos ( máscaras que escondem o espelho d'alma), com a cara retocada por meia dúzia de plásticas, botox, quilos de maquiagem e um poodle a tiracolo dão entrevistas profundas e relevantes que certamente farão os bandidos seguirem o sacerdócio e abandonarem o crime e o tráfico de drogas.

Em contrapartida, quando um grupo da periferia fecha o trânsito em uma rua ou avenida a fim de reivindicar justiça ou melhorias no bairro, tal ação é tratada como “tumulto” ou manifestação com “manobras políticas”.


E o pior de tudo: uma equipe de TV ou jornal cobre a manifestação e foca justamente no congestionamento causado pela passeata e o supra-sumo: entrevistas com motoristas revoltados que saem-se com o clássico “quer fazer manifestação tudo bem, mas não atrapalhe a vida dos outros” mas sobre os problemas do bairro, ou seja, o que deu origem ao manifesto, NENHUMA LINHA no jornal, nenhuma matéria mais apurada na TV. No máximo um frio e seco “os moradores protestam por segurança no bairro”. Pronto.

Tudo o que está escrito aí são chavões? Configura-se em “senso comum”? Soa simplista demais? Pode ser tudo isso. Não importa. Não há aqui nenhuma pretensão em acirrar uma ‘guerra de classes’ (quanta ingenuidade, Miriam Leitão!) ou posar de “porta-voz dos excluídos”.


Nada disso. É apenas a constatação: uma realidade ou um fato, para "existir", é preciso ser explorado pela TV e de preferência numa espécie de Big Brother jornalístico para indignar, comover a opinião pública, explorar o assunto exaustivamente - e agir até como "juiz", julgando e condenando quem é suspeito de um crime - para tornar-se "líder de audiência". E acontece o pior: o desejo de vingança por parte desta mesma opinião pública.


Neste caso da Isabella Nardoni, basta dar uma circulada pela internet para verificar os comentários que já julgaram e condenaram o pai e a madrasta como culpados pelo assassinato, embora a Justiça não tenha chegado a uma conclusão ainda.

A leviandade está em alta e em evidência. A mãe da Isabella, Ana Carolina, é acusada de "insensível" por não se descabelar em lágrimas ao dar entrevista; há até quem consiga imaginar que Ana Carolina vá, num futuro não muito distante, posar nua, pois ela é a "mãe do momento, bonita e serena". Ao menos no Brasil não existe a tradição de se transformar em séries ou filmes tais situações. Pensando bem, não é necessário. O tempo dedicado a este assunto nos telejornais ( de todos os gêneros, dos mais "elitizados", digamos assim, aos mais "popularescos") já é suficiente para uma película e continuação.


Quantas "Isabellas" não perdem a vida todos os dias em circunstâncias tão ou mais trágicas? Estas "Isabellas", se negras e moradoras de periferias, jamais existiram. Serão contabilizadas em estatísticas frias. Suas histórias não serão conhecidas. Não haverá missa. Não haverá indignação. Não haverá ONG. Não haverá pressão de grupos de direitos humanos. Não haverá reportagem de capa nas principais revistas do país. Não haverá novela ou Big Brother jornalístico.


Em suma, o visível nos aprisiona no visível. Para o homem diante da televisão é suficiente o que vê, e aquilo que não é visto não existe. Tal amputação é colossal. E se torna ainda pior pelo motivo e pela forma com que a televisão escolhe aquele detalhe visível, entre centenas ou milhares de outros eventos igualmente dignos de consideração.
SARTORI, Giovanni. Homo Videns - Televisão e pós-pensamento. p.71. Bauru-SP: Edusc,2001

11 comentários:

  1. Parabéns pelo blog!! Tá na hora de começar a investir num Adsense/Hotwords nesse blog. Tem muito conteúdo pra fazer $$$ aqui.
    E sobre o artigo... Faz tempo que a imprensa deixou de ser uma fonte de informação e migrou pro sensacionalismo.

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  2. Oi, Marcel! Obrigado. Confesso que sou um tanto ignorante ( tá bom, ignorante total) em alguns casos ( tipo RSS, AdSense, etc), mas já passou da hora de eu tentar me atualizar, também...rsss. Mas obrigado pela visita e comentário! abs!

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  3. ACABEI DE COMENTAR SOBRE O MESMO ASSUNTO EM UM OUTRO BLOG. ATÉ MESMO NÓS QUE NOS ACHAMOS ESCLARECIDOS E COM POSIÇÕES FIRMES, ACABAMOS, DE VEZ EM QUANDO, EMBARCANDO NESSA DE SÓ VER O QUE A GLOBO QUER. É FODA! A MISÉRIA E A VIOLÊNCIA ESTÃO APRONTANDO DAS SUAS DO NOSSO LADO, E O QUE RELUZ É O BRILHO DA TELINHA. MAS ISSO VAI MUDAR, ESTAMOS DE OLHO!

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  4. A imprensa dá tanta repercussão a um caso só (como da pobre Isabella), que esquece do resto. Parabéns pelo texto=]

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  5. É isso aí velho Groo!!
    Quando vejo relatos do teu cotidiano bem parecidos com minha realidade profissional, constato que casos semelhantes de perversidade humana que enfrentamos são banalizados em comparação com outros.
    Lembro de um depoimento recente sobre esse caso da Isabella, uma mulher achava q um pai não seria capaz de tal ato maldoso. Não estou julgando ninguém, pois se estou viva e vivendo posso perfeitamente como qualquer um, ser um dia acusada de algo semelhante, sei lá.
    Bem, pai e mãe ou seja PESSOAS são capazes de atrocidades inimagináveis. Poxa! Quer dizer q ser definida por mãe tirará a culpa e a maldade? O ser humano é perverso, creio q as pessoas vivem em luta interna, um lado puxa para o 'bem' e o outro para o 'mal', e aí? Ser velhinho ou criança te livra também? Quando vejo um caso desse olho o lado do ser humano q é imensamente falho. Não sei quem falhou nesse caso o que sei mesmo é que julgar alguém é uma das piores coisas a se fazer na vida. Alguém pode condenar hoje e o filho a quem AMA for acusado de algo semelhante um dia, vai querer desculpá-lo e inocentá-lo.
    E por aí vai...

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  6. concordo com tudo que você falou, uma vez ja falei disso tb, que a midia so mostra o que quer, com naquele caso que a mae salva o filho de se afogar no poço, e ninguem mostra que eles nao tinham agua, que vivam em pessimas condições, so mostram uma mae que salva um filho, nossa parabens, todos os dias as maes salvam os filhos, aquela nao foi a primeira nem a ultima. eu me indigno com isso, e por isso nem comento mais estas coisas...
    bjaooo

    =*

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  7. Nesse caso, fico imaginando como a mãe da garota está reagindo a isso tudo, esse sensacionalismo em cima de sua tragédia...

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  8. Parabéns pela bela matéria, nem vou chamar o texto de post, porque realmente não foi. Temos ai uma matéria completa sobre o sensacionalismo da mídia. Muito rico mesmo.
    Quem dera se todos os pedidos de PAZ pelo mundo fossem reais, se todas as indignações fossem verdadeiras. Em alguns casos sim, em outros não. Infelizmente a impressa esquece assuntos que deveriam ser tratados com ênfase para dar lugar ao sofrimento de pais e familiares.
    Se pelo menos a maioria da população fizesse alguma coisa com certeza essa nossa realidade seria outra, mas são poucos que fazem e poucos que expoem as suas idéias.
    Posso está sendo repetitiva, mas quero parabenizar pela bela matéria.
    Um abraço

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  9. ótimo texto...

    infelizmente a merda do dinheiro manda nesse país.

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  10. Entendo você. Lhe digo que se as pessoas realmente soubessem da gravidade da dengue estariam todos apavorados e não apenas as famílias que tem sofrido com o caso. Sabe como a dengue tem ganhado um pouco de espaço na mídia? Chegando até pessoas como diego hipólito, grazi massafera, ana paula arósio, etc. Em toda parte existem histórias trágicas como essa que você contou, da família da periferia de sua cidade. É o tráfico de drogas, armas, a impunidade, a manipulação da polícia pelo dinheiro... A corrupção! Sobre ONG's acho absurdo, prefiro nem manifestar minha total opinião... Acredito que houve uma banalização geral no sentido desses órgãos que agora estão recheados de oportunistas e tudo é feito na maior cara de pau! Acho que deve haver espaço pra tudo na mídia, até para as nossas mais intensas futilidades. Eu não concordo é com a manipulação dos fatos, a distorção dos sentidos e a proporção dada, que geralmente irreleva a importância de determinado fato. Também não sou uma pessoa fria, sem coração... Mas o caso de Isabella de nada tem haver com tudo isso... todo mundo quer saber o que aconteceu porque a maioria gosta de filmes policiais regados à lacunas e tramas, ninguém tá se lixando à cobrar do poder público o controle da situação da dengue. Eu nem vou dar notícias sobre os caras que queimaram o índio porque vai gerar mais indignação.

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  11. Vim agradecer a visita e o coment's que deixou lá no blog intimista. rs!
    E quanto ao seu post eu já havia comentado, mas para não passar em branco.
    Continua o sensacionalismo em cima do caso da Isabella.

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