sábado, janeiro 08, 2005

Diários grootescos do sertão – parte 2

Deixando o posto policial para trás, Groo encara mais um trecho da Estrada do Feijão, que deveria chamar-se Estrada do Queijo Suíço. Para percorrer um trecho de 52 km Groo leva 1h e 50min. Cronometrados. É verdade que o governo da Bahia adota a filosofia turística do “sinta-se em casa”, mas uma estrada onde os buracos foram substituídos por crateras só agrada mesmo aos marcianos ou plutonianos, tão acostumados com este tipo de relevo.
Saindo da Estrada do Queijo...do Feijão, Groo toma a estrada que leva ao aprazível munícipio de Mairi, em região conhecida como “Piemonte da Diamantina”. Isso quer dizer que é quase parte da Chapada. Quase. A cidade de Mairi, antigamente, chamava-se “Monte Alegre”. É boa questão saber de onde vem esse nome, Mairi.
A estradinha tem um buraco aqui, outro ali....mas nada demais. Dentre algumas povoações ao longo do caminho, uma delas chama a atenção do Groo: Lasca gato. Isso mesmo: Lasca gato! Um lugarzinho com uma dúzia de casas ( sendo a metade boteco).
Era quinta-feira à tarde, dia 30 de Dezembro. Á beira da estrada, ainda na grande extensão territorial do lasca gato, um boteco absolutamente lotado. Groo até diminui a velocidade só pra sar uma sapeada. Um monte de caras lotando o boteco ( e nenhuma muher – isso Groo reparou!), enchendo a cara de cerveja e ouvindo o arrocha nas alturas. Só cara jovem. Groo fica pensando se a roça não tinha mais trabalho para fazer... Só que, 1km depois de deixar o grande Lasca gato, um tiozinho com uma pá jogava terra nos buracos da estrada e pedia moedas aos que passavam por ali.
Groo fica um tanto confuso...Se der uns trocados pro tiozinho, quem garante que este trocado não será pra uma Casca de Umburana* lá nos botecos do Lasca gato? Será que o tiozinho tem filho? Será que este filho estava no boteco do arrocha e da cerveja? Groo resolve, então, não dar a gorjeta:

- Tem não, meu véio...Feliz ano novo ( Groo, o cara-de-pau!)
- Que Deus te dê boa viagem!
Cara legal...Em Salvador outro diria:
- Vai tomar naquele lugar!

Groo chega ao entrocamento onde deverá tomar outra estrada para chegar ao povoado do Alto Bonito ( é alto, sim, mas bonito é outra história...), onde próximo dali seus pais tem uma fazendinha e passaria a virada do ano em companhia destes e de parentes.
Estrada é modo de dizer. Na verdade é uma trilha. Estradinha de terra. Groo sente-se como um participante do Paris-Dakar. Legal! O problema é só a supsensão, o alinhamento, o cárter, os pneus...
Finalmente Groo chega ao topo...ao Alto Bonito! Graças ao calor, o povoado parecia uma cidade fantasma: Todo mundo em casa. Não se via um’alma na rua. Deixa pra lá. Groo vai direto pra fazendinha ( uns 2 km de distância do povoado) e finalmente recebe os abraços dos pais e um litro de água gelada!

***
Noite de 31 de Dezembro, 22 h. A casa tá cheia. Parentes e amigos resolvem passar o ano novo na fazendinha, mas logo depois os mais jovens se mandam pro povoado, onde no clube local haverá uma festa( um homem. um teclado. Júlio Nascimento! O cantor das multidões!). Uma cervejinha aqui, um salgado ali, um dominó acolá...e a conversa dos sertanejos.Uns 6 caras de meia idade reunidos. O esporte preferido da região é falar da vida dos outros. Groo fica só ouvindo a extraordinária história onde o destino mete seu dedão:
- Rapaiz, tu soube da fia de Nenê de Bieca?
- Aquela que trabaia na casa di dotô Pedro ni Salvadô?
-É, essa memo!
- Oxe, qui qui tem?
-Vai imbora.
- Pra Sum Paulo?
- Não. Prus Istadusunido!
- É memo? ( dois sertanejos de uma vez, bem enfáticos)
- É,sim, vê como é as coisa...
- Rapaiz, e vai assim, na doida?
- Oxe, e ela num tem o irmão qui mora i trabaia lá?
- Tuninho?
- É! E o home tá é bem pur lá!
- Tá rico?
- Oxe, o home é dono di restaurante lá praqueles lado!
- É memo? ( desta vez três sertanejos de uma vez, bem enfáticos)
- Oxe, o cara arrumou uma mulé gringa lá ( não diga!) e se deu bem!
- Rapaz, eu mi lembro do tempo qui Tuninho vinha tirá lama da cacimba**!
- Oxe, e ele que saía lá da Tiririca*** e vinha buscar lenha cá perto das Caraíba?****
- É...agora você vê, né, rapaiz, o que é o distino! O qui tem qui sê do home ninguém tira ou si num é pra sê, num é! Vê só Nelso di Abilo. O home foi pra Sum Paulo, inricou, abriu sei quantas loja lá...
- ...morava numa casona...
- Oxe, era uma só? Ele tinha era um bando! E vinha aqui e comprava terra...rapaiz, essas terra tudo ali da Bizerra***** até Dotô Arnaldo era dele! E hoje, o cara tem o que?
- Tá na miséria!
- Oxe, ele vendeu tudo quanto foi terra, parece qui separô da mulé, foi um processo milhonário, faliu com suas loja...
- O home gastava muito...
- Pois é, mais num é só isso não, rapaiz: É o DEDO DO DISTINO que às veiz aponta pra pessoa errada! Eu é que me mato trabaiando aqui esperando que esse dedo mi aponte alguma sorte mais até agora nada!

Groo, que estava calado ( e seria melhor se permanecesse), intervém:

-É, tio...mas o único dedo que o senhor vai sentir é dedo do médico quando fizer o exame de próstata! Tá na hora, hein, véinho?

Grootesco. Só podia ser o Groo, mesmo...
***

Coisa estranha era a TV ligada comemorando o Ano Novo em SP e RJ e na Bahia ainda pouco mais que 11 da noite...
- Mais cuméqui pode, tá errado! Tem qui fazê as coisa no horário de Deus!, exclamou uma tia do Groo.
Finalmente, a virada no “horário de Deus”, o horário certo. O de praxe: Adeus ano-véio, filiz ano-novo,discursos, abraços, blá-blá-blá e tal, champagne, cidra, cerveja, uísque, peru, molecada cansada caindo de sono pelos cantos... Enfim, tudo normal.

Quando deu umas 2 horas da madruga Groo resolve levar alguns tios e primos e primas até o povoado. Depois de “descarregar” alguns em suas casas, volta para o clube para conferir o homem. o teclado. o cantor das multidões. Júlio Nascimento!
Só esqueceram de avisar à população que o “um-homem-um-teclado” era o “cantor das multidões”: umas 50 pessoas presentes no clube para conferir a perfomance do “um-homem-um-teclado”.

Este foi o ano novo do Groo: Ao lado de gente simples do interior, as quais ainda podemos cumprimentar e,certamente, receberemos um cumprimento de volta ( e não o rosnado característico da “capitar”); Lugares pequenos tem a desvantagem de todo mundo obervar “minuciosamente” o que se veste, o que se calça,o que se faz. Mas ainda conserva um ar de despreendimento quanto a certas bobagens típicas de cidade grande, como stress, por exemplo ( apesar que a TV, presente em todos os rincões do Brasil, vai acabando com esse ar ingênuo e fomentando cada vez mais o “ter”.)

Ainda que passado algum tempo, Feliz ano novo a todos os amigos!

terça-feira, janeiro 04, 2005

Diários grootescos do sertão – parte 1

O melhor da viagem é a viagem, não o “chegar”.
Desta forma, lá vai o Groo providenciar uma trilha sonora adequada para cruzar 300 km de estradas até o sertão baiano para passar as festividades do ano novo junto aos pais, parentes e amigos.
Há tempos que a trilha sonora do sertão foi a música sertaneja. Hoje o sertanejo ouve – e é obrigado a ouvir, graças aos botecos e carros com o porta-malas escancarados na pracinha central- coisas do tipo “arrocha” e “brega”. Na verdade o arrocha é uma letra brega com dança mais “sofisticada” que a lambada.
Como o velho Groo curte rock, lá vai ele pela estrada ouvindo o bom rock caipira dos ianques: Neil Young, Creedence, Lynird Skynard...
BR-324. A estrada que liga Salvador à Feira de Santana, cidade conhecida como “princesa do sertão”. É uma distância curta, apenas 100 km. Não há grandes atrativos na via, a não ser um grande outdoor com uma modelo muito bela fazendo propaganda de...lingerie! O DNER – Departamento Nacional de Estradas de Rodagem deveria proibir esse tipo de propaganda às margens de uma rodovia. Um corsa deslizou na pista ao passar pelo outdoor. Risco de acidentes na estrada.
O bom e velho Groo achou que a modelo tinha piscado , mas manteve-se firme no volante...
BA-242 – Estrada do Feijão. A rodovia estadual tem esse nome porque é a rota para a cidade de Irecê, grande produtora de feijão. Por ali escoava a produção do interior rumo à capital baiana. Escoava, sim, pois apesar da região permanecer com grande produtora, a rodovia assemelha-se à superfície lunar.
Cidade de Ipirá. Primeira parada do Groo para abastecer carro e estômago. Se bem que as opções dessas “lanchonetes” de posto em beira de estrada não são recomendáveis... aquela coxinha da semana passada; Aquele pastel frito no mesmo óleo que fritou os pastéis nos últimos 02 meses...é por aí. O bom e velho Groo vai mesmo é de um suco de laranja ( natural, feito na hora, algo surpreendente na ditadura das tetra paks) e um pedaço de bolo de milho ( ou fubá em pacotes, para ser mais exato). Uma televisão sintonizada na Grobo (que surpresa...), bem na hora do “jornal” Hoje dando cobertura ao maremoto que varreu do mapa ilhotas e destruiu países asiáticos. Ao lado de Groo, um grupo de caminhoneiros (talvez) sorvendo uma bela cerveja ( deveria ser proibido bebidas alcoólicas nas rodovias e em estabelecimentos à beira destas) e comentando as notícias:
- Rapaiz, que miséria essas onda, né?
- Oxe, num é o quê... Já pensou uma desgracera dessa em Salvadô?
- Ah, mais o Brasil tá fora desse perigo! Os cara falaro aí na televisão!
- Se soubesse que vinha uma onda daquele jeito, me agarrava num poste e quiria só vê quem mi tirava dali!
- Rapaiz, a velocidade dessas onda é de 800 km/h! Tu ia junto com o poste!
- Oxe, 800 km por hora??? Tá louco?
- Os cara falaro aí na televisão!
- E num é 80 km/h não???
- É nada! É 800 km/h e com 30 metros de altura!
- Oxe! De onde tu tirou isso, rapaiz?

O bom e velho Groo quis intervir e responder à pergunta do nobre caminhoneiro:
- Da garrafa que ele tá secando!

Claro que vosso amigo Groo tem bom senso e deixou pra lá a conversa dos caras e prosseguiu viagem. Mais ou menos 10 km depois de deixar a grande cidade de Ipirá, surge um posto da polícia rodoviária estadual. Sabedor da fama deste posto, Groo fica esperto. E não dá outra: La vem um guardinha dando sinal para o veículo encostar no acostamento. Vistoria de praxe, bela justificativa... reparem:
- A lanterna do freio tá queimada!
- Boa tarde, seu guarda!
- Boa. Liga a seta da direita...da esquerda...emergência....faróis....baixo...alto....cadê o extintor?
- Um momento.
O velho Groo entrega o extintor ao guarda e repara a expressão, os gestos do policial. Cheio de pose. “Otoridade”. Faz força para engrossar a voz.
- Extintor OK. Documentos!
O comportado Groo entrega os documentos ao guarda, que checa tudo demoradamente e entrega-os com o mesmo ar de enfado:
- Documentos, OK. Pois é, amigo, a lanterna do freio tá queimada!
- Seu guarda, mas não seria melhor verificar direito? Afinal ,o senhor não verificou as luzes da parte de trás, a ré...E não me consta que estivesse queimada essa lanterna...
- Ô, fulano! Chega mais! grita o guardinha para um colega de posto. Teria o velho Groo ofendido ao policial? E chegou o tal colega, um gordinho:
- Fala!
- Pisa aí no freio deste carro, nosso amigo aqui não quer acreditar na palavra do policial aqui.
Se o guardinha esperava que o Groo fosse se envergonhar e deixar a coisa pra lá...foi o primeiro a dirigir-se à parte de trás do carro e gritar:
- Pode pisar!
Para “surpresa” do Groo...eis as duas luzes do freio...perfeitas!
- Aï, seu guarda, tão funcionando, disse Groo, com uma cara de pau sem tamanho!
- É, deve ter sido o reflexo do sol , constatou um tanto desolado o guardinha.
- Posso seguir viagem,agora?
- Pode.
- Boas festas, seu guarda!
- Tá.
Após sair do posto e rodar alguns quilômetros, Groo ficou até com pena do guardinha...devia ter dado uns trocadinhos pra ele... Pelo empenho em seguir a lei nesta época do ano e preocupar-se com a segurança dos motoristas! Mas tá bom: O tal guardinha adquire super poderes ao vestir o seu uniforme. De cidadão comum a “otoridade”. Isso, dinheiro nenhum paga!

Em tempos vindouros: buracos, cerveja, mais cerveja, Estados Unidos e onde o destino enfia seu dedo.

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