sábado, maio 28, 2005

Lar, o doce lar.

Lar, o doce lar.

A casa estava uma zona só. Latas de cerveja vazias espalhadas pela casa, uma pilha de jornais velhos num canto da sala, revistas amontadas sob a mesinha que estava repleta de bitucas de cigarros, já que o velho cinzeiro não dava mais conta; Um cesto de roupas abarrotado no banheiro de azulejos azuis que não via limpeza há um bom tempo, mesma coisa acontecendo na cozinha, onde as panelas e pratos eram acumlados na pia à espera de uma palha de aço e detergente. Os copos e xícaras estavam sobre a mesa e os farelos de pão estavam por toda a parte.
Lá fora, numa pequena área que chamava de “quintal”, Reinivaldo se espreguiçava numa cadeira de praia. No chão, latas de cerveja; No colo, Metamorfose, de Kafka. “Vida de solteiro”, pensava ele, “é uma tranqüilidade”.
Reinivaldo trabalhava em um banco, no setor das compensações. Conferindo cheques e liberando a grana. Trabalhava das 22 às 4 da matina. Na região central. Uma beleza: Era sair do trabalho e dar de cara com as boites, notívagos e garotas em promoção de fim de expediente. Foi numa dessas que saiu com Rafaela. Um belo nome de guerra, pensou. Foram pro hotelzinho onde a garota trabalhava.

Ao entrar no...escritório, pois se trata de uma profissional, nosso amigo Reinivaldo exclamou:
- Puta merda! Que pocilga!
- Escuta aqui, docinho, pode ser uma pocilga, pode ser o que for, mas vai ser aqui. E aí?
-Porra, tem até barata aqui...olha uma ali!
-Vem cá, você veio aqui pra pra olhar a decoração ou pra meter?
- Se eu soubesse que seria nesse chiqueiro, teria pedido um desconto!
-Olha aqui, cara! Deixa de conversa! Vai querer ou não?
- Peraí! E esse lençol? Há quanto tempo não é lavado? Nem quero saber, na verdade... e tem até um banheiro ali...a descarga funciona?Tem um Pinho Sol pra jogar lá? Aliás, esse quarto precisa de uma bela vassourada! Nem olho debaixo da cama pra não assustar... Não,não, não mesmo: nessas condições tem que rolar um desconto!
-Que porra de desconto? Se não quer aqui, me leva então pra uma suíte desses motel de nome ou pra sua casa!
-Imagine se vou levar vagabunda pra minha casa! Olha só, tô pagando 10!
-O cacete! É 20!
-Pago 10!
-Faço 15 pra encerrar essa noite de merda!
- 10! Só pago 10 e é muito!
- Tá bom, 10 pau. Agora,vamo logo que vai amanhecer.
Ao terminar o serviço, o dia já estava amanhecendo. Enquanto a cidade se levantava para mais um dia de trabalho,tudo o que Reinivaldo queria era uma boa manhã de sono. Talvez tivesse que trocar o lençol. Era quinta-feira. Pensava em chamar uma diarista no sábado. Mas, para quê? Nunca recebia visitas, mesmo...se recebesse, quem sabe...até aqueles incensos chatos. Mas não ligava; Alguma cerveja, um bom livro e, quem sabe, uma boa música era do que precisava para tornar a vida menos dura. Desceu do ônibus, passou na padaria, tomou uma média e foi pra casa.



sábado, maio 21, 2005

Classe


Outro traço grootesco...mas o que vale é a mensagem...qua qua qua!

CRASSE MÉRDIA

- Diabos, Gilda, essa vizinha pedindo coisa emprestada de novo?!
- Que que tem,Josival? O ferro dela queimou e a empregada precisa passar a roupa,ora. E ela devolve as coisas.
- Essa aí pede tudo emprestado: desde xícara de açucar até ferro de passar roupa!
- E por que isso te incomoda?
- Por que? Por que? São uns imbecis! O cara taí de carrinho novo, celularzinho cheio de pose, a mulher é uma perua mas quando foi dito na reunião que iriam aumentar o condomínio pra pintura no fim do ano o babaca foi o primeiro a dizer “não tenho condições”. Idiota!
-Ué, cada um sabe onde aperta o calo...
- E todo fim de semana tem festa desses caras! Som alto, gente entrando e saindo do prédio, criança gritando, batendo nas portas, gente errando de apartamento... eu odeio esses vizinhos!

Josival é um cara mais reservado. Ao sair pro trabalho, pela manhã, é só bom-dia e nada mais pros vizinhos; Odeia se atrasar e cumpre religiosamente seus pagamentos e orgulha-se de não ter nenhuma dívida; Já a dona Gilda fala com todo mundo. O bom-dia prolonga-se pela manhã toda. O vizinho da frente é o pesadelo de Josival:

- Olha lá, Gilda, lá vai ele: indo pro estádio. Se ainda torcesse pra um time que valesse a pena...mas,não: prioridade pra ele é a porcaria do time, da cerveja, do celularzinho moderno, das festinhas... o prédio precisando de reparos e ele diz que não tem dinheiro... sujeitinho folgado!

A semana transcorreu normalmente, até que chegou o sábado.

-Josival, o vizinho convidou a gente pra uma festinha.
- Coméquié?
- É, uma festinha...não sei direito o que estão comemorando, mas nos convidaram.
- Perdem tempo. Eu não vou.
- Josival, é uma boa oportunidade pra se entrosar melhor com os outros moradores...
-Ele convidou o prédio inteiro??
- ELES convidaram todo mundo...os amigos, vizinhos...
-O babaca que me espere sentado...eu não vou! Imagine! Não tem dinheiro pra reforma, mas tem pra bancar cerveja pra um monte de vagabundo! Sem chance!
- Vai ficar feio se a gente não for... é até falta de educação e...

De tanto Gilda insistir, eles foram à festa no salão, ainda que Josival tenha dito “só meia hora, boa noite e tchau”. Era cedo... 9 da noite, ainda. Mas já tinha bastante gente...E Josival olhava em volta: o pentelho fã de Star Wars do 601... o hippie deslocado do 402... o advogadozinho porta de cadeia do 501...e ele, o vizinho, já com um pandeiro na mão junto a dois caras destroçando dois violões...e a cerveja rolando. “Babaca, babaca, babaca!”, pensava Josival. E o vizinho cantava alto, era o destaque no salão: “Deveria colocar uma melancia no pescoço...babaca!”. Gilda já estava entrosada com as outras mulheres do prédio e Josival ali, só olhando o vizinho, “que nem notou minha presença ainda, ou só quer se mostrar pros outros, esse babaca, esse...”

- Vizinho! Você veio! Vem pra cá, chega mais!

Josival dá aquele sorrisinho sem graça e chega junto. Não entendia porque esava ali. Achava o vizinho um babaca, queria ir embora, só não ia por causa de Gilda, que parecia gostar da festa. Mas em meia hora simularia uma dor de cabeça e se mandaria. Aquele pagodão, a cerveja, aqueles caras contando piadas batidas, fofocas de outros condôminos, quem bota chifre em quem, o time mal no campeonato...

2 horas da matina. O pagode rola no som, a cerveja acabou, mas alguém traz vinho barato; As mulheres reunidas numa conversa que não acaba mais; Os homens reunidos bêbados ou quase,resolvem homenagear o anfitrião da festa:

ELE É UM BOM CAMARADA! ELE É UM BOM CAMARADA! ELE É UM BOM CAMARADAAAAA...NINGUÉM PODE NEGAR!

E, no meio deles, lá estava o Josival, que levanta o copo e diz:

-Buta qui o pariu,vizinho cê é gente boa pra baraio!


LinkWithin

Related Posts with Thumbnails